quarta-feira, janeiro 31, 2007

Anabela e o seu casaquinho de malha



À mesa da esplanada, sentou-se Anabela... Tinha chegado há pouco do serviço - era secretária de administração do senhor Manuel, empresário, anafado e cardíaco - e costumava fazer aquele caminho todos os dias, parando para beber um néctar de pêra, num escrupuloso recato submisso e transbordante de uma castidade e virtude tão profundas que chegavam a deixar dúvidas quanto à sua genuidade.

Mas Anabela era assim... Pouco faladora e comedida nas suas aparências, prestando culto a uma timidez que roçava um ressabio bacoco e uma inusitada antipatia.

Quem a não conhecesse bem poderia dizer: "Ora aqui está um belo exemplar de 'bicho-do-mato'!". O que também em parte corresponderia à verdade.

De facto, Anabela vivia nos arredores da cidade, à beira da A1, num lugar pacato, com igreja, adro e cafés domingueiros, onde a "malta jovem" se gostava de reunir com os mais velhos, a fim de discutir bola, carros e velocidade, acompanhados por "finos" e "imperiais" bem frescas ou, então, qual testemunho de uma idade mais séria, generosas "selhas" de tinto da adega do senhor Martins - industrial hoteleiro, proprietário do snack-bar "Belami".

Anabela viveu em casa dos seus pais até aos dezanove anos.
O seu lar paterno era uma bela moradia, construída pelo senhor Lopes e a dona Amélia, com os proventos desses árduos e difíceis tempos passados na Suíça, a trabalhar como vigilante nocturno numa central de camionagem e a servir às mesas de um restaurante português, à beira da estrada para Neuchatelle, respectivamente.
A obra arquitectónica era uma "maison-tipo-chalé", pintada de branco, com portas lacadas no mesmo tom, janelas de um bom alumínio - com vidro duplo - e - "la pièce de resistance"- uma escadaria lateral exterior, revestida a azulejos verdes - os mesmos do quarto de banho do primeiro andar, que tinha "poliban" com banheira acoplada -, dando acesso directo à cozinha IKEA, recentemente remodelada para este estilo, naquele mesmo piso.

Anabela era uma pessoa sensível e de uma discreta beleza.

Cabelo loiro escorrido - e pintado pela sua vizinha e prima cabeleireira Soraia (tinha conseguido formar-se nesta fina arte, mercê da frequência de um curso do Centro de Emprego, patrocinado pelo Fundo Social Europeu), altura mediana, olhos castanhos e faces redondas.
Os seus seios algo desmesurados e proporcionais a umas ancas que a celulite ia generosamente deslaçando, faziam as delícias do seu patrão e alimentavam algumas das suas mais sórdidas fantasias, assentando-lhes que nem uma luva o conhecido slogan do Chivas Scotch: "ou se tem ou não se tem".

No que toca ao seu estilo: algo entre o já aludido recato e uma discreta sofisticação.

Anabela gostava de alternar o seu guarda-roupa entre o preto, o rosa-pálido e o verde escuro, nunca abrindo mão das suas calças de ganga de cintura descaída, que entravam com esforço.

No seu quotidiano, de mulher emancipada - porque titular de carta de condução (equivalente a qualquer curso superior, mestrado, pós-graduação ou, até mesmo doutoramento) e com um descomunal traseiro que se abanava todo ao sair do seu Clio metalizado -, gostava de usar decotes, que mercê do que já acima foi dito, sempre alimentavam uma utópica promoção, sugerindo a possibilidade de alguma contribuição em géneros à sua entidade patronal, no sentido de apressar o que tardava.
Camisola de gola alta preta, calças de sarja a combinar e um blusão de cabedal, para as suas raras noites de loucura total, em que saía para a cidade com as suas "colegas", no intuito de dançarem as músicas de discoteca, acompanhadas por um fogoso "Carolans".
As botas subiam até aos joelhos cobertos - "boas e baratas", adquiridas nos saldos do "Calçado Guimarães", ali ao Taveiro, no Retail Park.
A insistência neste traje festivo, levantava os maiores reparos sussurados da vizinhança.
O preto era apenas usado convenientemente pelas vetustas e pias matronas de plúrimas verrugas labiais e nasais, numa atitude resignada de eterna dor pelos seus maridos já idos, esquecendo todas as noites de pancadaria por que passaram, de cada vez que eles chegavam a casa vindos tardiamente da taberna.
Enfim... O conjunto era completado pelo fio de prata, mesmo por fora da tal gola alta - um belo e carinhoso presente da sua madrinha, a dona Lurdes, aquando da sua Comunhão Solene. Nunca o tirava.

Contudo, havia uma peça do seu vestuário que era uma constante e uma verdadeira imagem de marca: O CASAQUINHO DE MALHA.
Anabela tinha uma predilecção pela simplicidade, cujo expoente máximo era atingido no uso de três banais casacos de malha fina, a substituir quaiquer pólos ou algo de mais sofisticado - porque de sofisticado já vimos que quase ultrapassava os seus limites, quando envergava o seu traje de noite.
O primeiro, em preto e com pequenos botões brancos de madre-pérola, usava-o muitas vezes, no trabalho, para cobrir os já aludidos decotes, nessa inocente tentativa de impingir aos outros, que com ela se cruzavam, uma ideia de verdadeira pudica.
Um segundo, em tons de verde alface, para andar por casa, passando longas tardes de Sábado com a sua sobrinha a ver compactos seguidos da série "Floribela", com a sua sobrinha Carla Sandra.
A propósito: sempre devemos referir que não era assim tão raro deixar cair uma ou duas lágrimas de verdadeira e gostosa emoção, sempre que aparecia em cena a protagonista desta telenovela para a "malta jovem", uma vez que sentia identificar-se com a personagem.

De facto, é precisamente esta característica de Anabela que nos leva ao terceiro Casaquinho de Malha.
Tal como no Senhor dos Anéis há o Anel Um, também Anabela nutria um especial afecto por este exemplar do seu figurino.
O terceiro casaco de malha era em tons rosa e representava um marco importante na vida da nossa rapariga da mesa ao lado.
Anabela tinha dezoito anos. A noite era de Verão e de romaria em honra de Nossa Senhora das Dores e Queixumes. Tinha ido à festa com os seus pais, membros da comissão organizadora desse ano, vulgo "festeiros".
Naquele ar morno, típico de princípios de Julho, Anabela conversava com as suas amigas, numa roda fechada, quando aparece Tó Zé.
Desde pequenos que se conheciam, visto serem vizinhos. As suas famílias mantinham sólidas relações que passavam por largas sardinhadas e visionamento de jogos de futebol pela Sport TV recentemente assinada.
Desde há alguns anos para cá que Tó Zé vinha dando sinais de corte e alguns avanços a Anabela, que sempre se manteve reservada, pois sabia que ainda não tinha idade nem permissão para namorar. Por outro lado, confiava nas palavras da sua irmã mais velha, Diana (em homenagem à Lady D): "Lembra-te, Bela: os homens são todos uns porcos!".
Diana era mãe solteira e estava empregada numa empresa de serviços de limpeza em Lisboa, proscrita pelos próprios pais, que viam, tanto na sua conduta bem disposta, divertida e ambiciosa (gostaria de ter cursado Letras, para ser professora), como no jeito de expressar uma sensualidade natural, a razão pela qual tinha sido violada, nas traseiras da Escola Secundária. Ela era a única culpada, porque "punha os rapazes atiçados", nas palavras da sua chorosa Mãe.
Contudo, aquela noite de romaria parecia convidar Anabela a abandonar-se à loucura e aceitar o convite de Tó Zé para dançar.
Os "Inovação 6" - excelente grupo de baile, formado por virtuosos do órgão e da guitarra eléctrica, versado em covers dos grandes êxitos da música romântica e do "roque an rôle" - tinham começado a tocar um "slow".
Tó Zé encaminhou Anabela para a pista de dança, improvisada em tábuas, ali no Adro da Igreja e junto à Quermesse - onde se encontrava a sua mãe e mais algumas senhoras respeitadas e devotas.
Anabela lá ia, num andar compassado, de cabeça baixa, com as faces coradas e de braços muito bem cruzadinhos. A sua submissão encontrava nesta postura corporal o mais puro e cristalino reflexo. Aquela seria a noite em que tudo se decidiria.
A música em Inglês (Anabela preferia o Francês, porque sempre dava para perceber as "privates" das suas primas da França) convidava a uma maior proximidade e Tó Zé apertou-a contra a sua barriga descomunal - tal como o resto dele: alto, gordo, cabelo loiriço desalinhado e maltratado; um ar de labrego tal que encontrava o seu maior encanto no facto de ser uma verdadeira "besta" - com cara de mocho -, "muito querida" por todos quantos temiam o seu afectado e pedante mau génio volátil e patológico.
Dançaram o tema e, no final, selaram o seu futuro com um beijo salivante.
O futuro e o casamento, onde o creme de legumes seria a sopa chique, naquele salão de festas de uma empresa de banquetes, ali da Mealhada.
Tó Zé tinha uma casa já feita (moderna, segundo ele, na linha de traça já a seu tempo descrita, mais acima) e emprego certo;
Era agente comercial (um rapaz das entregas, com carro de serviço - o que lhe dava um certo estatuto) da empresa onde arranjou trabalho a Anabela, depois do casamento.
Viviam felizes e sossegados, desde então. Ainda não tinham filhos; queriam esperar.
As noites em que se dispunham a fazer "O Amor" eram vividas numa envergonhada escuridão de urros e grunhos másculos, onde Anabela não tinha qualquer palavra a dizer e onde muitas vezes sentia falta da sua mão, dos seus delicados dedos, que, de todo a todo, eram rotundamente proibidos.
Tó Zé, irritava-se com tal libertinagem: "Aiiii! Vamos lá a ver!... Que é que estás a fazer? Bem..."
Anabela não se queixava e estava contente.
Desde aquela romaria até às mais recentes, insiste em levar sempre o seu Casaquinho de Malha cor-de-rosa, repetindo o mesmo ritual, a mesma postura - até porque, no final de contas, encontra-se acompanhada pelo seu marido, implicando uma atitude de saudável respeito, a fim de evitar olhares indiscretos e certamente cenas da mais sangrenta violência passional, conduzidas pelo sólido e preciso punho calejado do Tó Zé.
De resto, o estilo de Anabela é elogiado pelas amigas, sempre que a encontram ou com ela saem, aquando dos seus eventos sociais: "Fogo! Anabela, tu tens coisas muita lindas! Cinco estrelas!"
Acabado o sumítico néctar de pêra, eterno substituto de um tal de café expresso que tinha sempre em mente tomar mas que nunca pedia (é mesmo só um pretexto para, nas mais diversas ocasiões, romper com a clausura e a rotina), Anabela levantou-se e encaminhou-se para o estacionamento, toda lampeira.
De volta a casa, depois de mais um dia de Sucesso - o seu Casaquinho de Malha Rosa tinha sido, na verdade, o sapato de cristal desta nossa Cinderella (sim porque afinal "ainda há Cinderellas")!

sábado, janeiro 27, 2007

Para quando o segundo volume?

Tardou, mas chegou!

Esta coisa de comentar o direito público tem muito que se lhe diga.

De facto, rezam as crónicas que já um egrégio Mestre Civilista da nossa Casa terá aceite um desafio que, à altura, parecia ser bastante promissor: comentar, numa sábia e avisada cadência, o então recém-nascido acquis do Direito Administrativo pátrio.

A obra lá ia ganhando forma na Revista de Legislação e Jurisprudência... Ao mesmo ritmo com que as tais leis objecto de doutos comentários iam sendo revogadas, republicadas e reformadas.

O nosso Mestre não teria mãos a medir para tanta inconstância. O trabalho começava a sofrer atrasos, desactualizações, tornando-se no mais espúrio exercício de retórica.

Pois bem, um dia, fartou-se.

No seu último artigo sobre a hercúlea tarefa, terá escrito: quando as reformas legislativas cessarem na sua verborreia e no seu furor, eu retomarei o trabalho.

Nunca o fez.

Pois é... O direito público e a sua maleabilidade para as novas ideias, tributárias de uma alternância político-partidária que traz à evidência díspares concepções do Estado e das Instituições, que se perderão mais nos pormenores do que nos verdadeiros direitos e interesses que pretendem consagrar e concretizar.

Enfim... Os pais do nosso Direito Constitucional contemporâneo certamente que de outra arte e engenho se socorreram, procurando uma salutar constância doutrinal, a par das últimas quatro revisões a que a Lei Fundamental foi sujeita.

Para uma leitura de consulta. Um must jurídico, sem dúvida.

sábado, janeiro 20, 2007

Dr. House - A verdadeira história


Por impulso de bravos e já fraternos amigos, fui instado a revelar esta pequena e dramática estória da vida de um homem que um dia jurou honrar Hipócrates.

O médico que vai fazendo as delícias dos seus fãs, nas noites de quinta-feira, na TVI, trocou, nos seus tempos de vida universitária, a John Hopkins Medical School, pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.

Aos dezassete anos, fez-se embarcadiço num arrastão de pesca da Nova Inglaterra - um tal de Andrea Gail (mais tarde naufragado, em jeito de história trágica) - tendo aportado nos Açores nos idos de 1969.

Segundo as crónicas e as plaquetes do seu carro de quarto-anista - carro nº 19 "Sem Remédio", com muita cerveja pilsen -, o emérito Dr. House terá decidido rumar a terras lusitanas para cursar o que ele defendia ser a "Verdadeira Medicina".

Muito antes de Bolonha, a FMUC seria, para este clínico, o verdadeiro Liceu Aristotélico, onde, com método, ordem e muito estudo, se formavam os melhores médicos, os verdadeiros profissionais, peritos nos puzzles médicos e na concretização dos melhores diagnósticos - tudo aspectos onde ele próprio é hoje um mestre.

O seu percurso universitário encontra-se repleto daquelas peripécias que apenas nesta cidade dos estudantes podem ser vividas.

Desde as recitativas missas nocturnas, nas escadas da Sé Velha, tendo por fiel companheira uma bela garrafa d'água "Fastio" ou "Caramulo" de litro e meio cheia do gostoso "traçado" do Pratas, até às serenatas cantadas por esconças ruas dos Olivais - dedicadas a rosáceas e trigueiras tricanas, por quem o seu coração de breve marinheiro ia batendo - Dr. House, na altura conhecido pelos seus pares como o Zé Pesca (em virtude de, por um lado, estar sempre a falar da sua curta experiência, junto do mestre Clooney, nas artes da apanha da sardinha do Atlântico Norte, e de, por outro, querer sempre responder a todas as perguntas formuladas pelos seus professores), Dr. House, dizíamos, teve uma vida de boémia preenchida.

Comensal na República dos Kágados e residente num quarto junto ao Quebra-Costas, House gostava também daqueles pequenos prazeres que passam por ouvir uma boa Canção de Coimbra no silêncio de uma noite de exames de Anatomia I e II.

Na verdade, terá sido em virtude dessa mesma vida nocturna descontraída e levada em jeito brioso, fiel aos mais rigoros valores da Praxe Académica, que ele foi vítima do acidente causador do seu handicap mais característico.

Ora, rezam as crónicas que, em noites vespertinas à Queima das Fitas onde se tornaria estudante finalista e cartolado, House acedeu ao convite de alguns veteranos para ingressar na maior troupe do ano que, nessa altura, se iria formar, espalhando o terror por alguns incautos caloiros que esperavam ter o pior da sua triste - mas também garbosa -, existência atingido o seu termo.

À meia-noite, junto à Porta Férrea da Faculdade de Direito, lá estava ele, um dos primeiros a chegar, com aquele brilho nos olhos, próprio de alguém que vivia com entusiasmo todos estes pedaços de uma existência que sempre ficaria na sua memória como um tempo fora do tempo.

Passados cinco minutos, mercê do seu espírito solícito e cheio de ideias que, segundo ele próprio defendia, "tinham imensa piada" (coisas como formar trupe e sair dali a pé-coxinho), foi mandado calar pelo chefe de troupe.

"Oh Zé Pesca, isto é para ser feito com alguma sobriedade, pá!" - atirou-lhe o bom do Tomásio, veterano de dez matrículas como escolar de leis.

Troupe formada, House eufórico procurava, cantalorando baixinho temas da sua terra natal, tais como aquela muito gira do "Old MacDonald had a Farm", entrar naquele espírito que tanto o fascinava e de que tanto queria fazer parte: sim, ele queria fazer parte do grupo!

Enfim...

Começaram por descer, em passo veloz, a rua fronteira ao Museu Machado de Castro, gritando os típicos impropérios na passagem junto à República dos Corsários.

De súbito, avistaram um rapaz espigadote, junto da tasca do Augusto, que o Tó Luís identificou como sendo caloiro do seu curso - Estudos Portugueses e Clássicos, ou coisa do género (Letras, para todos os efeitos...).

O olhar de pânico do petiz foi confirmado pelo pigarreio de angústia. Seria, pois, naquela noite que, coitado dele, ia perder aquele seu frondoso e longo cabelo que fazia os encantos de todas as moças de sua aldeia, quando o viam actuar no grupo de baile de que era organista?

Ao ter desatado a correr, a troupe de House lançou-se na feroz perseguição. House apenas queria que o chefe decretasse um Ad Libitum, sem apelo nem agravo!

O som das solas dos negros sapatos fazia-se ouvir no empedrado da calçada da descedente Padre António Vieira.

A correria era alucinante! Alguns elementos iam escorregando, levantando-se logo de seguida, sem vacilar.

House empunhava, orgulhoso, a tesoura que lhe tinha sido passada pelo Gomes que já começava a não aguentar o ritmo.

"Estou quase a apanhar-te, caloiro! Estou quase...!" - ia gritando, abafado pela capa negra que lhe cobria o rosto.

Nisto, Maria Rita, estudante de enfermagem, um pouco stressada e já bem disposta, por ocasião da festa de aquecimento para as noites do parque, que estava a dar no seu t1, arrendado a uma bonifácea senhora funcionária dos correios já aposentada (e que a tinha na conta de "menina", conforme ao anúncio afixado nas cantinas), Maria Rita, dizíamos, numa gritaria quasi-orgásmica, é acometida de um sentimento envagelizante.

Isto porquê?

Decide despejar a sua vodka de melão à rua, nessa tentativa filantrópica de baptizar todos esses trovadores que por ali, julgava ela, iam passando para a ver.

O piso tornou-se molhado. Pouco molhado, mas ainda assim...

O caloiro, ofegante, só pensava em chegar à benemérita protecção do seu enfeminado padrinho que se encontrava na Secção de Badmington da Associação Académica, ali mesmo ao virar.

House continuava a sua correria, sem qualquer cuidado. Escorrega na ora pia baptismal de Maria - uma poia de canixe, empapada pela vodka.

Nisto, há algo que lhe sai debaixo dos pés... Sente-se a cair! O caloiro a escapulir-se, a tesoura a bater-lhe na testa.

Acto contínuo, todos os seus companheiros se abeiram dele. O estado do nosso doutor não é famoso. As dores no joelho são lacinantes.

Tinha deslocado e esmagado uma rótula.

Maria Rita ri-se como uma perdida.

Ninguém diz nada até que chega Tomásio.

"ZÉ, TU PÁ... SÓ ESTÁS BEM É EM CASA!!! IN' DA' HOUSE, TÁS A OUVIR?

É o que faz trazer gajos das medicinas, pá!!!"

A troupe foi desmantelada ali mesmo.

House foi encaminhado aos Huc, onde terá sido operado nessa mesma noite.

Na noite da Serenata, já Zé Pesca era conhecido por House, sem uma rótula e com uma canadiana.

Um caramujo, que não sairia senão à porta, para escutar a música que tanto amava.

House formou-se nesse ano e rumou a terras do Tio Sam. Côxo, mas Feliz. Em Coimbra tinha vivido!

Advertência: O Dr. House não está protocolado com nenhum dos sub-sistemas sociais do Serviço Nacional de Saúde português (ADSE, Caixas de Previdência ou Serviços Sociais do Ministério da Justiça)

sábado, janeiro 06, 2007

Um breve tributo ao Bom Gosto... e à Sabedoria


O Jaeger LeCoutre Reversi, marcando preciosos e sedutores compassos de tempo, o gosto pela arte, pelo belo, pela velocidade e pela aventura...

O puro prazer em poder desfrutar de obras-primas, ilicitamente tomadas como suas, na solidão de um estúdio soberbamente mobilado...

Um estilo de vida invejável!

E tudo isso, soube deixar para trás para provar e viver um sentimento antigo...

A única Demanda que valerá a pena, por certo!

Um DVD que merece sair da prateleira, sem dúvida!

segunda-feira, janeiro 01, 2007

Anno Domini 2007


Porque o Amor é intemporal...
E assim que o encontramos na sua forma mais pura, queremos vivê-lo para sempre!!!
Feliz Ano Novo!!!

domingo, dezembro 24, 2006

E é Natal



Tinham rumado a Nova Iorque.

Desde muito jovem que ele conservava uma atracção especial por todo o glamour que a Big Apple ganhava, de modo particular, nesta altura do ano.

De mãos dadas pela Quinta Avenida, sentiam-se como duas crianças numa loja de doces.

Em estilizados sacos de cartão grosso, algumas prendas e muitos mais mimos que trocariam nessa noite;

Coisas simples - discos, livros, perfumes, uma garrafa de um cabernet tinto e trufas (tal como no seu mais recente passado a dois, com a Torre por pano de fundo) -, mas que lhes diziam bastante e que fariam para sempre parte da sua vida a dois.

Ela estava sublime naquele entardecer tão cosmopolita. A gola alta e os tons de preto do casaco de macia lã grossa realçavam-lhe o esguio pescoço que culminava no tal sorriso por onde ele se perdia sempre, perdendo o nexo ao discurso, embatucando contemplativamente naquela beleza petrarquista.

Aquele mesmo olhar d'esmeralda ganhava agora traços ainda mais firmes de um quente aconchego, de um entusiasmo seguro e alegre e de uma Felicidade estonteante.

Após o jantar no Le Cirque, na Lexington Avenue, decidiram escapulir-se ao concerto para que já tinham reservas e deambular pelas ruas.

"E que tal irmos andar de patins no gelo?" - perguntou ele.

"Mas nós nunca patinámos" - respondeu ela, surpreendida com aquela resolução.

"Não tem problema. Vamo-nos apoiando um ao outro" - sugeriu, logo dizendo de seguida em tom subliminar: "Eu não te deixo cair".

Ela sorriu; acenando disse: "Vamos. Vou-te ensinar algumas passadas!"

Alugaram dois pares e aventuraram-se no ringue, que já contava com algumas pessoas.

Ouvia-se música de Natal a ecoar.

Após algumas pioretas e deslizes bagatelares a tempo apoiados, lá acertaram o seu centro de gravidade, dando as mãos e fazendo algumas voltas ao ringue;

Foram ganhando confiança e ensaiaram passos de uma valsa que, entretanto, se fazia ouvir.

Parecia que tinham sido transportados até à época dos "Folhinhos"...

O contentamento que estava estampado no rosto dela era indescritível.

A serenidade, a intensidade com que ela sentia aquele pequeno prazer de se perderem, simplesmente, a patinar numa das mais ricas metrópoles do mundo, fazia-o, logo num primeiro momento, intuir que, agora sim, tinha encontrado a sua verdadeira cara-metade!

Sempre sonhou poder partilhar o encanto dos pormenores com alguém que os visse, tal como ele, como pequenos polaroids que fazem recordar muito mais do que aquilo que mostram.

Esse alguém era ela, sem dúvida!

Dançaram por longos minutos, que lhes pareceram horas, num enlevo de elegantes movimentos que ela lhe ia ensinando, tal como prometido, mercê de outros experientes tempos de juventude.
Os segredos que lhe ia confiando ao ouvido, levavam-no às estrelas que brilhavam e caiam, por entre os altos prédios, na escuridão daquela noite decorada em mesclados e argêntuos tons dourados.

O único desejo por ele pedido: Que estivesse sempre à altura!!!

Um momento alquímico de uma Felicidade transbordante estava ali a acontecer, uma vez mais!

Tal como o primeiro, uma agradável sensação do mais Puro Êxtase!!!

E era assim que ali se encontravam dois amantes que sabiam acumular ao seu Tesouro Privado pequenos pedaços de uma descontracção e espontaneidade ímpares;

Tudo numa entrega ímpar, em que todas as barreiras se desmoronavam para sempre!

A música estava a acabar.

Olharam nos olhos um do outro e não disseram nada.

Estiveram ali um para o outro e nenhum deles caíu no chão de gelo frio.

Sabiam que eram um do outro, desde sempre!

E que esta era realmente uma Noite Feliz de um Natal apenas comparável ao seu primeiro passado juntos!

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Ser Portugal!


D. Bartolomeu de Gusmão
, homem religioso e da Ciência teve, um dia, um sonho: construir uma máquina de voar, um aparelho "mais leve que o ar".Com a ajuda de dois amigos - Baltasar Sete-Sóis, soldado maneta com gancho e Blimunda Sete - Luas, rapariga com misteriosos poderes - , um casal de desvalidos dessa Lisboa do princípio do séc.XVIII, foi dando forma ao projecto, num pavilhão abandonado e convertido em oficina, ali para os lados de Mafra, onde sua Majestade EL - Rei D. João V tinha iniciado as obras de um Convento para os frades franciscanos - como contrapartida de suposta graça divina para o nascimento de um Herdeiro ao Trono, que, ao tempo, tardava em chegar.

A estranha máquina ia tomando formas - um misto de caravela com a figura de uma águia.

Contudo, um pequeno pormenor persistia: D. Bartolomeu de Gusmão não fazia a menor ideia do modo pelo qual aquele objecto de tanto engenho, arte e tempo dispendidos levantaria vôo e, ainda mais importante, se susteria no ar, por forma a apanhar o vento de feição e assim conquistar os céus de Portugal e da Europa, trazendo para o Reino ainda mais Glória por feitos nunca dantes alcançados.

Protegido do Soberano, Frei Bartolomeu rumou até às Sete Províncias Unidas do Norte - vulgo Holanda - com uma ideia: aprenderia tudo o que a fina arte da Alquimia lhe tinha para ensinar acerca de tal complexa empresa, nunca antes vista.

Ao privar com a nata dos mestres, versados em tais mistérios, que por ali viviam e estudavam nessa altura, chegou a Lisboa com a resposta:

Ao que parecia, teria de arranjar um certo e determinado número de esferas de âmbar, as quais, por seu turno deveriam conter uma preciosa e enigmática substância: A VONTADE.

Duas mil vontades deviam encher as esferas de âmbar; estas, colocadas na Passarola - assim se chamava tal aparelho aeronáutico - atrairiam o Sol, provocando uma reacção em cadeia que permitiria a ascensão da Passarola aos céus e ao Sonho tornado realidade.

Mas, o problema persistia: D. Bartolomeu de Gusmão sabia o que era a Vontade, qual a sua fonte e essência, mas entrevia colossais obstáculos em tomar contacto com ela; era como o éter, algo que não se apreende ao olhar, nem ao toque, nem ao cheiro e nem ao sabor dos comuns mortais.

A Vontade partilhava da alma das pessoas - seria como a linfa está para o sangue que nos corre nas veias.

Qual a sua forma? Ninguém sabia...

Até que um plano astucioso começou a ser delineado por este nosso frade.

Ao que se sabe, Blimunda Sete Luas possuía um dom: em jejum, conseguia olhar para dentro das pessoas, contemplando o seu mais profundo interior. Por exemplo:
Uma mulher de esperanças - o feto estava virado com a cabeça para cima, o parto seria doloroso.

Frei Bartolomeu pediu, pois, a Blimunda que fosse comungar à missa que D. João V mandou rezar em Mafra, em semana pascal, com vista à sagração da capela que seria ali construída como parte integrante do Convento.

O seu mestre alquimista contou-lhe que havia alguns que entendiam ser possível ver a Vontade na óstia consagrada, já que esta conteria em si o corpo e o espírito de Cristo.

Blimunda assim fez.

"Que foi que viste, Blimunda?" - perguntou-lhe - "Que forma tem a Vontade".

Ela respondeu: "É como uma nuvem cinzenta... carregada e fechada".

D. Bartolomeu tinha a resposta.

Por essa altura, a peste marcava a sua presença na capital. A mortandade era grande e os moribundos, tementes a Deus, procuravam o seu último conforto na oração, na companhia do padre e dos seus entes queridos e vizinhos.

Deste modo,

O cientista jesuíta enviou, este casal para o meio deste povo em agonia, a fim de lhe colher, precisamente, as duas mil vontades necessárias para fazer acontecer o Sonho.

Baltasar e Blimunda jejuante entravam nas casas onde a peste tinha batido à porta. Assim que ela notava que a Vontade se estava a libertar da matéria, que era o corpo de quem dava o último suspiro, fazia sinal a Baltasar que, com um frasco de fino vidro, a retinha no seu interior.

Duas mil vontades eram precisas e duas mil vontades foram colhidas.

Após a decantação desse precioso elemento nas esferas de âmbar, as mesmas foram instaladas na Passarola, segundo o método contido no projecto.

A Passarola voou e causou admiração aos pedreiros das obras do Convento, que se ajoelharam à sua passagem.

Um homem sonhou e a sua "res" tornou-se nisso mesmo - em realidade.


Este pequeno relato sempre me serviu para fazer uma pequena analogia.
Nestes tempos em que comemoramos a Restauração da Independência de Portugal, não poderia deixar de depositar aqui o meu tributo à memória de quem, um dia, teve o sonho de uma Nação e reuniu as tais "duas mil vontades", para que o mesmo voasse, tomasse forma, se tornasse em mestre de metade do Mundo e assumisse a sua condição de comunidade humanista e fraterna que ainda hoje vai sendo.

A ideia de um Soberano como Chefe de Estado é tida para mim como a devida homenagem que todos nós, enquanto Portugueses, devemos prestar, com orgulho e na certeza de que somos ouvidos, àquele que um dia se lembrou que devíamos ser País:

Uma verdadeira "res publica", em que aquela figura será sempre tida como o repositório de todos os anseios e desejos colectivos relativamente aos conceitos de bem-estar, justa repartição da riqueza e livre exercício dos direitos fundamentais - princípios estruturantes de qualquer Estado de Direito.

Numa altura em que o País se encontra mergulhado numa densa bruma de desalento, crise económica e confusão ideológica, as considerações acerca das virtudes da forma de Estado monárquica adquirem uma maior premência.

O Rei será sempre tido como essa última linha de defesa das garantias da verdadeira realização da Liberdade, Igualdade e Fraternidade (é curioso, não é?), a que temos direito.

E isto porquê?

Ideologicamente descomprometido, apenas a ele poderá caber a tarefa - realizada sem qualquer reserva mental, alimentada por alguma estratégia eleitoralista -, de apontar ao chefe do governo escolhido democraticamente as qualidades e os defeitos de determinada política;

Ninguém melhor do que o Soberano, educado desde jovem para tal, para ouvir os cidadãos, que, até para mais, nesse diálogo o referendam numa base diária.

Que sejamos Portugal novamente!

Que cumpramos esse Desígnio de se fazer saber no Mundo que ainda há um Português vivo em Portugal!



VIVA EL-REI!!!

quarta-feira, novembro 29, 2006

Um loft com vista



A noite estava fria. Tinham passado a tarde nas últimas compras de Natal, na Baixa. O seu estúdio, com vista para a Torre e para o Mondego, estava, contudo, quente e aconchegante - um ambiente ideal para uma longa e demorada ceia, em que as nuances dos olhares e os inocentes jogos de palavras convidavam a uma sugestividade repleta de sensualidade e calor. Todo o cansaço que ambos sentiam, por mais um dia de trabalho e de correrias, desaparecia, assim, num abraço entre os dois, provando o sabor desses beijos, com um ligeiro travo a canela e a passas com que condimentavam um vinho chambreado ao fogão e servido num escanção de fino vidro veneziano. Nessa cúmplice partilha de um aveludado copo em tons de granada, os seus olhares cruzavam-se no alquímico espaço em que apenas os dois existiam, não havendo nada mais à volta! "Sou em ti!!!" - dizia-lhe ele, num murmúrio, sabendo estar Encantado, como alguns Príncipes de lendas e calendas antigas.
"És meu para a vida?" - perguntava-lhe ela, sabendo à partida que sim, em virtude do Feitiço que lhe tinha lançado desde aquela tarde a uma mesa de café. Uma fórmula simples: Fez-lhe descobrir o AMOR!!!
À média luz do candeeiro da secretária dupla do séc. XVIII, que ambos partilhavam, ele respondia: "Pertenço-te!!!".
E por ali se acabavam as palavras, substituídas por uma respiração em uníssono... Estavam Felizes!!! E sabiam que assim seria por todos os seis meses do resto das suas vidas!!! Tá grá agam ort!

À beira da Catedral, os verdadeiros amantes encontram-se!!!

O Selo



Grato, Sub-Lodo, pela lembrança! Seria realmente uma falta imperdoável, prontamente apontada pela senhora que me viesse a atender no Balcão da Fernão Magalhães, onde expedimos a nossa correspondência profissional! Teria sido excomungado, por certo!

quarta-feira, novembro 22, 2006

O belo do postal - Manifesto Anti-CTT por extenso e tudo!!!

"Correios em greve - Paralisação parcial vai afectar centros de Lisboa, Porto e Coimbra"

E aqui está! Quando os CTT se mexem Portugal treme!

Indignados com tamanha falta de consideração e aparente lay-off encapotado, carteiros, estagiárias, balconistas, auxiliares de terceira, auxiliares de segunda, auxiliares de primeira e chefes de Estação uniram-se numa última batalha pela manutenção dos seus direitos, reivindicando a manutenção de um status quo que prima pela eficiência, esclarecimento, simplicidade e rapidez dos serviços que sempre prestaram e onde o lógico corolário é naturalmente a qualidade!

Contudo, se esta onda de greves não fosse tão triste - está apenas na moda vir para a rua e contestar, contestar, contestar - esta tomada de posição de tais bravos funcionários e trabalhadores mereceria algumas considerações mais profundas do que aquelas que aqui se pretendem deixar e que são mais um desabafo de um pequeno ódiozinho urbano do que uma análise detalhada de toda questão.

Em boa verdade, tenho para mim a ligeira impressão que esta tão pomposamente chamada "greve parcial" dos CTT nunca poderá deixar de provocar uma daquelas largas gargalhadas, assim que nos detemos nas parcas e redundantes declarações - porque importadas de uma cartilha revolucionária mitigada e, por aí, sem qualquer conteúdo -do iluminado dirigente sindical que as profere, num tom tranquilo, mas austero e cheio de cortantes farpas, directamente dirigidas ao "Grande Capital". De facto,

Perante tão drástica e séria tomada de posição, somos, de imediato, levados a perguntar o porquê da agressão aos direitos laborais destes dedicados funcionários, que até tinham, inclusivamente, pelo menos aqui há uns anos, uma task-force, tipo comandos ou rangers, de Pais-Natal que alimentavam esse mito tão bonito de que o velho das barbas - um honesto contribuinte fiscal registado na Lapónia e criador de renas - realmente vestia o seu fato de treino vermelho da Nike e se lançava em verdadeiras batalhas sangrentas nas ruas do "gostoso" comércio tradicional a fim de adquirir as desejadas prendas dos petizes que lhe escreviam - em lápis da Faber Castell e com ranho do nariz, que era limpo à manga dos seus pullovers de malha grossa -, juntando em anexo uma longa lista de desejos consumistas.

O Pai-Natal respondia às cartas!

Mas, voltando àquela inquietude que a dúvida provoca, faminta de resposta:

Por que será que a Administração dos CTT, esse ente porco capitalista sabujo, que boicotou essa jornada tão linda que foi o PREC, quer agora eliminar mais de cinquenta por cento dos postos de trabalho fixos existentes na Instituição (é mais do que uma empresa, sim! É útil!)?

Por que entende a Administração, laborando num erro de gestão crasso, ser mais eficiente o recurso a empresas de trabalho temporário, dedicadas à distribuição postal, do que aos seus próprios funcionários, seus filhos ainda em amamentação agora lançados nessa sarjeta cruel que é a vida sem motivos?

Arriscamos uma resposta, em jeito de, precisamente, outra ou outras perguntas:

Será porque aqueles desgraçados com excesso de qualificações, que enviam para tais empresas de part-time resmas e resmas de folhas de papel (pelos CORREIOS - com aviso de recepção, registo, prova de depósito em duplicado, taxa pelo leite com chocolate Gresso do senhor Carteiro que o mesmo bebe pela manhã) com os seus preciosos Curricula Vitae, sentem mesmo vontade de trabalhar e prestar provas de que conseguem fazer melhor?

Ou de que pelo menos o dinheiro que ganham é merecido e assim se sentem orgulhosos e dignos por serem úteis?

Será por tudo isto?

Um silêncio parece instalar-se... Por constrangimento? Não!

Porque nada disso interessa! O que interessa é que os senhores funcionários e trabalhadores dessa tão nobre Instituição, que mantém o país unido - como num filme foleiro do Kevin Costner (olha a novidade!) - merecem a preservação dos seus lugares do lado de lá do balcão, onde vão vociferando os números das senhas de atendimento, como se do monólogo de Hamlet ou de Ariosto Furibundo se tratasse!

Vai sendo dever moral de todos os portugueses esperarem nas filas, no ritmo imposto por esta verdadeira matriz de que eles - os iluminados dos envelopes, selos, caixas de encomendas e impressos para envios de tísicos faxes - são os Supremos Guardiões!

E assim deve ser, porque estar ali a desempenhar aquelas tão altas funções, a bem da Nação, é uma verdadeira tarefa Hercúlea que há muito devia ter sido reconhecida como digna de inclusão no plano de estudos de uma qualquer Academia Universitária deste país - talvez com preferência para certas Escolas e Institutos Superiores que se mostram na vanguarda do choque tecnológico ao oferecerem ditas licenciaturas como "Psicopedagogia Propedêutico-Curativa" ou "Psicopatologias da Saúde Social".

Senão vejamos:

Quem melhor do que estes senhores para averiguar das profundas indiossicrasias existentes na discrepância que existe entre o Remetente e o Destinatário de um envelope em papel pardo que até poderá não estar dentro das normas?

Quem melhor do que estes verdadeiros Reis-Sol da cola de papel e da bela da gosma salivante, para averiguar se um selo está devidamente posicionado no canto superior esquerdo sobrescrito?

Quem melhor do que estes justos para colocar uma carta ou um pacote em cima de sumíticas balanças de precisão e ter olho aquilino (que não o Ribeiro) para alertar em tom veemente e repreensivo - em altos berros, ecoantes por toda a Estação, para envergonhar e servir de intimidação a outros eventuais incautos que aguardam a sua vez, segurando em suas mãos trémulas pequenas caixas atadas com cordéis e fita adesiva castanha - para alertar, dizíamos, do excesso de peso que subrepticiamente se queria fazer passar?

Apenas os "Senhores dos Correios"!

Enfim, a rendição é a única atitude que podemos ter perante esta luta que agora está aí até Sexta-feira!

Porque apenas estes déspotas esclarecidos que arduamente trabalham para o nosso bem-estar na intersubjectividade comunicativa possuem o conhecimento necessário para preencher um impresso de abertura de apartado sem erros e logo à primeira.

Apenas quem enverga tais vestes sabe a importância do telefone e as subtilezas de um PBX de cavilhas verdes e vermelhas!

Apenas por intermédio destes Bravos do Postilhão é que sabemos poder dormir mais descansados esta noite, pois as nossas cartinhas de correio azul, correio verde, correio normal, correio com prova de depósito, correio de avião, correio por comboio e correio o-raio-que-o-parta, chegarão sãs e salvas ao seu sorridente e aconhegado destinatário!

Um grande bem haja a tanta (in)competência e força para a jornada! Até à vitória!

segunda-feira, novembro 20, 2006

Um final de tarde

Naqueles meados de Novembro, o frio já se fazia sentir. O espírito de um Natal que lhes parecia vir mais cedo do que nos outros anos, marcava a sua presença pela Baixa da cidade que eles tanto gostavam de calcorrear, após sair do trabalho. Aquelas ruas nunca tinham adquirido o significado que agora possuíam!

O aconchego que encontravam no olhar um do outro, até nas mais pequenas nuances, tornava o que dantes era mutável, incerto e fugidio, em algo de estável, um rumo certo e traçado em linhas firmes no portulano do seu Ser e Sentir!!!

Aqueles olhos verdes, fascinavam-no cada vez mais! Costumava apertar-lhe a mão com força, no desejo de não perder aquele brilho na misteriosa bruma que subia do rio àquela hora de crepúsculo. Sabia, de qualquer modo, que era agora parte do mais profundo de si mesmo! Algo de que se lembrava espontaneamente, em horas de madrugada, trazendo-lhe um frémito de paixão nunca antes sentido!

Ao ouvir o sino da Torre, recordavam os tempos em que tinham andado perdidos um do outro, mas logo sentiam um conforto especial por saber partilharem tais memórias num
abraço apertado que lhes fazia lembrar, por sua vez, que, mesmo nessa altura, já caminhavam um para o outro. Ele não sentia todo aquele entusiasmo de uma Pura Felicidade, desde os tempos em que era miúdo.

Por outro lado, sabia também ser aquele um Tesouro raro de encontrar e, logo da primeira vez que a abraçou e beijou, tomou como Juramento fazê-la Feliz para sempre!!! Era tanto quanto lhe bastava!

No café, cuja decoração fazia lembrar o cenário de Baker Street que para ela era tão especial, a uma mesa, por cada beijo e carícia que trocavam sabiam que agora o Caminho era para ser feito a dois!

E o encanto de tal mote era saber que as glosas da sua Sedução seriam sempre como as primeiras: APAIXONANTES!!!

Ao que ele, rendido, murmurava baixinho, consciente de tal doce Alquimia tão real e concreta que torna as palavras pobres: "ÉS A MINHA VIDA!!!"

Encontraram-se na cidade que era dos dois, tinham-se um ao outro e isso bastava-lhes! Para tudo! Para a vida! E mais um beijo!!!

Tá grá agam ort!!!

À beira da catedral, um instante polaroid de dois verdadeiros amantes!!!

terça-feira, novembro 14, 2006

Praias de um tempo imaginado



O cheiro a sargaço pairava naqueles finais de manhã em que o sol prometia calor, bom tempo... À medida que ele ia descendo pelas escarpadas escadas, uma verdadeira conquista à arriba que abrigava aquele areal cheio de curiosas rochas - afloramentos do mundo subaquático em maré-baixa -, o frio na barriga e o nó no estômago cresciam, aumentavam de intensidade. Por um lado, era essa expectativa de mais um dia de praia, de brincadeiras, de descobertas, de afronta ao Oceano que lhe parecia querer tomá-lo como seu único confidente. Por outro, a vertigem, uma vontade de ser incluído naquele cenário que parecia engoli-lo. O prazer em arriscar, na aventura, de se superar ainda hoje é vivido com esse misto de respeito e vontade de ser uno com a natureza que o rodeia - um epicurismo animista que busca a construção intelectual dessa ideia de harmonia que traz a paz e a serenidade.

Tudo provavelmente terá começado ali - o gosto pelo Verão, pelo Sol, pelo som das ondas, pela sua fúria respeitosa mas desafiante.

Das memórias que vai guardando e recriando por cada nova e repetitiva visita aos álbuns de fotografias (tiradas pelo seu pai com uma sacrossanta Yashica, máquina preciosa com lentes topo de gama para altura - uma espécie de investimento que sempre ficaria para os filhos), um tanto ou quanto poeirentos e amarelados (os álbuns), que conservam um perene e silencioso lugar na sua escrivaninha de traços hindo-portugueses, ele tem como nítida aquela imagem em que os seus pais começavam a abrir um buraco na areia para poder fixar o enorme guarda-sol azul eléctrico (com "saia" - como aprendeu depois): o lugar estaria reclamado assim que o abrissem, pousando depois uma lancheira frigorífica, também azul, onde estavam guardadas umas sandes, uns iogurtes Vigor e uns sumos. Não deixa de ser curioso: nunca mais o sabor daquele queijo flamengo, o aroma de laranja de um verdadeiro Sumol, ou até mesmo de um paternal fois-grás (que vinha numas embalagens que faziam lembrar bisnagas de pasta dentífrica) fizeram parte da sua vida.

Entenda-se, no entanto: tal facto não é tido como uma perda, mas sim como a conquista do seu imaginário, do seu viver nostálgico - que não melancólico.

Depois, vinham os baldes, as pás, mas disso não ele não tem lembranças detalhadas.

Tem, isso sim, de contemplar as formações rochosas que estavam a descoberto naquelas tais marés baixas, enquanto o mar mais à frente rugia, chamando-o. As algas eram escorregadias, estavam molhadas e, nalgumas pequenas piscinas, descobria pequenas conchas, buzios e camarões.

De facto, eram tempos simples, em que, depois da sesta no areal que à tarde era apenas da família, não havendo mais ninguém na praia, as noites se passavam numa cadência própria, em carrosséis de Citroens Bocas-de-Sapo-miniaturas, onde, pagando uma verde nota de vinte escudos (o Bocage era a figura histórica representada) a um senhor de cabelos brancos que saía de uma cabine ao centro da pista, lhe eram proporcionados momentos de verdadeiro prazer automobilístico e, quiçá, velocístico a fingir.

Ao acabarem as férias voltava para a sua casa de sempre e do cheiro a fechado ainda hoje se recorda com perfeição. Ainda não andava na escola, na creche isso sim, por isso o regresso às aulas não era uma preocupação consciente. Estava contente por estar contente e isso bastava-lhe. De resto, até tinha tomado uns bons banhos de mar, provado a água salgada do mar e trazido alguns búzios que traziam aquele barulho mágico lá dentro bem escondido.

Aos três, quatro, cinco anos é tanto quanto basta.

Uma memória de outros tempos estivais, que se ouviu, por estes dias à beira da Catedral.

terça-feira, novembro 07, 2006

O séc. XVII, a distrair da vida?


"Rapariga com brinco de pérola" Vermeer van Delft


















Este é provavelmente um daqueles quadros que simplesmente tinham que ser pintados! É como algumas músicas ou livros - sentimos de modo intuitivo um imperativo de existência e nada mais!!!

O leve cair do lábio humedecido, o olhar envergonhado, mas já rendido, de quem está à beira de atravessar o limiar de um suposto sacrilégio que seria mostrar a Paixão ou um Desejo incontido de viver a Felicidade, junto de quem realmente sente a empatia e compreende o apelo da Sugestão Alquímica - que nunca se repete e, por isso, não deve ser perdida, em virtude de distracções induzidas por uma possível timidez -, enfim, a subtil inclinação do pescoço, como que numa posição forçada de um pudor cúmplice e encorajador - tudo ingredientes que abrem essa antecâmara para estórias que apenas ficam entre amantes.

Amantes que adquirem posições iguais e que se diluem um no outro, tornando-se num só, deixando de haver mestre e obra, pintor observador e modelo resignado - o mestre sabe render-se ao que lhe é mostrado e a obra acolhe-o no seu seio, ciente de que a sua conquista pela Sedução, também é a conquista daquele!

Na verdade não deixa de ser surpreendente o modo como Vermeer, que parece querer que dos seus quadros não saia nem um som, nos inspira e educa o ouvido para, lá bem no fundo da tela, distinguirmos, em suaves pinceladas encobertas na penumbra (idêntica à de Delf - cidade de canais), sons de uma suite para cravo que nos adormece serenamente, libertando enigmáticos aromas de uma qualquer droga que produz apetecíveis ilusões, precisa e contraditoriamente reais.

Mas a pintura é isso mesmo - a oferta de reais ilusões que cada um sente à sua maneira. Uma arte de liberdade, sem dúvida! Para distrair da vida, ou se calhar, e assim eu tenho para mim como certo, para vivê-la de modo mais iluminado e esclarecido, sendo esse o caminho da Felicidade!

Pela esplanada, à beira da Catedral, conversas sobre Arte!!!

segunda-feira, novembro 06, 2006

Ossian - O princípio do Romântico


Ao som de Chieftains, num intermezzo de Cappercaillie, revisito essas minhas incursões por um século que sempre achei mais mitigado (ainda que tributário de novas conquistas ao preconceito) relativamente a todo o esplendor de um barroco que se perdia em devenientes talhas douradas e construções poéticas de entrelaçados segredos cúmplices, por aí traduzíveis numa magistral peça polifónica em que se acabava sempre por compreender melhor a música do que a lírica - sentir o Belo apenas, para alguns fútil, sem pensar. Para mim, Belo e sedutor, sem dúvida!!! Houve quem dissesse: "O Barroco não mostra a vida - distrai dela".
O meu dilema: o séc.XVII ou o séc.XIX - o estético sentir, de perfumadas nuances e antecâmaras de Prazer anunciado, num gosto por uma doce e kunderiana lentidão vivida no Banho de Apolo em Versalhes, ao som de Jean Baptiste Lully, ou, ao invés, esse febril fulgor de um locus horrendus, ao modo de Bocage ou mesmo de Herculano, em que o Amor era para ser vivido numa melancolia e numa fúria orgásmica em que a rapidez sempre faria decair a memória de um momento tão curto como é aquele em que o Prazer nos toma por completo.
Enfim... Nunca duvidei de uma dada frase, adágio ou provérbio renascentista, a recuperar Homero, que todos nós conhecemos, nem que seja por outras palavras: "Em todas as cousas há uma certa medida". Ou seja,
Tanto uma época como a outra tem a sua medida certa, o seu je ne sais quois de apaixonante e sedutor.
E, deste modo, lembrei-me de glosar em torno do mote que Ossian, esse suposto poeta gaélico, me proporcionou.
Ossian, ao que tudo indica, guerreiro bardo gaélico, imaginado por James McPherson, canta baladas de um tempo em que os actos de bravura em batalha definiam a essência do homem, a demanda pela glória e reconhecimento e o doce repouso merecido no colo daquela que o teria escolhido como seu.
Embora muitos dos tais poemas épicos se têm como forjados por McPherson, o certo é que algumas sagas narradas nas suas obras são excertos de baladas genuínas que remontam ao séc.III.
O princípio do Romantismo torna-se assim numa busca fascinante por lugares escondidos em bosques perdidos nas Terras Altas ou mesmo na Velha Irlanda.
Ao tentar decifrar alguns versos de The Songs of Selma, deparo-me com aquela melancolia que seduz o nosso lado lunar mas que logo nos faz querer regressar para um locus amoenus de diáfanas cores, límpidos canais venezianos e doces sons de cravo.
Mas, é como já se disse, em todas as coisas há uma medida certa.
E para lá da questão de sabermos se estes poemas são forjados, o certo é que têm o seu encanto, a temperar, certamente com algo mais luminoso.
E depois, no final de contas, cantar o Amor, o Viver e o Sentir é o que realmente interessa - uma Busca de todas as épocas!
Uma conversa na esplanada, à beira da Catedral!
Tá grá agam ort!




James Macpherson (1736-1796)

The Songs of Selma
(excerpt)


ARGUMENT
Address to the evening star. An apostrophe to Fingal and his times. Minona
sings before the king the song of the unfortunate Colma; and the bards exhibit
other specimens of their poetical talents; according to an annual custom
established by the monarchs of the ancient Caledonians.


1Star of descending night! fair is thy light in the west! thou liftest thy
2unshorn head from thy cloud: thy steps are stately on thy hill. What
3dost thou behold in the plain? The stormy winds are laid. The murmur
4of the torrent comes from afar. Roaring waves climb the distant rock.
5The flies of evening are on their feeble wings; the hum of their course is
6on the field. What dost thou behold, fair light? But thou dost smile
7and depart. The waves come with joy around thee: they bathe thy
8lovely hair. Farewell, thou silent beam! Let the light of Ossian's soul
9arise!


10 And it does arise in its strength! I behold my departed friends.
11Their gathering is on Lora, as in the days of other years. Fingal comes
12like a watry column of mist; his heroes are around: And see the bards
13of song, grey-haired Ullin! stately Ryno! Alpin, with the tuneful voice!
14the soft complaint of Minona! How are ye changed, my friends, since
15the days of Selma's feast? when we contended, like gales of spring, as they
16fly along the hill, and bend by turns the feebly-whistling grass.


17 Minona came forth in her beauty; with down-cast look and tearful
18eye. Her hair flew slowly on the blast, that rushed unfrequent from the
19hill. The souls of the heroes were sad when she raised the tuneful voice.
20Often had they seen the grave of Salgar, the dark dwelling of white-
21bosomed Colma. Colma left alone on the hill, with all her voice of song!
22Salgar promised to come: but the night descended around. Hear the
23voice of Colma, when she sat alone on the hill!


COLMA


24 It is night; I am alone, forlorn on the hills of storms. The wind is
25heard in the mountain. The torrent pours down the rock. No hut re-
26ceives me from the rain; forlorn on the hill of winds!


27 Rise, moon! from behind thy clouds. Stars of the night arise! Lead
28me, some light, to the place, where my love rests from the chace alone! his
29bow near him, unstrung: his dogs panting around him. But here I must
30sit alone, by the rock of the mossy stream. The stream and the wind roar
31aloud. I hear not the voice of my love! Why delays my Salgar, why the
32chief of the hill, his promise? Here is the rock, and here the tree! here
33is the roaring stream! Thou didst promise with night to be here. Ah!
34whither is my Salgar gone? With thee I would fly, from my father; with
35thee, from my brother of pride. Our race have long been foes; we are not
36foes, O Salgar!


37 Cease a little while, O wind! stream, be thou silent a while! let my
38voice be heard around. Let my wanderer hear me! Salgar! it is Colma
39who calls. Here is the tree, and the rock. Salgar, my love! I am here.
40Why delayest thou thy coming? Lo! the calm moon comes forth. The
41flood is bright in the vale. The rocks are grey on the steep. I see him
42not on the brow. His dogs come not before him, with tidings of his near
43approach. Here I must sit alone!


44 Who lie on the heath beside me? Are they my love and my brother?
45Speak to me, O my friends! To Colma they give no reply. Speak to me:
46I am alone! My soul is tormented with fears! Ah! they are dead!
47Their swords are red from the fight. O my brother! my brother! why
48hast thou slain my Salgar? why, O Salgar! hast thou slain my brother?
49Dear were ye both to me! what shall I say in your praise? Thou wert
50fair on the hill among thousands! he was terrible in fight. Speak to me;
51hear my voice; hear me, sons of my love! They are silent; silent for ever!
52Cold, cold are their breasts of clay! Oh! from the rock on the hill; from
53the top of the windy steep, speak, ye ghosts of the dead! speak, I will not
54be afraid! Whither are ye gone to rest? In what cave of the hill shall I
55find the departed? No feeble voice is on the gale: no answer half-drowned
56in the storm!


57 I sit in my grief! I wait for morning in my tears! Rear the tomb, ye
58friends of the dead. Close it not till Colma come. My life flies away
59like a dream: why should I stay behind? Here shall I rest with my
60friends, by the stream of the sounding rock. When night comes on the
61hill; when the loud winds arise; my ghost shall stand in the blast, and
62mourn the death of my friends. The hunter shall hear from his booth.
63He shall fear but love my voice! For sweet shall my voice be for my
64friends: pleasant were her friends to Colma!


65 Such was thy song, Minona, softly-blushing daughter of Torman.
66Our tears descended for Colma, and our souls were sad! Ullin came with
67his harp; he gave the song of Alpin. The voice of Alpin was pleasant:
68the soul of Ryno was a beam of fire! But they had rested in the narrow
69house: their voice had ceased in Selma. Ullin had returned, one day,
70from the chace, before the heroes fell. He heard their strife on the hill;
71their song was soft but sad! They mourned the fall of Morar, first of
72mortal men! His soul was like the soul of Fingal; his sword like the
73sword of Oscar. But he fell, and his father mourned: his sister's eyes
74were full of tears. Minona's eyes were full of tears, the sister of carborne
75Morar. She retired from the song of Ullin, like the moon in the west,
76when she foresees the shower, and hides her fair head in a cloud. I
77touched the harp, with Ullin; the song of mourning rose!

sexta-feira, novembro 03, 2006

Epica - Feint (Acoustic)

Ouviu-se na esplanada já aqui há alguns tempos! O som perfeito para ecoar por essa praça com uma catedral como pano de fundo! Vêm da Holanda e chamam-se Epica. A menina com esta voz chama-se Simone Simmons e é mezzo soprano!!!

A letra:

The very brightest candle of all has been extinguished
Smothered by those who could not bear to face reality

Every beat of your heart tore the lies all apart
Made foundations quiver
Every wave in the lake caused the porcelain to break
And I shiver...

The leftover tallow just doesn’t contain
All the right answers
Under a sea of dust lies a vast wealth of wisdom

An untuched snow turns red
Innocence dies

This black page in history is not colourfast,
will stain the next
All that remains is just a feint of what was meant to be
This black page in history is not colourfast,
will stain the next
And nothing seems in life,
in dreams like what was meant to be

quinta-feira, novembro 02, 2006

The Kinks Live 1973 - Part 7 of 7

Se é tido como pacífico que os Beatles foram os primeiros músicos vindos da classe operária que ainda hoje faz de Liverpool a Almada Britância, o certo é que ao mesmo tempo, também por terras de Sua Majestade, surgia esta banda, ideia original de dois irmãos - os Davies - que, em muitos aspectos, conseguiram superar os Quatro da Caverna. Nos Kinks podemos ver uma assumpção descomplexada de toda uma fleuma e de um desejo de aristocracia de que nenhum britânico tenha ainda abdicado! Um som agradável com um humor que poderia muito bem ter servido de inspiração a esse grande Bravo - Neil Hannon!
Ouviu-se na esplanada por estes dias!!!

Algo mais directamente da Wikipedia:

The Kinks were an influential and prolific English rock group, formed in the mid-1960s by Ray Davies and his brother Dave Davies. They first gained prominence in 1964 with their hit single "You Really Got Me" and continued to record and perform for over thirty years. The band's name came from their "kinky" dress sense of leather capes and boots worn on stage.[1] The group's original lineup consisted of lead singer/guitarist Ray Davies, lead guitarist Dave Davies, drummer Mick Avory and bassist Peter Quaife. In the United States, they are included in the Big Four of the British Invasion bands: The Beatles, The Rolling Stones, The Kinks and The Who.
While they were never as commercially successful as their mid-1960's peers, The Beatles, The Rolling Stones, or The Who, the band is frequently cited as one of the most important and influential acts of the 1960s.[2] Their early hard-driving singles set a standard in the mid-1960s for rock and roll that reverberated for decades. Albums such as Face to Face,[3] Something Else, Arthur, Village Green and Muswell Hillbillies are highly regarded, by fans and peers alike, and are considered amongst the most influential recordings of that era.[1] Since then the band has experienced a popular fan revivals in the late 70s and early 80s followed by a painful commercial collapse in the late eighties continuing until their disbandment in the early 90s.
After their last tour in the middle 90s, for their latest again-commercially unsuccessful album, the band has been largely inactive. The relationship between the Davies brothers seems to have deteriorated completely around then and both of them had embarked. Rumours of a Kinks reunion are persistent but still vague. Since the exit of longtime drummer Mick Avory (serving in the band's first two decades) in 1984, the latter has been a manager of the band's Konk Studios, where most of the band's material since 1973 has been recorded. As the band are still disbanded, in recent years Avory has been promoting Kinks material with former Kinks members of the 70s John Dalton and John Gosling, including Dave Clarke on guitar and vocals in the formation "Kast off Kinks". He also have joined the veteran supergroup called "The Class of 64" – refering to the year the British Invasion took America by storm (with members from The Tremeloes and The Hollies) – who are also promoting Kinks material among their other bands' material.
Whatever the bands fortunes, their influence on emerging artists has been a constant. During the Punk rock and New Wave era The Jam and The Pretenders both covered Kinks songs[1] and Britpop acts such as Blur, Oasis and Supergrass have cited them as a major influence.[2] As self-professed Kinks fan Pete Townshend said for 'The History of Rock 'n' Roll': "The Kinks were much more quintessentially English. I always think that Ray Davies should one day be Poet Laureate. He invented a new kind of poetry and a new kind of language for Pop writing that influenced me from the very, very, very beginning."

sábado, outubro 28, 2006

Serge Gainsbourg and Jane Birkin

Um clássico! Andava na minha estante à procura do disco, aqui há dias! Amo-te muito!!!
The Divine Comedy - Perfect Lovesong

Lembro-me do primeiro crush que tive contigo... Foi mesmo naquele dia em que nesta esplanada, ou naquela nossa outra, com dois cafés e uns cigarro falávamos de música,mais precisamente deste grande grupo de bons bailaricos e das nossas esperanças e anseios para o estágio! Logo aí, ao perder-me como me perco nesses teus olhos de pura esmeralda, percebi que te pertencia há muito! Que para ti sempre caminhei, pois a minha Demanda sempre foi fazer-te feliz! Volvido o tempo de que nós sabemos ser hoje aniversário, o meu Desejo por ti continua a ser esse crescendo que conserva a sua melodia sinfónica num Allegro molto Vivace, um rápido d'águas bravas que por ti corre num furioso ímpeto de Prazer! Pode isto não ser a mais perfeita canção de Amor, mas sou Eu, apenas eu, a expor os termos de tudo aquilo a que me proponho fazer para que sejas Feliz, como nunca imaginaste ser possível! E quando sentires que melhor é impossível, quero voltar-te a surpreender, levando-te outras vez às nuvens!!! AMO-TE MUITO, MEU AMOR! PARA SEMPRE E AINDA MAIS UM BOCADINHO!

sexta-feira, outubro 27, 2006

House of Love - Shine on

Algo muito nosso!...
Within Temptation - Mother Earth

O relance de olhar da Sharon neste vídeo, logo no início, apenas se compara ao vosso, Senhora Minha, muito mais sublime! Num antigo bosque élfico semelhante, o vosso Castelo se ergue num promontório que se avista de cima do vale - bem lá no meio de rápidos e quedas de água, os torreões, rompem pela neblina d'água condensada e dão-me a certeza de um repouso seguro e de uma Paixão única! O Vosso Vassalo!

quarta-feira, outubro 25, 2006

Rhapsody Unholy Warcry

Oh não!!! É o Saruman!!!
Algo para uma noite de temporal!Antigos castelos, encantamentos e magias de sabedorias antigas, estórias de bravura e valor de Cavaleiros destemidos e Trovadores apaixonados - muito do meu viver "romântico"!

A letra

In the dark lies a secret
In the mystic seventh black book
Nekron's dark words

He is Kron, Kron's disciple
He is sworn to return
To avenge the lost divine wars

Algalord arise, greater than before
Time of peace, not of war
Shouts of freedom from the castle's walls
Freedom in the land and
Hope for all... hope for all

Into the silent, dark and forgotten
Caves of Dar-Kunor
Deep in the secret book is awaiting
Unholy Warcry
Nekron promised bloody terror
Bringing death and hate to the new world

From the rocky mountains to the golden sea
To the barbarians' sacred hills
From the icy north and misty lakes
To the walls of Seth and elvish plains
All beware!

Into the silent, dark and forgotten
Caves of Dar-Kunor
Deep in the secret book is awaiting
Unholy Warcry
Nekron promised bloody terror
Bringing death and hate to the new world

Torment, pain and bloody rain... Nekron's resurrection
They must kill the demon king or fight another war

"Only one person could crossed the darklands sorrounding Hargor
and venture forth deep into the caves of Dar-Kunor...
His is a name the world will never forget...
He is Dargor!"

He is the chosen one
He walked out through the darkness
He met the wisdom's light
Chosen to find the last dark rhymes
The last rhymes of hell

He is Kron, Kron's disciple
He is sworn to return
To avenge the lost divine wars

There was only one who knew the way
He lived in the dark, lonely caves
The demon of the night could save the day
Should they take a chance or run away...
Dargor was his name!

Into the silent, dark and forgotten
Caves of Dar-Kunor
Deep in the secret book is awaiting
Unholy Warcry
Now they swore to band together
On a sacred journey
Called by fate, time to be great
Unholy Warcry
Nekron promised bloody terror
Bringing death and hate to the new world

terça-feira, outubro 24, 2006

Within Temptation Ice Queen

Within Temptation - Ice Queen Lyrics
When leaves have fallen
And skies turned into grey.
The night keeps on closing in on the day
A nightingale sings his song of farewell
You better hide for her freezing hell

On cold wings she's coming
You better keep moving
For warmth, you'll be longing
Come on just feel it
Don't you see it?
You better believe it.

When she embraces
Your heart turns to stone
She comes at night when you are all alone
And when she whispers
Your blood shall run cold
You better hide before she finds you

Whenever she is raging
She takes all life away
Haven't you seen?
Haven't you seen?
The ruins of our world

She covers the earth with a breathtaking cloak
The sun awakes and melts it away
The world now opens its eyes and sees
The dawning of a new day

Whenever she is raging
She takes all life away
Haven't you seen?
Haven't you seen?
The ruins of our world

Excelente! Simplesmente excelente! Uma melodia perfeita para uma letra sublime!!!
November Rain

E já que vamos entrar em Novembro... Um grunge neo-romântico muito em voga nesses idos anos de '92/'93
Winter - Tori Amos

A realização não é grande coisa mas estávamos em 1990! Mas, hey, a lírica e a música fazem de Tori Amos uma verdadeira trovadora!

domingo, outubro 22, 2006

A mais cristalina das certezas


De madrugada venho à varanda e corro as janelas de vidro para deixar entrar uma pequena brisa que já sopra com alguma impetuosidade outonal... Sento-me no nosso sofá cor-de-rosa e deixo-me ficar a fumar um cigarro, olhando para o horizonte, repleto de arrozais e esperando achar a luz do castelo altaneiro que há pouco se apagou. No nosso quarto, vais docemente dormindo e o teu respirar é sereno e feliz! Sorrio, aconchegado no teu cheiro que se conserva no meu corpo, ao recordar o teu olhar de mimo quando te abracei e te deitei no meu peito! Engolindo um travo daquele meu gaélico néctar de malte, fecho os olhos e respiro fundo.

Incrível, penso eu, como tudo se encaixa, mercê de um providencial destino ou de um humano acaso!

Ao perder-me nesse teu verde oceano que são os teus olhos, dou comigo mesmo a encontrar a verdadeira e fundamentante Felicidade - aquela que apenas se sente em raros momentos alquímicos, quando sabemos que o que estamos a viver é o sonho tornado realidade, a recompensa de todos os esforços por querer sempre mais, e a celebração do achado do Tesouro!

Ao perder-me nesse teu verde oceano que são os teus olhos, sei que cheguei ao meu porto d'abrigo, ao Castelo onde serei teu Vassalo, pois apenas a ti me entrego, jurando tudo fazer para concretizar todos os teus Desejos!!!

A mais cristalina das certezas é, pois, esta: TU ÉS A MINHA ESSÊNCIA E TENS-ME PARA SEMPRE!!! E ASSIM SOU EM TI, PORQUE É NESSE TEU VERDE OCEANO QUE ME PERCO E ME ENCONTRO, COMO NUNCA ANTES PENSEI ENCONTRAR-ME!!!

SOIS O MEU MAR E A MINHA PRAIA, SENHORA!!!

VOLTO AGORA PARA A TUA BEIRA, SONHANDO CONNOSCO NESSA AUTO-ESTRADA PARA DAMASCO, OU MESMO RUMO AO NOSSO BIG-SUR!!!

E É VERDADE: ... HOW LONG THEY KISS IN SIGHT OF ALL THE LANDS, AH! LONGER, LONGER WE.

sexta-feira, outubro 20, 2006

On and On and On (Show Express, 1980)

E este então nem se fala! É incrível o que a Eurovisão tem feito pela cultura, pela música ligeira e pelo... kitsch do Velho Continente!
ABBA - 1981 One of Us

Do melhor!

quinta-feira, outubro 19, 2006

Uma das minhas imagens favoritas

Algo deveniente e sedutor - mesmo à beirinha da Catedral

O Começo

Por noites Outonais de um promissor Outubro, aquilo que aqui se pretende iniciar é apenas uma stravaganza de um ideário de anseios e desejos que culminam sucessivamente na construção imaginada de cenários físicos utópicos, em que o que conta é a partilha de estórias originais e com interesse.

Imaginemos a Place de La Cathedral em Estrasburgo, ou a Grande Place de Bruxelas, ou mesmo aquele cafezito pequeno que existe no segundo piso da Torre Eiffel...

E quem diz estes sítios pomposos, também diz a Tasca do Senhor José Francisco (Zé Chico para os habitués), que tem mesas à porta.

O que aqui se propõe é realmente esse espaço amplo, longe da clastrofobia dos sítios fechados - onde muitas vezes o que reina é o preconceito e a reserva mental - o limiar da fronteira, onde tudo pode ser discutido e debatido.

Cathedral Square, onde tocadores de flauta se escondem por debaixo de góticas arcadas, contaminando saudavelmente tal entrada do templo com sons pagãos, em noites amenas ou de chuviscos mornos, à espera de uma moeda para poder beber uns copos.

Cathedral Square, uma esplanada onde, precisamente, se cruzam conversas, risos e ideias!