terça-feira, junho 21, 2011

Momentos #4

#4
O sorriso irrequieto e rasgado da rapariga ia aumentando à medida que João se aproximava; e também aqueles olhos castanhos, enormes, cada vez mais curiosos e divertidos com uma abordagem que, assim se via, era por demais evidente. A discrição, o «não dar barraca» pareciam ter sido, naquele momento, catalogados por João como vetustos e anacrónicos cânones.
«Olá, boa noite» - cumprimentou João.
«Olá» - disse, simplesmente, a miúda, ao mesmo tempo que mordiscava a palhinha por onde sorvia a sua bebida, incolor à vista, depositada no copo alto de plástico.
Será uma miúda de vodka, perguntava João a si mesmo. «Bela obra esta, não achas», inquiriu ele, pretendendo manter as suas intenções ocultas; quais em concreto, também ele não sabia muito bem... mas... seria mesmo ela a modelo da fotografia?
«É... acho que sim... Não percebo muito disto», respondeu-lhe a rapariga, desinteressadamente, enquanto desviava o olhar de João, contemplando, em profundidade e perspectiva, o resto da sala que se ia movendo ao som da house music e de conversas de circunstância entre os convidados.
A resposta dada provocou em João algum desalento. Se realmente ela é assim tão leiga nisto, não pode ser modelo, pensou; as modelos conviviam com os profissionais, iam aprendendo alguma coisa; quanto mais não fosse, alguns jargões decorados, por forma a manterem conversas que as deixassem bem vistas junto a grupos de pseudo-intelectuais com algum dinheiro para gastar em arte, ou, quando o não tinham, com tempo suficiente para escrever críticas que só eram lidas por pessoas parecidas.
Mesmo assim, João voltou à carga: «Mas, então, nesse caso, o que te traz a uma exposição de fotografia?»
A rapariga esboçou mais um daqueles rasgados sorrisos, demasiado parecido com o do retrato que pairava junto deles, naquele parede; «isso agora...», respondeu naquela voz rouca que começava a provocar bastante mais do que apenas um qualquer encanto puramente platónico.
E tais pulsões, João sabia-o bem, punham-no imediatamente na defensiva, numa postura em que a timidez voltava a denunciar-se e a falta de jeito era sinónimo de nó na garganta, boca seca e, por vezes, faces coradas.
E a miúda a divertir-se com isso, notou João, ficando cada vez mais nervoso.
Levando à boca o seu próprio copo, aproveitou para, pausadamente, decidir o que dizer em seguida. «Isso agora, não. Podemos conferir a guest list em conjunto, se quiseres» - porra! Já me lixei, pensou João, em pânico. No meio da vontade em dar uma resposta divertida àquela sugestão da rapariga, algo tinha ficado pelo caminho, sendo certo que o resultado final tinha sido desastroso, num tom de agressividade despropositada. «Como eu sou idiota, pá!», exclamou no seu interior.
Contudo, por incrível que pudesse parecer, a jovem mostrou-se ainda mais divertida... E de repente disse: «Então é a ti que tenho de agradecer pelas bebidas à borla? Parabéns, tens aqui uma bela festa. Aquela a que fui há duas semanas não foi tão boa».
«Deixa-me adivinhar», interrompeu João, «és uma penetra de festas!». O seu sorriso amarelo, após se ouvir a si próprio, não deixava entrever a sua verdadeira frustração. Sim senhor, João, tu hoje estás lançado, miúdo; cada tiro, cada melro.
A conversa, com tais atoardas, iria acabar logo ali.
Mas, uma vez mais, a rapariga não desarmou e retorquiu a rir-se: «Nem por isso, não... Digamos que tenho os meus conhecimentos».
Seria namorada de alguns dos convidados? João não queria contemplar tal hipótese. Ela era enigmática, sedutora demais, para que a noite acabasse abruptamente, no preciso instante em que algum sujeito bem vestido, idiota e pedante, lhe pusesse um braço à volta da cintura e dissesse «lá estás tu a falar com estranhos outra vez... vamos para casa que já é tarde?», virando costas com um piscar de olho de "chico-esperto".
João gostava de se deixar envolver na teia da sedução, do limiar de possibilidade de um sonho apaixonado mas, bastas vezes, vinha-lhe esse travo amargo da realidade. É natural que uma miúda destas namore, ou, até mesmo, seja já casada, pensava.
«Bem... vou andando...». Ao ouvi-la, João abandonou as suas lucubrações e uma sensação de pânico invadiu-lhe os sentidos.
«Não vás já!», disse de repente, «fica mais um bocado». A entoação dada roçava já a súplica mal disfarçada, apercebeu-se, envergonhado do seu declarado desespero.
«Não. Não pode ser. Estava a pensar em ir beber um copo ali mais abaixo e está a ficar tarde», respondeu a jovem, deixando transparecer alguma impaciência com as insistências de João.
«Então vamos os dois» - sugeriu ele.
Ela riu-se com tal sugestão, perguntando de seguida: «Mas o que te faz pensar que quero ir contigo». João sentiu o impacto de um soco invisível, mas certeiro, mesmo no centro do seu estômago.
Contudo, não se deu por achado: «Vieste à minha galeria. Estivemos este tempo todo a conversar; livraste-me de alguns convidados que são uma verdadeira seca. Deixa-me retribuir, pagando-te um copo no bar, ali, no fundo da rua. É para lá que vais, não é?»
Durante alguns segundos, pareceu-lhe que ela ponderava tal insólito convite, num puro esquema de «deve e haver». Por fim, disse: «Bem... Se é mesmo para irmos, preciso de saber o teu nome. Não costumo deixar que estranhos me paguem copos. Eu chamo-me Luísa... e tu?».
«Ah... Eu sou o João... muito prazer», respondeu, rindo-se nervosamente. «Vamos então?».
«Hmmmm... João... Certo... Vamos lá», o olhar divertido de Luísa tinha assumido agora certos e determinados traços que João ainda não conseguia decifrar.
Da outra ponta da galeria, Mané, que falava com o empresário de Jacinto Lopes, notou que João se dirigia para a saída. Este tipo é sempre a mesma coisa, pensou.
Desculpando-se ao sujeito que lhe contava animadamente algumas supostas peripécias da sua vida de empresário de artistas - contando na sua carteira com aquela banda punk que tinha roubado a bateria ao grupo de baile da aldeia -, Mané dirigiu-se para a porta. Tendo agarrado discretamente João por um braço, disse-lhe em sussurro: «É sempre isto, pá. Fico eu aqui a segurar o forte, não é? Enquanto o menino se diverte com os seus engates. João, não te esqueças que eu estou para me ir embora e...».
João interrompeu-o: «Mané, não é nada disso. Desta vez, o interesse é puramente profissional».
«Profissional, hein? Mas pensas que estás a enganar quem, pá?» - Mané começava a perder a paciência; «o único interesse que devias ter é no sucesso deste lançamento e não em marcar pontos com essa miúda... É gira e tudo isso, mas tu tens responsabilidades, pá. E eu não vou cá estar mais para te lembrar delas».
Luísa estava já do lado de fora da galeria, no passeio da rua, falando ao telemóvel. Tinha um certo ar carregado, notou João intrigado. «Mané, eu sei que não vou poder pedir-te mais nada na vida. Por isso, dá-me uma folga hoje. Quero tirar uma teima com que ando desde o início da noite... Melhor, desde o início da semana».
«Tu já andaste foi no scotch, não foi, João?» - perguntou Mané, naquele jeito de quem já se conformava com tais hábitos do sócio.
«Não é nada disso, pá!» - exclamou João, vendo Luísa a olhar para o relógio, enquanto esperava por ele, o telemóvel já na mochila. «Repara bem na fotografia que está naquele canto... Esta miúda é a tal modelo! Tenho a certeza!».
«Mas o que é que isso interessa???» - por vezes, Mané ficava farto das obsessões infantis de João.
«Manuel, por favor, deixa-me ir! Amanhã falamos».
Olhando para João, Mané sabia que não havia mais nada a fazer. «Vai, pá... Sempre a mesma merda!». Este tipo vai ter de aprender por ele próprio, pensou, por fim.
João saltou para a rua e foi ter com Luísa. «Problemas?», perguntou ela, reticente.
«Nada disso... Coisas do meu sócio» - atalhou João.
Desceram a rua num estranho silêncio absoluto. Como se tudo o que tinham para dizer um ao outro já tivesse sido dito, restando apenas algo do género de «Está uma noite quente, não está?». Contudo, João não via grande utilidade em falar sobre o tempo, pelo que nem abriu a boca.
Ao entrar no bar, o som do jazz dava o mote a uma certa quietude acolhedora. Escolheram uma mesa junto à cabine do DJ, de um formato curioso, com a frente de um qualquer Cadilac cromado em tons de rosa, a sair da parede e escondendo no avançado que assim criava, a banca com os gira-discos, os leitores de CD's e os misturadores de som.
À chegada do empregado à mesa de ambos, João perguntou a Luísa: «Que te apetece beber?».
«Vodka tónico» - respondeu ela, olhando seriamente para o empregado. Afinal, sempre és menina do vodka, pensou João... «Sejam dois, então, por favor», disse ele ao sorridente empregado que parecia querer adivinhar, em jeito de quem achava já saber tudo, o propósito daquele casal recém-chegado. João não suportava tais hábitos, e, para não se irritar, desviou o olhar, para Luísa.
«Então, conta-me... Como é que deste com a nossa exposição?», perguntou, enquanto acendia um cigarro e as bebidas eram servidas.
Luísa deu um gole demorado na sua bebida, parecendo deixar-se levar pelo fresco travo agridoce da combinação; o limão, o gelo e a água tónica borbulhante eram a verdadeira essência e camuflagem daquele prazer culpado; daquele desejo de alguém se perder na ilusão etílica dos sentidos.
Mordendo ao de leve aqueles seus lábios carnudos, naturalmente vermelhos, perguntou em tom de desafio: «Diz-me, João, que te interessa isso ao certo?»
«Como já te dei a entender, podia pensar num milhão de razões, enquanto dono da galeria e autor da guest list... Mas o que eu realmente acho é que tu estiveste ali na exposição, hoje, a convite do Jacinto - eu cedi-lhe algumas entradas para os seus próprios convidados; tu és a modelo do #Semblantes»
Luísa sorriu ao de leve e disse: «Pois... talvez até seja... mas é só disso que queres falar? Foi só mesmo por causa disso que vieste comigo até aqui?»
Apetecia-lhe insistir até ter a certeza de que Luísa era, realmente, a modelo daquele retrato que tanto o intrigava e fascinava. Contudo, apenas disse: «Conta-me mais sobre ti, Luísa».
«Que interesse podes ter tu em mim, na minha vida?». Luísa não desarmava, naquele seu sorriso inquieto.
No entanto, naquele preciso momento, os olhares de ambos cruzaram-se, por instantes; e algo se passou. Num fragmento de segundo, pareceu a João que nada mais importava saber; que Luísa já lhe tinha contado tudo. A nitidez com que conseguia olhar para o fundo da sua alma, contrastava com aqueles grandes olhos castanhos que lhe tinham captado a atenção desde o primeiro momento.
Luísa parecia sentir o mesmo, pensar o mesmo...
Sem se aperceberem, os dedos das suas mãos direitas tocaram-se ao de leve, sobre o vidro da mesa, onde repousavam as suas bebidas; as bolhinhas de gás da água tónica subindo, a marcar um tempo que, de facto, a esta altura, era bastante acelerado.
Da entrada do bar, cuja porta se encontrava totalmente aberta, vinha uma brisa fria, o anúncio de uma madrugada prenhe de possibilidades.
Luísa aproximou-se suavemente de João; os lábios de ambos tocando-se, prenunciando o resto de um beijo demorado, suave e macio. O hálito de Luísa era doce e, ao mesmo tempo, quente.
«Uma foto não te consegue beijar assim, pois não?» - murmurou Luísa, afastando-se milímetros da cara incrédula de João.
Totalmente desarmado, João estava sem palavras. O coração batia-lhe descompassado e sentia que, a qualquer momento, se engasgaria, com falta de ar.
Se dúvidas ainda lhe pudessem pairar no espírito, as mesmas tinham-se dissipado naquele instante. Ele era agora prisioneiro de Luísa;
Que tinha retomado a sua pose enigmática e aquele olhar de menina irrequieta; como se inconsciente do que tinha acabado de fazer...


Alexandre Villas-Diogo, Momentos

quinta-feira, junho 02, 2011

Histórias da Água de Castello

Não te vás de mim e deixa-te ficar. 
Vem comigo aproveitar esta noite perfumada com aroma de pinheiro; junto às ribeirinhas margens iluminadas por candeeiros de tempos mais inocentes. Deixa que esta estação te marque o compasso, não pensando no que está para trás. O tempo não dá tréguas e na tua mão apenas o valete de copas te garante algum ganho. Procura a melodia e não te importes com a letra, pois a verdade das coisas encontra-se mais nos sentidos no que numa qualquer razão de médias ponderadas.
E tudo isto te digo porque, de certo modo sei que estar onde estou sem ti não faz qualquer sentido. E se assim é, fácil se torna de ver a razão pela qual o que escrevo também não faz sentido algum. O ímpeto da saudade apenas me diz para deixar a pena cibernética vogar ao sabor da brisa fresca com cheiro a cerejas. Não chego ou paro em sitio nenhum porque realmente nem cheguei a sair de onde me encontro. E deste modo, logo noto que já só falta um quarto para as onze…

segunda-feira, maio 23, 2011

Gira Discos

 

 
Final de tarde em Maio.

Com chuva e cheiro a terra molhada.

quarta-feira, dezembro 01, 2010

Gira-Discos



No dia de hoje, só podia mesmo ser esta a temática.

É bom saber que, à parte a crise, o FMI e a dívida soberana, teremos sempre, lá está, o verdadeiro Soberano à espera de ser chamado, contribuindo para uma mudança, também ela, verdadeira. Haja é coragem.

Viva o Rei! Viva Portugal!

domingo, agosto 29, 2010

O Banhista 2010

image
Com uma semana passada sobre tal registo, o banhista deixa um último conselho.
10º Conselho: Se é banhista leve a praia consigo... até ao próximo Verão!

sábado, agosto 21, 2010

O Banhista 2010

image
9º Conselho: Se é banhista liberte-se... mas com juízo!

quinta-feira, agosto 19, 2010

O Banhista 2010

image
8º Conselho: Se é banhista edifique.

segunda-feira, agosto 16, 2010

Foto0464

Postcard

Quando a neblina se instala e o sol se esconde, fica um pequeno aperto no peito ao recordarmos que o tempo passa, impermeável a qualquer desejo de constância.

O Banhista 2010

Foto0463
7º Conselho: Se é banhista, faça uma alimentação saudável.

quinta-feira, agosto 12, 2010

O Banhista 2010

Almost California... Just almost.
6º Conselho: Se é banhista, faça caminhadas.

quarta-feira, agosto 11, 2010

O Banhista 2010

Foto0420
5º Conselho: Se é banhista, consulte sempre o Boletim Metereológico.

terça-feira, agosto 10, 2010

O Banhista 2010

Foto0414a
4ºConselho: Se é banhista, mantenha-se vigilante.

segunda-feira, agosto 09, 2010

O Banhista 2010


3º Conselho: Se é banhista, respeite a bandeira.

O Banhista 2010


2º Conselho: Se é banhista, não beba.

terça-feira, julho 27, 2010

O Banhista 2010

1º Conselho da época balnear 2010: não vá para a praia sem guarda-sol.

quinta-feira, julho 22, 2010

Puro Vintage VII



A manhã já ia a meio e o frio das primeiras horas da alvorada começava a ceder o lugar a um calor sufocante. Mas era nesse misto de calor húmido que o cheiro da erva verde e a sombra dos choupos davam lugar a um cenário único, daqueles que fazem desejar o Verão e os dias grandes.
Naquele ano, durante o Inverno, tinha chovido bastante e, por isso, o açude transbordava. Enquanto assim fosse, enquanto a água corresse àquele cristalino ritmo, realçado pela luz matinal, os banhos estavam garantidos.
Todos os anos, por volta do início das férias grandes - e antes das viagens para as praias do Algarve - era ali que um grupo de cinco amigos se reunia. De facto, o João, o Manuel, a Teresa, a Beatriz e a Francisca conheciam-se desde sempre e encontravam-se sempre na vila que viu os pais de cada um crescer.
Por entre olhares tímidos e nervosos, largas gargalhadas e piadas sem jeito, todos saboreavam aqueles momentos com um gosto especial.
A primeira entrada na água era sempre precedida de bastante hesitação, porque apesar do calor que se fazia sentir na margem, a corrente era impiedosamente fria. "Só lhe faz bem, menino", dizia o senhor Carlos, dono da mercearia ao lado da casa dos avós de Manuel, quando este lhe relatava, de início, as aventuras de mais um dia.
Sustendo a respiração Beatriz atirava-se à água e a voz do seu professor de natação de imediato lhe ecoava na cabeça, repetindo as exigências da postura, o ritmo curto das braçadas e dos movimentos do "inspira, mergulha, vem ao cimo e expira". Convencido de que contemplava o verdadeiro modelo de perfeição olímpica, João olhava para ela e logo a Francisca e a Teresa lhe atiravam risadas que o faziam corar; ao que ele, acto contínuo e em jeito de vingança pela descoberta de tal oculto segredo - a que elas chamavam de "fraquinho" - as empurrava para água, saltando também ele em seguida e provocando um aparatoso chapinhar.
Chegada a hora do almoço, rumava o grupo para casa dos avós de Francisca, subindo pelas hortas que se encavalitavam nas escarpas fronteiras ao açude. Lá chegados, mais um ritual quotidiano se iniciava. A empregada lá de casa, a Dionísia, esperava-os com um farto repasto, porque, afinal de contas, "os meninos estão a crescer e por isso precisam de comer bem".
Pelas horas de torreira, no cumprimento canónico dos tempos da digestão, entretinham-se os cinco a jogar às cartas, a ler revistas de outras eras e a ouvir uma qualquer roufenha estação de rádio numa telefonia que era, ela própria, uma peça de museu. O ar era fresco naquela sala de estar com ampla varanda, paredes de estuque e tectos altos.
Contudo, o dia balnear não terminava para estes marinheiros de água doce sem mais uma ida ao local. Manuel e João aproveitavam para disputar o primeiro lugar na velha prancha de saltos, cuja madeira gasta ameaçava a ruína total. Quanto às raparigas, ficavam à conversa nas toalhas de praia, trocando confissões em forma de prolongados suspiros.
Numa vida simples, o pôr-do-sol tinha o encanto de uma aurora especial - aquela que acontece quando se acorda para a vida por inteiro.
E para aquele grupo de amigos a vida estava, de facto, ainda a começar. Ali, junto à RIBEIRA.

domingo, maio 30, 2010








Uma excelente canção de Festival. Uma boa prestação. 18º Lugar não é mau, tendo deixado para trás a Irlanda e o Reino Unido. #LePortugalDouzePoints Parabéns, Portugal!

segunda-feira, maio 10, 2010

Não é para quem sabe, é para quem pode! Ah grande Benfica!!! Glorioso, sempre!!!

segunda-feira, abril 26, 2010

Ela…

terça-feira, abril 20, 2010

Momentos

"#3
Ao entrar, João quase não reconhecia o espaço... Era sempre assim nas noites das festas de lançamento de uma nova exposição. Pop dos tops, as luzes cibernéticas - porque as psicadélicas eram coisa do passado -, um oceano de «gente gira», segurando nos copos que iam saindo do bar improvisado junto à cabine do DJ... Todos os que ali se encontravam tinham sido convidados para contemplar o trabalho fotográfico de Jacinto Lopes.
Contudo, a impressão que João tinha era que as únicas fotografias a render alguma coisa esta noite, tal como nas outras todas, eram aquelas que cada conviva decidia tirar com o seu telemóvel... Com os amigos, sorrindo, fazendo alguma cara idiota para «postar» no livro-das-caras - nos tempos que corriam qualquer um tinha direito à sua própria revista social. E ainda bem que assim era, talvez - pensava João. Avesso a um certo estilo snob, com rótulos de «reservado a pessoas que apenas alguns de nós consideram importantes e porque sim» e «pessoas famosas» (nunca percebendo muito bem a partir de que altura se podia considerar alguém famoso, implicando a fama algo de realmente importante para a sociedade), avesso a tudo isso, João raramente emitia passes de imprensa para repórteres que insistiam em fazer carreira, vendo tudo a «cor-de-rosa».
Ao avistar Mané ao longe, à conversa num canto da galeria, com um sujeito, alto, moreno, vestido com um fato preto às riscas brancas, encaminhou-se para o local, deduzindo logo tratar-se do tal JL.
«João, pá, ainda bem que chegaste» - disse Mané, num tom excessivamente jovial mas compreensível pelo copo que ele tinha na mão. Com toda a certeza, o que Mané bebia não era apenas sumo de laranja. «O nosso novo cliente, Jacinto Lopes».
«Muito prazer, Jacinto. Sou o João. Desde já quero dar-te os meus parabéns pelo teu trabalho e agradecer-te pela escolha que fizeste aqui pela "Kapa7"» - João não resistia a um bom trabalho de relações públicas.
«O prazer é todo meu... Ouvi falar muito bem da vossa galeria, por isso a escolha foi quase como que natural» - respondeu JL, tímido e sorridente.
Este tipo ainda é um puto, pensou João. Mas ao menos teve a coragem de se lançar no sonho, não haja dúvida. Olhando para ele com curiosidade, uma pergunta assaltou João de repente: «Jacinto, diz-me uma coisa... Tens ali uma fotografia chamada «#Semblante»... Pá, qual é a história da peça?»
JL esboçou um sorriso e respondeu: «Gostaram? Penso que é o melhor trabalho que alguma vez fiz... A luz e a angular estavam a sair muito bem naquele dia e a escolha do papel de revelação também me pareceu...»
«Não é disso que eu estava a falar, pá!» - interrompeu João.
«Não? Não... estou a... perceber...» - Jacinto mostrava-se desconfortável e o som da música também não estava a ajudar a manter uma conversa séria.
«Estou a falar da modelo! Quem é ela? Onde a encontraste? Conhece-la pessoalmente» - a torrente de perguntas não seria apropriada para o momento mas João sentia que as tinha de fazer... era idiota que metade de um rosto desconhecido andasse a intrigá-lo desde o início da semana.
«Ò João, pá, deixa lá isso... O JL está lá agora para se lembrar de todas as modelos que teve a trabalhar com ele» - atalhou Mané que detestava estes pequenos assédios de João, mostrando aos outros o péssimo defeito que tinha em não se conter sempre que a sua ideia não era entendida à primeira.
«Pois... Já não sei muito bem quem era... Foi-me recomendada por uma agência com quem já não trabalho há dois anos... Se bem me lembro, era uma estudante de filosofia... sim... ela disse-me qualquer coisa sobre isso... Que fazia este tipo de trabalhos apenas para ajudar a pagar as propinas ou coisa do género» - Jacinto parecia agora mais expedito nas explicações que dava, na esperança de causar boa impressão aos seus galeristas. Ele próprio também sentia uma certa inquietação - um não-se-sabe-muito-bem-o-quê de desejo, talvez - quando se punha a recordar aqueles profundos olhos castanhos e o sorriso inquietante da, agora e ao que parecia ilustre, desconhecida.
João sentia-se um pouco frustrado. «Pronto, deixa lá, pá. Nada de importante.» - respondeu. De seguida, olhou à sua volta e resolveu ir desanuviar para o meio das pessoas. A galeria estava mesmo sobrelotada. «Mané, Jacinto, até já. Vou dar uma volta e ver se consigo vender já alguma coisa» - uma vez mais, o toque de relações públicas, qual marchand sério, pareceu-lhe uma boa desculpa.
Enquanto se encaminhava para a zona das bebidas, ia olhando para o longe, para a parede onde estava exposto o #Semblante e, de súbito, pensou: «Por esta noite quero que sejas a minha musa... Quero levar-te comigo para todo o lado». Naquela afirmação havia uma nota de romantismo quase infantil, aquela réstia de crença na magia de uma história que, cinicamente ou bem vistas as coisas, não fazia sentido algum: qualquer vendedor de sapatos hoje em dia podia ser um princípe e qualquer «chaço» a sair da sucata podia ser mais do que um dispensador de peças para um mecânico de uma oficina de bairro.
Mas, esta noite, ao pegar no gin tónico que tinha pedido, João queria acreditar.
E, nesse preciso instante, João avistou-a. Um olhar maroto, sorriso de menina irrequieta como que a preparar alguma partida... Os olhos castanhos, os dois, as sobrancelhas, também as duas, arqueadas, num tom deliciosamente inquisidor relativamente a tudo, e a boca... aquela boca, inteira, a prenunciar a frescura de um pêssego de finais de Junho... A promessa de, num beijo apenas, descobrir todo o calor de um Verão sem fim. Ela estava ali! "

Alexandre Villas-Diogo, Momentos

O folhetim que satisfaz... apenas os sonhos.