terça-feira, maio 27, 2008
Pressa
De olhar nervoso, Camilo ia olhando para o helénico relógio que estava junto ao balcão de mármore do café "Tróia".E por cada pingo, por cada gota de água que via cair para o cristalino recipiente colocado por baixo daquela estranha bacia furada, agitava-se um pouco mais... Cada vez mais impaciente e exasperado.Da sua pequena mesa quadrada - também em tons de alabastro e com rebordos de madeira escura a condizer com a cadeira em couro tratado -, sorvendo o resto do digestivo brandy, Camilo persistia e aliterava:"Pssst! Pssst! Ò Pessanha, vamos lá! Faz-me a conta do almoço que já estou atrasado para o trabalho!".
Para uma pena suave.
Para uma pena suave.
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Geek Review, Tour de Blog
A recuperar um conceito que encontrei aqui (este, um post entre muitos que a senhora bibliotecária intitula de, precisamente, "tour de blog") , venho, como não podia deixar de o fazer - por razões sobejamente conhecidas de quem me é próximo -, venho, dizia, dar conta de um achado em que tropecei numa sessão de login na blogosfera.
De facto, para um fã confesso da série de ficção científica "Battlestar Galactica" (desde os seus primórdios, logo ali, no início dos anos oitenta, finais de setenta) o blog que, por estes dias, é tido como digno de nota pela equipa deste nosso "bem-amado" servidor, revela-se como a excelente combinação dos ingredientes necessários à ficção científica, no sentido de se afirmar enquanto manifestação cultural séria e coerente; longe, pois, de qualquer juízo pejorativo e redutor que a possa remeter para uma "coisa-de-tótós".
The Sience of Battlestar Galactica propõe-se, assim, dar uma sólida visão mais "pop" (e naturalmente também "geek" com estilo, claro) - o que aqui está longe de ser algo de negativo - sobre variados temas científicos, que vêm servindo de base aos episódios da nova série épica.
As próprias estórias que ali se contam, servem aqui de mote para umas quantas glosas sobre astronomia, biologia, química, física, etc.
Na minha opinião, "a very nice treat", ficando aqui a deixa: "Some believe that Science began here..."
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domingo, maio 25, 2008
"Portugal, Twelve Points, Le Portugal, Douze Points"
Durante anos e anos, seria esta a frase que eu queria ouvir de um modo muito mais repetido do que alguma vez realmente o foi. De facto, era num misto de orgulho e de esperança, quase futebolística - a qual, por estes tempos de uns aquilinos vôos mais "rasantes" me tem vindo a ajudar a aguentar o despautério em tons de encarnado - que, todos os anos, eu alimentava esse sonho de ver Portugal a vencer o Festival da Eurovisão.
"Este ano é que é! A canção é excelente!" - o pensamento que anualmente ia fervendo em renovado nervoso miudinho até à noite de Sábado, de um Maio que se queria Primaveril, anunciando a chegada do tempo quente.
Contudo, como a história cruamente o confirma, nunca vi tal "alegria" concretizada.
De qualquer modo, é com saudade que lembro os tempos em que o País parava para se reunir em frente à televisão e assistir, no mesmo registo de expectativa, a esse evento da música ligeira europeia, algumas famílias até arriscando-se a dar as suas próprias pontuações, nessa famosa escala de 1 a 12, não havendo setes, nem noves, nem onzes.
Noruega, Bélgica, Itália, Suécia e Irlanda (esta última, com uma dinâmica de vitória incessante até 1995 e recuperada no ano seguinte), alguns dos países que sempre vimos a vencer, somando e seguindo na contagem dos pontos atribuídos pelos júris de cada estado-membro da U.E.R (a União Europeia de Radiodifusão), e dispostos num sempre colorido quadro de bandeiras, que aparecia na segunda parte do programa. Na verdade, posso até dizer que comecei a identificar os países europeus e do Mediterrâneo, de acordo com as suas cores, graças ao Festival da Eurovisão.
Uns dizem que é "kitsch", outros que é o puro "pop" do Velho Continente (onde ficam, pois, os ABBA?). Para mim, naquilo que me interessa, o Festival da Eurovisão é algo de mais subjectivo - a minha primeira tomada de consciência de um imaginário nacional que sempre quis ser maior, que sempre buscou o reconhecimento das outras culturas ditas "mais esclarecidas", a suspirar de conformismo por continuamente perder até "a feijões". E curiosamente, nunca deixei de encontrar correspondência disso mesmo em alguns temas que levámos a tais paragens de palcos maiores. "Conquistador" dos Da Vinci, "Lusitana Paixão" da Dulce Pontes ou até mesmo "O Meu Coração não tem Cor", da Lúcia Moniz - até hoje, a nossa melhor prestação -, são exemplos de como sempre insistimos em mostrar o nosso saudosismo por tempos de abundância e pretenso poder.
Por sua vez, temas como "Amor de Água Fresca" (Dina, Malmöe, 1992) ou aquela do "Quando Cai a Noite na Cidade" (Anabela, Irlanda, 1993), deram uma certa cor ao nosso contributo pátrio.
De outro lado, ainda guardo grande ressentimento por alguns intérpretes e autores nacionais que marcaram a sua presença no Eurofestival com canções paupérrimas - Nevada ("Neste Barco à Vela"), uns tipos madeirenses, Tó Cruz ("Baunilha e Chocolate") ou até mesmo Célia Lawson ("Antes do Adeus" - uma triste "colagem, que terminou com zero pontos!), nem tentem aparecer-me à frente!
De qualquer modo, outros tempos vieram, mercê das vontades que se mudaram, mercê do xadrez que se inverteu, e não deixa de ser curioso notar o seguinte: hoje em dia, são os antigos países do Leste Europeu que dão cartas em tal espectáculo. Ainda este Sábado, foi a Rússia que venceu na Sérvia e que agora tem a responsabilidade de, no próximo ano, organizar as duas semi-finais e a finalíssima de um modelo que retirou a uns quantos "entendidos" o poder de eleição da melhor música - por muito que possa custar ao senhor Eládio Clímaco ou até mesmo à Senhora Isabel Bahia (a prata da casa da RTP para estas andanças).
Mesmo assim, mais curioso de notar é ainda o facto de Portugal ter passado por tal mudança de hegemonia, igual a si próprio - um perdedor com umas quantas vitórias morais e sempre a dizer, pela boca dos derrotados, que "sai de cabeça erguida"... talvez como a Selecção.
Enfim, pode ser que seja para o ano! Pode ser que, para o ano, o que mais se ouça seja: "Portugal, Twelve Points, Le Portugal, Douze Points.
PS: Em abono do orgulho nacional, é conveniente dizer que, após quatro anos de derrotas humilhantes, passámos, este ano em Belgrado, à finalíssima onde até acabámos em 13º lugar (num total de vinte e cinco participantes), com 69 (sessenta e nove) pontos... Não está nada mal, Vânia Fernandes!...
Também isto é história e memória escritas à pena suave.
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terça-feira, maio 20, 2008
Vintage Geek - Edição especial
Para todos aqueles que, como eu, consideram este um dos melhores jogos de estratégia dos anos noventa.
Pode também ser encontrado aqui.
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quarta-feira, maio 14, 2008
terça-feira, maio 13, 2008
domingo, maio 11, 2008
Momento da Verdade
Respondendo na mais pura aleatoriedade planeada, sempre vou recordando um aforismo familiar, recuperado de um pequeno porta-revistas, feito de lona que se dá pelo nome de "Sanitário Real": "Nas prolongadas sessões, satisfazem quaisquer publicações".
Lanço o desafio à Bitchy Lady, ao Paulo e ao Júlio, porque também ele sabe dosear o bom humor em pequenas doses do mais puro talco de diamante.
segunda-feira, maio 05, 2008
Coisas que detesto ao volante
Em resposta ao desafio bem-lembrado da Mariana, este post deveria servir para eu enumerar todos aqueles pequenos detalhes, ligados à condução automóvel, que me tiram do sério. No entanto, tal como ali é dito, no meme a que por ora respondo, sempre me deparo com uma manifesta excepção, já ali aflorada: eu não possuo carta de condução, nem conduzo.
Deste modo, a minha possível lista de tais "ódiozinhos urbanos" terá que ver mais certamente com aquilo que vou observando e sentindo do meu "prezado" lugar ou de pendura, ou de utente de transportes públicos ou ainda de passageiro explorado, sempre que chamo ou apanho um táxi.
Então cá vai:
1. Condutores que, em longas filas de trânsito, paralelas umas às outras, tentam sempre meter-se à frente, descurando muitas vezes aquela coisa da "prioridade";
2. Motoristas de táxi que insistem sempre em meter conversa, mesmo quando não me conhecem de lado nenhum;
3. Motoristas de autocarro, arreigados na sua "importante condição" de trabalhadores com qualificação, que pouco se importam com os eventuais danos de uma queda ou outra lesão, por cada vez que fazem bruscos arranques ou travagens;
4. Funcionários de empresas de distribuição de produtos, vulgo "comerciais" e a quem eu apelido de "malta das entregas", porque simplesmente me irrita o seu ar de pura labreguice marialva de cada vez que chegam a um sítio com as chaves no carro numa mão e o telemóvel na outra - querendo sempre dar um ar de "Top Gun's" ou "Ases" do Volante;
5. Conversas sobre carros, manobras e perícia em geral;
6. Desportos automóveis;
7. Instrutores de condução, que pensam ser professores universitários;
8."Anabelas" que se julgam mulheres verdadeiramente emancipadas por serem titulares "bálidas" de carta de condução (é que, enfim, sempre pensam ser mais valorosas e capazes quando remetidas para outro banco que não o traseiro), suprindo sempre os baixos graus de instrução escolar e formação pessoal;
9. Todos aqueles que insistem em usar termos técnicos para coisas simples - para mim, faróis sempre foram faróis, quais "ópticas" quais quê;
10. E acima de tudo a importância que o bom povinho dá ao facto de se possuir um carro, lembrando-me sempre de uma analogia bem apanhada: se em tempos idos, ascendia à condição de nobre quem mantivesse um cavalo e uma armadura, é dado adquirido que, nos dias que correm, qualquer besta vai ao volante e nada tem que ver com aquelas outras, em que se mede a potência do motor.
Em suma, não morro de amores por carros ou por condução e muito menos de quem faz disso um grande tema para conversas, passatempos ou até mesmo para registo de proezas pessoais.
PS: Agora fiquei meio indisposto, ao estilo da Alice do Dilbert.
Também já respondido pelo Cachapa e pelo Ricardo. Lanço o desafio à Bitchy Lady, ao Paulo e ao Augusto.
terça-feira, abril 22, 2008
Insight
Credits: WallpaperD. art, de-art = Design Art
De-art may be the best concept expression to describe the way how design de-composes and merges with art, re-presenting it in a whole new trendy, fashionable and fresh look.
Uma ideia escrita também, em traços suaves, a tinta permanente.
sábado, abril 19, 2008
terça-feira, abril 15, 2008
Puro Vintage II

Contra a folha de papel azul, sempre escolhida para coisas sérias, os caracteres iam sendo impressos, ao som ocluso que o batimento das teclas provocava. Ao chegar ao fim da linha, previamente marginada, um sinal sonoro estridente marcava a obrigação de "dar à alavanca" - uma rude tecla "Enter", muito mais grave e que se impunha por si própria -, fazendo o cursor mecânico posicionar-se imediatamente mais abaixo. Um movimento do rolo, dois ou três espaçamentos e lá recomeçava.
"Em regime de compropriedade com seu irmão..." e outros termos que tais, por ali iam ficando, dando a vinte e cinco linhas, a estampilhas e a selos brancos, a sua essência e verdadeiro propósito.
E se nos tempos livres, a esforçada, mas douta e sábia matrona, proprietária daquela Remington - uma verdadeira maravilha da técnica -, pensava em dar-lhe uso para os prazeres de uma escrita mais livre, o certo é que o tempo lhe ia sempre faltando.
No meio de colinas, vales e montes - daqueles que ficam "a-Trás" de outros tantos, os chamados por esse mesmo nome -, antigos feudos e morgadios fraccionavam-se, vendiam-se e compravam-se.
O movimento e o volume de serviço naquele Cartório podiam não ser comparáveis aos de um outro qualquer, no Porto, ou mesmo em Lisboa, mas dava para que, todos os dias, o expediente viesse sempre a encontrar o seu termo a horas incertas.
E assim, na fita de duas cores - preto e vermelho -, maiúsculas e minúsculas letras formavam palavras que se queriam solenes.
No final de contas, frases como "Exercendo a sua posse, há mais de quinze, vinte, vinte e cinco, trinta anos...", davam a definitiva certeza àqueles que sempre tinham amanhado, com tributos de suor e sangue, os torrões de terra do seu sustento, confiando numa divina providência que lhes trouxesse apenas quatro estações, conformes aos dizeres e aos usos de anos desejavelmente sempre iguais, desde um tempo há muito ido, bem antigo.
Ao termo dessas folhas, aprovadas por uma qualquer portaria da Presidência do Conselho, a linha para a rubrica e assinaturas.
Nos rostos dos adquirentes, assim presumidos, porque presuntivos os seus actos, a certeza de que o "uso campeão" um maior sossego lhes traria - o que está escrito, escrito está, sempre se disse -, a certeza, essa, nascia num tímido, mas franco sorriso.
Tudo assinado conforme os termos, tudo conferido e tudo pago, mais um dia tinha passado.
Num gesto prático e mecânico, a Ilustre Notária puxava da tampa de rígido plástico e declarava encerrado mais um exercício daquela sua máquina de escrever.
Sempre prazerosa, sabia ter chegado ao fim de mais um dia com o dever cumprido. Ainda que já com a Lua bem alta.
Também à suave pena da nostalgia.
Photoshopianice da Mariana.
terça-feira, março 25, 2008
Puro Vintage
De lâmina em riste, António tentava não cortar a cara, nessa aborrecida empresa quotidiana de aparar aquilo que já ia sendo a sua barba grisalha. Todos os dias, com excepção do Domingo - dia de grandes sofrimentos, vividos junto a uma fanhosa telefonia de um "esférico rolando sobre a erva", ora impiedosa, ora triunfal -, aquele era um ritual que envolvia uma certa arte de concentração, destreza, precisão e paciência.
Um marco ritual da sua passagem à idade adulta, António, lembrava-se bem do dia em que seu Pai, o senhor Zeferino, lhe disse para começar a cortar aquela "barba de mancebo", porque lhe daria um ar mais apresentável lá no armazém onde já trabalhava há dois anos como pequeno grumete.
De grumete a fiel, foi subindo na vida e estava agora responsável por todo aquele vetusto edifício de enorme pé direito e com grandes portadas de madeira de castanho.
Entre um pequeno corte e um pequeno fio de sangue, os impropérios sussurados para si próprio, apenas cessavam no gesto seguinte: mergulhava a cara na bacia de porcelana do lavatório, na água tépida previamente regurgitada por duas torneiras prateadas - uma de quente, outra de frio -, limpando os restos de creme de barbear aplicado na face, ao pincel, esperando um qualquer alívio para aquele rubor ardente.
Perfeccionista, pegava naquele balsâmico "Musgo" que se queria para a realeza, para as "Pessoas de Primeira Categorya e Qualidade" (o maior desejo de uma classe média vitoriosa), e cobria a cara de espuma, tirada em mais umas quantas conchas de água.
Em breves gestos levava à cara o verde e áspero turco atoalhado, encontrado no varão fixo ao azulejo branco da parede, olhando-se depois ao espelho com a sensação de dever cumprido e em estado de total prontidão.
Ao sair do quarto de banho, toalhão de banho aos ombros, lá ia todo lampeiro vestir-se.
No lavatório, permanecia essa gasta barra de sabonete com óleo de côco, o mesmo desde os seus tempos de petiz. Um "must" ainda muito antes de nascer tal conceito, mas que dava aos dias úteis um sentido de confiança, de permanência e de certeza de que iria ser sempre assim.
domingo, março 23, 2008
No Gira Discos
A banda sonora perfeita - porque acolhedora - para este gélido início de Primavera. Também nos traços suaves de uma certa pena.
(Rita Redshoes - Dream on Girl)
sábado, março 22, 2008
Ainda os malandrecos
Mas, lá está, realmente sempre também o povo disse que "o pior cego é aquele que não quer ver".
quinta-feira, março 20, 2008
São uns malandros

Lá diz o velho ditado que "em casa de ferreiro, espêto de pau"... Mais uma vez o povo tem razão!
De facto, tem tanta razão o povo quanto maior me parece ser, salvo o devido respeito, a hipocrisia desavergonhada de quem se diz seu mais acérrimo arauto. Quando interpelado sobre os últimos confrontos no Tibete, Jerónimo de Sousa - Secretário-Geral do Partido Comunista Português - aconselhou "prudência" .
Perante tais declarações apenas me ocorre dizer: "Francamente!"
Que as informações acerca dos confrontos são contraditórias, como afirma na notícia citada, podemos aceitar; não podemos é ficar por aí. Certamente, saberá o senhor secretário-geral que assim acontece apenas porque o governo chinês o deseja; a máquina de contra-informação é agora mais perfeita que nunca, tendo refinado a propaganda com alguns toques de inevitabilidade - ninguém se atreve a protestar contra uma super-populosa China em ascensão, assente num absurdo sistema económico dualista (onde, ironicamente, o capitalismo é o verdadeiro elemento essencial).
Contudo, o que é certo e bem o sabe o senhor secretário geral, é que a ocupação do Tibete pelo Estado Chinês é uma ocupação ilegítima e contrária a todos os princípios de Direito Internacional Público que o mesmo diz respeitar.
Pode o senhor secretário geral estar esquecido de que existe um compromisso, tacitamente aceite pelo "Concerto das Nações", de não reconhecer quaisquer aquisições de território que tenham na sua base o uso da força bélica? Esquecido não está, certamente. Apenas não é conveniente tê-lo presente, por ora.
No que toca à justificação que encontra para tanta violência no Estado do Tibete - que a mesma apenas resulta da vontade de uns quantos em sabotar os Jogos Olímpicos de Pequim - uma vez mais é patente que fica o senhor secretário-geral, providencialmente, a meio caminho.
É que certamente tem consciência que não é a sabotagem gratuita que aqui está em causa. Se grupos tibetanos alegadamente tomaram a também discutível decisão de recorrerem à violência em tal altura crucial - a poucos meses de o Fogo Olímpico poder ser visto da Cidade Proibida - é porque, certamente, vêem, no limite, essa janela de oportunidade como a mais apropriada para se fazerem ouvir; ainda que não, eventualmente, da melhor maneira, repita-se!
De qualquer modo, custa-me a crer que monges budistas constituam uma qualquer força agressora temível e capaz das maiores atrocidades. A acreditar preferencialmente no Dalai Lama, que, ao contrário do que o senhor secretário geral quer fazer crer, não abandona o seu povo, e conhecendo alguns rudimentos da filosofia budista, terão sido certamente mais as manifestações pacíficas do que as violentas. Mas o senhor secretário geral verá, quanto a mim, até nessa filosofia pacífica um perigoso ópio que afasta o povo dos verdadeiros propósitos de um Estado que todos devem venerar.
O que é certo e o senhor secretário geral também o sabe é que a violência existe no Tibete; tal como existe a tortura e o genocídio cultural de todo um povo pacífico. E tudo a favor de um Estado que vai sobrevivendo e preserverando em tais vícios porque assenta a sua actuação em duas faces de Jano.
"Um país, dois sistemas" - eu pergunto: Onde ficam agora a infra e a super-estrutura? No meio das suas contradições insanáveis, naturalmente!
terça-feira, março 18, 2008
Chuvas da Estação
Para tardes de chuva...
(Michael Nyman - The heart asks the pleasure first (The Piano - OST)
Também para suaves glosas.
quarta-feira, março 12, 2008
Emancipação

E lá foi o Dia Internacional da Mulher uma vez mais festejado, no passado Sábado. Rosas, jantares de grupo e saídas com a marca implícita de "Girls Only" - tudo isso a contribuir para a cor local que preencheu o País, um pouco por toda a parte.
Um marco da luta pela emancipação e reconhecimento dos mais básicos direitos democráticos, cívicos e pessoais das mulheres, o sentido esta efeméride sempre passou, a meu ver, pela natural e merecida homenagem a todos os movimentos que levantaram barricadas em tal combate, frequentemente desigual; procurando, por outro lado, dar um alerta para o incumprimento ainda latente de muitas obrigações assumidas e devidas pelos poderes públicos soberanos e eleitos em sufrágio, lá está, universal.
Quer-me, pois, parecer curioso, o rumo que foi dado a tais comemorações, numa pequena vila deste jardim à beira-mar plantado.
De facto, nesta tal simpática vilazinha da Sertã - mais recentemente em destaque devido ao jogo para a Taça de Portugal, que opôs o Sertanense ao FCP - a homenagem pública que a edilidade decidiu levar a cabo teve como protagonistas "quatro mulheres do concelho da Sertã cujo percurso de vida foi marcado pelo sacrifício de criar uma descendência familiar maior que o habitual". Nas palavras do Presidente da Autarquia "esta homenagem afigura-se como uma forma de demonstrar consideração e estima pelo papel desempenhado pelas mulheres na sociedade, em especial à mulher-mãe”.
Ora, primeiro que tudo, entendo por bem deixar claro que o fruto desta minha inusitada curiosidade nada tem que ver com a verdadeira bondade de tais intenções. Na verdade, tenho para mim que tais preocupações foram mesmo valoradas a ponto de se sentir necessidade em premiar os referidos percursos de vida.
Contudo, ao ser-me permitida a crítica, não posso também deixar de entrever aqui um caminho que se abre para um paternalismo que em nada se coaduna com os propósitos de um fenómeno (precisamente, o da emancipação feminina) que sempre se mostrou em contra-corrente com tal estado de coisas, ora posto em destaque por via da referida homenagem. É que, na verdade, a realidade social que deu origem a tais experiências vivenciais sempre correspondeu a quadros familiares em que a mulher se encontrava num estado de pura subjugação, objecto - nunca sujeito - dos mandos e desmandos do chefe de família - o único a quem seriam reconhecidos, de modo pleno, todos os direitos civis.
Entenda-se também - em tempos tão exigentes nos moldes em que a opinião é expressa - que não me refiro em especial ou concreto a nenhuma das homenageadas.
É, pois, apenas um exercício de reflexão este que proponho:
Pelo menos três destas quatro mulheres viveram numa época em que, caso tivessem manifestado vontade de ganhar o seu próprio salário, precisariam sempre da autorização do marido para assinar um simples contrato de trabalho - assim estava previsto no Código Civil, antes da sua Reforma em 1977.
Pelo menos três destas quatro mulheres, caso tivessem sido vítimas das piores formas de coacção moral, psicológica ou mesmo sexual e decidissem sair de casa, poderiam ainda vir a ser sujeitas a uma maior humilhação pública: também o Código de Processo Civil anterior à Revolução de Abril, previa um expediente processual que se dava pelo nome de "Processo para Entrega de Mulher Casada".
Pelo menos a três destas quatro mulheres, pouca ou nenhuma legitimidade processual era reconhecida nos processos de divórcio - algo que sofreu igualmente profundas alterações legislativas, a partir de 1977.
Pelo menos três destas quatro mulheres foram contemporâneas de outras tantas que certamente passaram por tais dificuldades, criadas por um sistema que pouca ou nenhuma dignidade constitucional reconheceu a tais direitos fundamentais "no feminino".
E, por outro lado, que dizer da total ausência de uma verdadeira política de planeamento familiar e educação sexual, nunca assumida por poderes autoritários de tempos idos e tributários de um certo regime confessional conservador?
Enfim, apenas me parece pertinente deixar bem claro que, na minha opinião, o Dia da Mulher tem como propósito homenagear algo mais do que o eventual resultado de um possível, porque naqueles moldes concebível, estado de opressão que é para todos nós hoje tido como impensável, tacanho e retrógado.
Contudo, volto a repetir: a intenção é louvável e não deixa de ser um começo para a correcção de tudo aquilo que ainda faz parte de uma realidade social que não proporciona o mesmo tipo de igualdades ou apenas impõe uma redutora opção, porque não colocada num plano de livres escolhas.
Dizendo de outro modo, a maternidade - também hoje mais do que nunca a merecer um olhar atento do Estado Social, no sentido da criação de condições para o seu livre exercício - não tem de ser a única escolha possível.
É apenas uma escolha entre todas aquelas outras que às mulheres deve ser reconhecida, porque pares de pleno direito desta nossa "res publica".
Se assim não se pensasse, de que serviria a palavra "emancipação"?
À beira da Catedral, na esplanada, um debate de ideias.
Um marco da luta pela emancipação e reconhecimento dos mais básicos direitos democráticos, cívicos e pessoais das mulheres, o sentido esta efeméride sempre passou, a meu ver, pela natural e merecida homenagem a todos os movimentos que levantaram barricadas em tal combate, frequentemente desigual; procurando, por outro lado, dar um alerta para o incumprimento ainda latente de muitas obrigações assumidas e devidas pelos poderes públicos soberanos e eleitos em sufrágio, lá está, universal.
Quer-me, pois, parecer curioso, o rumo que foi dado a tais comemorações, numa pequena vila deste jardim à beira-mar plantado.
De facto, nesta tal simpática vilazinha da Sertã - mais recentemente em destaque devido ao jogo para a Taça de Portugal, que opôs o Sertanense ao FCP - a homenagem pública que a edilidade decidiu levar a cabo teve como protagonistas "quatro mulheres do concelho da Sertã cujo percurso de vida foi marcado pelo sacrifício de criar uma descendência familiar maior que o habitual". Nas palavras do Presidente da Autarquia "esta homenagem afigura-se como uma forma de demonstrar consideração e estima pelo papel desempenhado pelas mulheres na sociedade, em especial à mulher-mãe”.
Ora, primeiro que tudo, entendo por bem deixar claro que o fruto desta minha inusitada curiosidade nada tem que ver com a verdadeira bondade de tais intenções. Na verdade, tenho para mim que tais preocupações foram mesmo valoradas a ponto de se sentir necessidade em premiar os referidos percursos de vida.
Contudo, ao ser-me permitida a crítica, não posso também deixar de entrever aqui um caminho que se abre para um paternalismo que em nada se coaduna com os propósitos de um fenómeno (precisamente, o da emancipação feminina) que sempre se mostrou em contra-corrente com tal estado de coisas, ora posto em destaque por via da referida homenagem. É que, na verdade, a realidade social que deu origem a tais experiências vivenciais sempre correspondeu a quadros familiares em que a mulher se encontrava num estado de pura subjugação, objecto - nunca sujeito - dos mandos e desmandos do chefe de família - o único a quem seriam reconhecidos, de modo pleno, todos os direitos civis.
Entenda-se também - em tempos tão exigentes nos moldes em que a opinião é expressa - que não me refiro em especial ou concreto a nenhuma das homenageadas.
É, pois, apenas um exercício de reflexão este que proponho:
Pelo menos três destas quatro mulheres viveram numa época em que, caso tivessem manifestado vontade de ganhar o seu próprio salário, precisariam sempre da autorização do marido para assinar um simples contrato de trabalho - assim estava previsto no Código Civil, antes da sua Reforma em 1977.
Pelo menos três destas quatro mulheres, caso tivessem sido vítimas das piores formas de coacção moral, psicológica ou mesmo sexual e decidissem sair de casa, poderiam ainda vir a ser sujeitas a uma maior humilhação pública: também o Código de Processo Civil anterior à Revolução de Abril, previa um expediente processual que se dava pelo nome de "Processo para Entrega de Mulher Casada".
Pelo menos a três destas quatro mulheres, pouca ou nenhuma legitimidade processual era reconhecida nos processos de divórcio - algo que sofreu igualmente profundas alterações legislativas, a partir de 1977.
Pelo menos três destas quatro mulheres foram contemporâneas de outras tantas que certamente passaram por tais dificuldades, criadas por um sistema que pouca ou nenhuma dignidade constitucional reconheceu a tais direitos fundamentais "no feminino".
E, por outro lado, que dizer da total ausência de uma verdadeira política de planeamento familiar e educação sexual, nunca assumida por poderes autoritários de tempos idos e tributários de um certo regime confessional conservador?
Enfim, apenas me parece pertinente deixar bem claro que, na minha opinião, o Dia da Mulher tem como propósito homenagear algo mais do que o eventual resultado de um possível, porque naqueles moldes concebível, estado de opressão que é para todos nós hoje tido como impensável, tacanho e retrógado.
Contudo, volto a repetir: a intenção é louvável e não deixa de ser um começo para a correcção de tudo aquilo que ainda faz parte de uma realidade social que não proporciona o mesmo tipo de igualdades ou apenas impõe uma redutora opção, porque não colocada num plano de livres escolhas.
Dizendo de outro modo, a maternidade - também hoje mais do que nunca a merecer um olhar atento do Estado Social, no sentido da criação de condições para o seu livre exercício - não tem de ser a única escolha possível.
É apenas uma escolha entre todas aquelas outras que às mulheres deve ser reconhecida, porque pares de pleno direito desta nossa "res publica".
Se assim não se pensasse, de que serviria a palavra "emancipação"?
À beira da Catedral, na esplanada, um debate de ideias.
quinta-feira, março 06, 2008
Olha, é o House, não é?
E antes de ser Doctor House ou mesmo o Zé Pesca (como, de resto, aqui se mantém), já Hugh Laurie era um bom artista, agradando qualquer um que o visse a trabalhar.
E também se ri aqui.
segunda-feira, março 03, 2008
Urban Style
E porque na esplanada à beira da Catedral também se aspira a um estilo de vida decididamente urbano, sofisticado e viciado no puro bom gosto, a sugestão literária de hoje é dedicada a esta Revista.Moda, design, arquitectura, conceitos - tudo junto num excelente exercício de fusão bem conseguido.
O grafismo (acompanhado por uma objectiva fotográfica certeira) procura dar o destaque que as notícias merecem. Ao contrário de outras tantas publicações - lusas, claro está - a Wallpaper não se detém na sede de protagonismo de quem nela escreve, procurando, isso sim, dar a conhecer o que de melhor se faz na Europa e no Mundo.
As ideias são o que realmente conta, fazendo acreditar que é mesmo possível voltar a outros tempos onde o espírito criativo tinha o poder de mudar mentalidades, convenções e até políticas.
De facto, conseguíssemos nós trazer de volta o Renascimento e na capa desta revista teríamos o loft de Leonardo Da Vinci, o estúdio de Miguel Ângelo e as capas dos discos que eventualmente Rafael ouviria enquanto pintasse.
A Wallpaper é assim - um canhenho de ideias que adquirem forma, volume, tempo e profundidade.
Um "must" nas mesas desta esplanada e também desenhado à Pena Suave.
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