segunda-feira, agosto 11, 2008

Verão III

Queremos ainda mais Verão!!!
Cais do Negrito, Terceira, Açores

terça-feira, agosto 05, 2008

Verão II

Para mais um toque de vintage neste Verão.

sexta-feira, julho 25, 2008

Puro Vintage IV


Pelo começo do Verão, à chegada da sardinha assada - que, desde sempre, fazia as delícias dos fiéis que prestavam culto ao três santos mais porreiros, porque populares -, Pedrito sabia que estava para breve.
No café do senhor Antunes, o momento adquiria, de facto, bastante solenidade, a principiar pela chegada do fornecedor que saía da carrinha frigorífica com um ar de poucos amigos e imbuído do espírito de sacrificado proletário.
Depois, com a ajuda do já referido proprietário hoteleiro, principal interessado na encomenda, ambos arrumavam as caixas de cartão dentro da arca congeladora de sempre - fundo branco e riscas vermelhas, com um logotipo azul, podendo ler-se a palavra de saudação mais traduzida em todo o mundo, ali tornada marca comercial.
Tudo devia ficar bem acondicionado para que, durante três meses, nada se estragasse ou partisse.
Por fim, conferidas as guias e facturas, o fornecedor retornava à sua carrinha para ir buscar o devido brinde e adereço publicitário mais aguardado - a nova carta dos gelados!
Pedrito e os seus amigos nunca se cansavam deste rito anual, típico da altura do estio, satisfazendo logo ali, em jeito contemplativo, uma curiosidade que prenunciava belas tardes, conseguidas, certamente, com algum custo.
Na verdade, era preciso ser-se bonzinho, portar-se bem; fazer todos os recados que os pais lhes ordenassem. No fim, a recompensa, contudo, lá chegava. "Toma lá dinheiro para ires comer um gelado" - a frase que melhor sabia ouvir.
No final do primeiro mês, seguindo as gravuras apreçadas na tal carta, colocada em expositor junto da arca, cada um dos amigos de Pedrito, ia conferindo quais as novidades já experimentadas e saboreadas, dando conta da falta de outras tantas ainda a carecer de verdadeira e entendida prova. Dentro em pouco chegaria Setembro - já depois da praia - e os ares de escola, realmente, não tinham muito que ver com estes devaneios.
Para Pedrito, as suas prioridades eram simples. Por entre sorvetes de água, gelo com aromas de morango, limão e cola - ideais para tardes passadas à beira de piscinas descobertas e perdidas ao tórrido sol (mesmo ali ao fundo do bairro) -, Pedrito, miúdo de hábitos muito próprios, já tinha votado no seu predilecto.
Ao rasgar, no topo, a folha de papel e tirando a pequena tampa circular que o cobria, logo ali estava aquele seu cone recheado, pronto a fazer as suas delícias. Primeiro vinha o amendoim, estaladiço e torrado, depois, inevitavelmente, as natas frias e aquele glacial e crocante chocolate de leite. Ao chegar já à parte da bolacha de baunilha - melhor ainda que a sua congénere "americana" - o tempo era de fazer render e poupar, porque logo depois o momento de inocente e alegre prazer chegaria ao fim.
Por vezes, a testa ficava fria, numa leve dor provocada pela sofreguidão que levava ao choque térmico. Contudo, também isso passava numa breve pausa e mais uma dentada era desferida com entusiasmo redobrado.
Ao mesmo tempo, entre os convivas de palmo e meio, falava-se de aventuras, caças ao tesouro, mistérios sobre mouras encantadas ou façanhas de "cowboys" e corridas de bicicleta, intercaladas por alguns toques de bola e troca de cromos.
Para Pedrito, os dias eram grandes como as férias - a viver repletas de pequenos e refrescantes prazeres que, ainda assim, não saciavam tal sede de pura Felicidade.


Um clássico contemporâneo dedicado ao Verão e um tributo aos mistérios de outros tempos.

quarta-feira, julho 23, 2008

Ficções

"Do androids dream of electric sheep?" - esta a pergunta que serve de mote - e bem assim, de título - ao clássico da ficção científica escrito na década de sessenta do século passado, por Philip K. Dick.
Transposto para a Sétima Arte por Ridley Scott, com o nome de "Blade Runner - Perigo Iminente", o romance conta a história de Rick Deckard (Harrison Ford), um oficial da polícia de S. Francisco e caçador de prémios. O seu trabalho, "retirar" o maior número possível de andróides humanóides, em fuga dos mundos coloniais, não registados nas Companhias que os produzem, para uma Terra devastada pela Guerra Mundial de 1992.
E é precisamente pela demanda de Rick Deckard que nos vamos apercebendo de um dos elementos-chave do cenário cultural em que a trama se passa. Na sua actividade de "assassino licenciado e remunerado", tendo como alvo tais "imitações" da vida humana, Deckard anseia, pelo menos no início de tudo (no fim contenta-se com um batráquio artificial), ganhar dinheiro suficiente para comprar um animal vivo, verdadeiro - o símbolo genuíno de alto estatuto social e meio único para alcançar alguma felicidade num mundo à beira da extinção - sequela natural de um holocausto nuclear ainda a digerir por todos quantos cá ficaram. Deste modo, ao ganhar o prémio pela captura do primeiro dos Nexus-6 (último modelo de andróide) que com ele se vão inevitavelmente cruzando, Rick usa-o para a compra de uma cabra núbia - a digna sucessora do seu carneiro eléctrico que tem partilhado, nos últimos anos, o telhado do prédio onde reside com um poltro Percheron, verdadeiro, propriedade do seu vizinho. Contudo, tal aquisição - altamente dispendiosa de acordo com o catálogo da Sydney que Deckard traz sempre consigo - é logo deitada por terra, literalmente. Rachel Rosen, também uma Nexus-6, ao dar-se conta de que sempre ocupa o último lugar na escala de empatia pessoal do nosso herói, inconformada com isso mesmo, empurra a cabra de Deckard, prédio abaixo, matando-a, claro está.
Ora, foi a pensar nesta história, assim brevemente resumida - tendo acabado, recentemente, de ler o livro - que aqui há dias me deparei com este simpático e sorridente gnomo de cerâmica, no café onde costumo ir, cá na Sertã.
Ao subir as escadas que dão acesso à parte mais recatada do estabelecimento, esta sorridente personagem, lá está, "eléctrica" e dotada de um qualquer sensor de movimento, logo garbosamente assobia, em jeito de piropo, ao cliente que se assoma a uma mesa para tomar uma bica ou beber uma água.
E se o assobio pudesse fazer realmente lembrar um tropical papagaio, verdadeiro, certo seria que tal estado de coisas só traria dores de cabeça ao proprietário do estabelecimento. Senão vejamos: que proprietário de estabelecimento hoteleiro se arriscaria, nos dias que correm, a abrilhantar o seu espaço com um exemplar deste tipo de aves tão astutas? A resposta: nenhum. Na verdade, o mais provável seria a pronta autuação, pelas entidades fiscalizadoras da salubridade e do gosto, de tais prevaricadores das normas higiénicas ditas "vigentes".
Assim, aqui temos este "Gartenzwerg", que não suja, não diz asneiras - outro aspecto a ter em conta, dado que os papagaios gostam de imitar tudo o que ouvem (o que aqui seria sempre um embaraço, dado o uso abundante e corrente do vernáculo) - e sempre avisa sobre a entrada de mais um ou vários convivas, predispostos, com toda a certeza, a "fazer despesa".
Sempre se pode pensar que realmente o futuro, afinal, não podia ter resultado tão mais diferente do que o previsto e imaginado!... Ficções...

quinta-feira, julho 17, 2008

Verão I



Se o Ocean's ainda estivesse aberto e tivesse uma piscina no terraço, esta seria a banda sonora!

Um Vintage a dar sede de outros Verões, de outros tempos!

quarta-feira, julho 16, 2008

Da Ordem

A propósito desta carta, deixo aqui um comentário que me pareceu apropriado e se revela como a resposta serena de alguém que já não consegue ficar calado durante muito mais tempo:


"Causídico
Após a leitura atenta de todos estes comentários, apenas me arrisco a dar um testemunho pessoal, porque sempre aprendi a falar apenas daquilo que conheço. Fiz o Estágio de dois anos, com o melhor patrono que poderia ter tido, que me deu trabalho, me inspirou e orientou. Nunca me tratou com paternalismo ou demasiada supervisão, assim que viu a qualidade do meu trabalho - aquela que eu procurava em cada noite de directa, com muito mais prazer do que a estudar para os exames, a preparar, às vezes duas alegações de recurso para processos distintos. Uma das coisas de que mais me orgulho é ainda hoje o meu Ilustre Patrono (agora ex) dizer que pouco ou nada me corrigia, dado o meu zelo e perfeccionismo. Enquanto exerci aquele patrocínio, estatutariamente limitado, que o estágio me impunha por forma a completar os créditos que me levariam a estar apto para exame, dos casos que tive, cinco ao todo (a comarca é densamente povoada de muitos que ficarão agora a olhar para as paredes ou a jogar solitário no portátil), três deles consegui a absolvição para o meu constituinte e dois culminaram na desistência de queixa e em acordo. Eu compreendo que, para muitos, tal caso é uma excepção, não podendo de maneira nenhuma fazer jus para a defesa de uma certa regra diferente daquela que, precisamente, insistem que existe. Contudo, sempre me pergunto: acaso não estarão agora a pôr "a carroça à frente dos bois"? É que é precisamente neste arredamento de quem ainda está a aprender - sem, contudo, ser nenhum garoto da escola primária inconsciente por estádio cognitivo - que se instila a insegurança e se acaba por dar razão ao que, espanto, se começou por dizer. Com uma agravante: um estagiário que faça o exame a uma terça e à segunda ainda é uma sub-species, à quarta já é advogado e é colocado como oficioso na barra - suponhamos. Se passou todo o estágio embrulhado em livros e em consultazinhas, que segurança tem para logo ali, à quarta-feira, poder advogar? Nunca viu nada, nunca soube nada. Há aqui, quer-me parecer, uma ideia um pouco bacoca mas tão típica deste país: O canudo dá tudo! Como se fosse por osmose. É o mesmo que ter alguém que nunca percebeu de arte ou outra coisa qualquer, de repente ser investido em umas quaisquer vestes e ter o milagre da sabedoria, por força do que sempre contemplou. Para as más-defesas haverá sempre a possibilidade de queixa aos Conselhos de Deontologia. E mesmo do lado dos cidadãos, a igual possibilidade de recusarem o advogado que lhes for facultado. A questão é que também todos nós temos de estar informados sobre tais direitos. Perdesse o Senhor Bastonário algum tempo nesse trabalho e talvez não tivesse havido tanta polémica. Por fim uma última interrogação: Se mantivermos arredados os noviços de todas as iniciações, de todos os ensinamentos práticos, que raio de Ordem queremos para o futuro? Acaso pensa alguém que seremos sempre nós a existir e a por, lá está, ordem? É que ninguém é "gerado e não criado". E mesmo o Senhor Bastonário também se fez Advogado, como todos nós. De certo me espantaria se viesse agora dizer que já tinha nascido assim. Se calhar com Toga e tudo. Num país de milagres e aparições..."

sábado, julho 12, 2008

MemeMosaic

Em resposta ao meme da Mariana aqui está, salvo seja, a minha "obra-prima":



Os créditos:

1. Cava de Viriato - Viseu, 2. Servidos ?, 3. Untitled, 4. A trip to the market of colour, 5. Jeri Ryan, 6. Perrier Mineral Water, 7. McWay Falls at Julia Pfeiffer Burns State Park, Big Sur, 8. Lampreia de Ovos - 2007, 9. 64495_008, 10. Happy Panda Girl, 11. Beatsville USA12. É minha!


As regras para a criação do mosaico são simples:

Procurar no Flickr a resposta para cada uma das perguntas que se encontram em baixo;
escolher uma imagem, usando apenas a primeira páginas de resultados;
copiar e colar o endereço de cada imagem no Mosaic Maker, configurando as colunas para 4×3 ou 3×4.

As perguntas:

1.O seu primeiro nome?
2.Comida preferida?
3.Em que escola estudou?
4.Cor favorita?
5.A sua «celebrity crush»?
6.Bebida preferida?
7.Férias de sonho?
8.Sobremesa preferida?
9.Carreira de sonho?
10.O que mais ama na vida?
11.Uma palavra para se descrever?
12.Nome de utilizador do Flickr (se não aparecer nenhum resultado, usem um de outro site qualquer)?


Passo o desafio ao Paulo, ao Augusto e à Passiflora Maré.

quinta-feira, julho 10, 2008

Pipocas 3G

Afinal, o que parecia ser uma boa desculpa, na óptica do "faça você mesmo", para ter os telemóveis ligados dentro das salas de cinema, não passa de uma imaginativa campanha publicitária.

quarta-feira, julho 09, 2008

Filho da Pauta II


Julien Dore - Les Limites sélectionné dans People et TV
Hilariante e divertido! Uma agradável descoberta!

segunda-feira, julho 07, 2008

Puro Vintage III

O espaço era amplo e arejado. Ao final da tarde, era ali que homens de ar grave e solene, sofrido e solitário alguns, marcados por mais um dia de trabalho outros tantos, se reuniam ou simplesmente, à beira de uma mesa, se abandonavam.
Uma pastelaria, ou café, que podia não ser Catita, mas, certamente, muito portuguesa, porque "Lusa".
Também ali era o ponto de encontro de umas quantas senhoras viúvas - guardiãs da virtude - que ansiavam diariamente pelo seu chá de gorreana e as queijadas, de fabrico caseiro - consolo merecido, após a missa cantada na Sé.
As arcadas de basalto que formavam o tecto abobadado, davam o retoque final a este estabelecimento. Um local de outros cultos - o do convívio, das conversas, das notícias e estórias trocadas de boca em boca.
As últimas das touradas à corda e das festas; os "mexericos" e os pequenos escândalos passados por murmúrios ao ouvido, provocando, por vezes, expressões de um pesaroso, mas discreto transtorno e leves olhares de pio e sentido desgosto pelas perdições alheias assim acabadas de conhecer.
De olhar sério e atento, atrás do balcão principal, Manuel ia contemplando aquele desfilar da vida mundana, que se repetia todos os dias. O seu orgulho mais secreto: ser proprietário de um estabelecimento, onde certamente a liberdade encontrava o seu verdadeiro reduto nas mais pequenas coisas mundanas.
De facto, era certo e sabido que ali se podiam ler os jornais ingleses, trazidos pelos paquetes britânicos que ali atracavam na doca seca, para reparações ou escalas técnicas. A proximidade da base aérea, generosamente tomada de arrendamento pelo Tio Sam, também dava algum toque de cosmopolitismo ao quadro permanente de convivas.
E tinha sido precisamente numa das cantinas daquela estrutura militar que Manuel tinha comprado aquela peça imponente, a última palavra da técnica no que dizia respeito ao cálculo financeiro, versão rápida.
Com a forma de uma pirâmide rectângulo, de linhas direitas e austeras, revestimento prateado e ornamentado por complexos arabescos - quase ao estilo de uma qualquer "Smith & Weston" do velho Oeste - lá ia aquela registadora disparando o que se devia e a despesa "a pagar". O grave ruído das teclas numéricas, acompanhadas daquela outra de sinal "mais" - como convinha -, lá ditava a lista discriminada da "continha". O pequeno mostrador analógico, de algarismos brancos sobre fundo preto, registava e mostrava à saciedade, sem margem de dúvidas, a certeza que antevinha a qualquer desconto ou acordo para um pagamento ao final do mês da dívida acumulada - uma atenção apenas tida com os clientes "habituais e de confiança".
E, à hora do fecho, quando todos já tivessem ido para casa e as portas de vidro reforçado estivessem encerradas, o último ruído que se ouviria seria o da campaínha dessa máquina, marcando o termo de mais um dia de comércio, feito o balanço.
Quanto a Manuel, mais uma jornada de trabalho terminava, tendo a noção de que a vida de todos os que por ali tinham passado se tinha tornara mais leve e com redobrado entusiasmo. Essa, a sua maior fortuna pessoal, que não cabia em gaveta mecânica alguma.

A cumprir a promessa, satisfazendo o pedido de sub-lodo, um clássico contemporâneo também escrito à pena suave.

quinta-feira, junho 26, 2008

Diáspora, Pinheiros e Subúrbios

Ainda numa senda de saudável patriotismo, os últimos cartuchos pelo menos até a Pequim - onde quererei ver a nossa Vanessa Fernandes a sagrar-se campeã olímpica de triatlo e no primeiro lugar do pódio, ao som da "Portuguesa" -, não posso deixar de relatar a conversa que tive aqui há dias com a rapariga que todos os dias me costuma atender no café-cervejaria-quasi-taberna, em frente a minha casa.
Ao principiar, como sempre, pelo estado do tempo - pelo calor que agora, segundo se diz, não se aguenta, pela chuva que já não se suportava e pela mudança das estações que agora torna qualquer barómetro um instrumento estúpido e idiota de tanto andar à roda -, a conversa seguiu para o balanço que se impunha fazer sobre o sucesso da "Feira das Tradições e Actividades Económicas" deste ano e que, lá está, acabou anteontem.
Nesse registo, perguntei, porque pouco preocupado com o palmarés dos espectáculos anunciados(no Sábado, passei pelos Da Weasel sem prestar qualquer atenção e no Domingo falhei o Quim Barreiros, tendo estado na Sexta a jantar tardiamente, sem ver o grande Emanuel), perguntei, dizia, quem eram os artistas abrilhantadores do dia de final apoteótico de tal festa.
E digo apoteótico, porque até a Pirotécnica Oleirense - já campeã mundial em competições de fogos de artifício - tinha sido contratada para um grandioso espectáculo de luz, som e muitos foguetes.
A resposta da moça lá me confirmou a leve impressão com que eu tinha ficado ao passar por alguns dos cartazes espalhados pela Vila - os Irmãos Verdades (ou Verdade? - não sei e também não "googlei") estavam aí para espalhar os seus ritmos de Kizomba, por toda a zona do Pinhal, agora queimado, mas mesmo assim sob apertada vigilância do Corpo dos Bombeiros Voluntários local.
É que não fosse a Pirotécnica Oleirense ficar, vítima de algum infortúnio em forma de cana de foguete incandescente, sem a concessão excepcional por que deve ter lutado, de acordo com as disposições legais, para continuar a fazer o que sempre fez: pôr umas quantas centenas do bom povo de cabeça para o ar, esquecendo-se das agruras de um ano frio, cinzento e pardo.
Mas adiante. A rapariga soube logo tecer grandes elogios a essa dança, sabendo mesmo o nome do tema mais badalado e digno de top, o tal de "Yolanda". De resto, disse-me que tal género de dança não seria para todos os gostos, mas que, de todo o modo, era diferente das nossas.
Para não parecer muito inculto, até porque tenho em quem me é próximo um verdadeiro conhecedor (em crioulo, diz-se "pulo"), comecei a generalizar:
"Sim, de facto, o povo africano, nomeadamente os Cabo-Verdianos são bastante expressivos e bem ritmados. Já me contaram que há discotecas africanas em Lisboa que, em regime diurno, são escolas de danças africanas. Como sabe, há o Funáná, a Kizomba, o Kuduro... Essas coisas, não é? Não que façam muito o meu género". Porque realmente não fazem. Sou um "pé muito pesado" e já me basta detestar danças de salão.
Abanando a cabeça numa cordial concordância, quiçá mesmo um pouco a leste deste meu jeito perifrástico de expor inócuos e diplomáticos pontos de vista, quando não quero "dar muito nas vistas", porque desinteressado ou sem grande afinidade com os temas a tratar, disse-me:
"Sim, sim... E olhe, mesmo o meu marido gosta e dançamos muito. Prontos... É que sabe, ele também cresceu num meio propício a tais coisas, não é?"
"Cresceu em África, certamente, não foi?" - perguntei eu, no mesmo agravo que tal proposição da senhora tinha imprimido ao saber empírico de quem vive a experiência de uma vida e a sente, como deve ser.
Contudo, a resposta não poderia ter sido mais espontânea e mesmo assim insólita:
"Não, não. Ele é da Amadora" - respondeu-me ela.
Com um sorriso amarelo, apenas disse:
"Ah, pois...".
Realmente, por momentos, tinha-me esquecido que até mesmo os Irmãos Verdades gravam nalgum estúdio em Paço de Arcos ou assim.
Contudo, o melhor deste pequeno episódio, longe de qualquer ironia, sarcasmo espúrio, ou até mesmo snobismo, apenas me faz voltar ao título deste "post".
A Diáspora de quem se espalhou pelos quatro cantos do mundo e ao mundo deu outros quatro novos cantos, criou um tesouro cultural que foi e será sempre a nossa maior potencialidade.
A empatia que ainda hoje se vai sentindo, seja na sede de livros, pintura ou, lá está, de ritmos e música, faz com que, até, neste Pinhal Beirão, a Praia Fluvial se transforme nalgum areal, ali à beira do Atlântico e um pouco acima do Equador.
E já dizia o Saudoso Jorge Perestrelo: "Isto é do que o meu Povo gosta!" Seja onde for!
Apenas uma última pergunta: Acaso não seremos mais do que Portugal, Portugália?

sexta-feira, junho 20, 2008

Assim foi...

E assim foi... A Alemanha jogou melhor e ganhou. Mas valeu a pena, como sempre.
De qualquer modo, ser Português é saber sofrer e saber chorar, seja de Alegria ou de Tristeza.
Seremos sempre assim e isso ninguém nos tira.
Viva Portugal! Hoje e Sempre!

sexta-feira, junho 06, 2008

Sede de Vintage

Parafraseando, ainda que toscamente, Pessoa, sempre me aventuro a dizer:

Primeiro, sequiosos, depois, saciados.

E só de ver.

segunda-feira, junho 02, 2008

Menos ais...

Sou um adepto incondicional da Selecção Nacional.
Para mim, não importa que as vitórias que obtemos dentro das quatro linhas venham a substituir outras, mais precisas, que teimam em não aparecer. Ao menos estas, ninguém nos tira!
Para mim, as vitórias da Selecção vão representando aquele orgulho que vimos de perder em tudo o resto.
E mesmo que nos acusem de adormecer enlevados pelo ópio de coisa tão pretensamente espúria e inútil - porque não nos faz, de maneira nenhuma, "andar para a frente" -, eu digo que tal pouco importa.
É que, para todos os efeitos, são essas vitórias, esse percurso que nos habituámos a ver como vitorioso, de há quatro anos a esta parte, o que nos dá algum alento por alguns dias, ainda que breves.
Por outro lado, mesmo na hora das derrotas conhecidas, também soubemos sofrer tragicamente, com dor no peito e poucas palavras, já de si embargadas, num sentimento que é apenas nosso.
De qualquer modo, o mais importante de tudo reside precisamente no facto de talvez poder ser por aqui que comecemos a cumprir Portugal.
Porque o orgulho nunca fez mal e ser-se patriota é uma coisa até muito simples... Basta sentir e viver!

domingo, junho 01, 2008

Será um Blackberry?...


Pois é verdade, sim senhor! Mais importante do que ser um Dark Lord of the Sith, Darth Vader descobriu que caso não dê conta disso mesmo a todos os cibernautas, o Lado Negro da Força pouca importância terá nos dias de hoje, onde os telemóveis se assumem como um meio de comunicação e um verdadeiro vício.
Deste modo, é com muito prazer que anuncio esta minha descoberta: para todos os discípulos das artes do Sabre de Luz e da Força, Lord Vader está no Twitter, propondo-se a dar conta de todas as suas actividades de maior relevo.
A partir daqui, sempre o digo:
"May all of us, turn to the Dark Side of the Force!... Because, it's cool, actually!"

quarta-feira, maio 28, 2008

02

"I have no armour left. You've stripped it from me"

Com vagar e em tempo

Ao Sábado, Camilo gostava de almoçar como devia ser - com calma, com vagar e a ler o jornal desportivo. E todos os Sábados lá ia ao café "Tróia", num gesto irrepetido, que a erosão do hábito semanal de tantos anos lhe tinha acabado por imprimir.
As regras costumeiras estavam tão enraizadas, naquela gostosa cumplicidade que mantinha com Pessanha, o empregado de mesa, sempre bem-disposto e de resposta bem lembrada e artilhada - ainda que sem qualquer malícia -, que até as piadas trocadas eram, há muito, as mesmas.
"Ò Senhor Camilo, então hoje não está com pressa?" - perguntava o bom do Pessanha.
"Hoje não, meu rapaz" - respondia Camilo, no suspirar satisfeito de quem se sentia dono do tempo, porque em dia de descanso.
"Olhe, já pelo sim pelo não, eu hoje atrasei o relógio do patrão".
"Ai sim? Como é que o fizeste, meu rapaz?" - inquiria o velho Camilo.
"Então, como? Pus uma rolha no buraco da bacia!" - atirava-lhe Pessanha.

Uma vez mais, em traços de suavíssima pena.

terça-feira, maio 27, 2008

Pressa

De olhar nervoso, Camilo ia olhando para o helénico relógio que estava junto ao balcão de mármore do café "Tróia".E por cada pingo, por cada gota de água que via cair para o cristalino recipiente colocado por baixo daquela estranha bacia furada, agitava-se um pouco mais... Cada vez mais impaciente e exasperado.Da sua pequena mesa quadrada - também em tons de alabastro e com rebordos de madeira escura a condizer com a cadeira em couro tratado -, sorvendo o resto do digestivo brandy, Camilo persistia e aliterava:"Pssst! Pssst! Ò Pessanha, vamos lá! Faz-me a conta do almoço que já estou atrasado para o trabalho!".


Para uma pena suave.

Geek Review, Tour de Blog

A recuperar um conceito que encontrei aqui (este, um post entre muitos que a senhora bibliotecária intitula de, precisamente, "tour de blog") , venho, como não podia deixar de o fazer - por razões sobejamente conhecidas de quem me é próximo -, venho, dizia, dar conta de um achado em que tropecei numa sessão de login na blogosfera.
De facto, para um fã confesso da série de ficção científica "Battlestar Galactica" (desde os seus primórdios, logo ali, no início dos anos oitenta, finais de setenta) o blog que, por estes dias, é tido como digno de nota pela equipa deste nosso "bem-amado" servidor, revela-se como a excelente combinação dos ingredientes necessários à ficção científica, no sentido de se afirmar enquanto manifestação cultural séria e coerente; longe, pois, de qualquer juízo pejorativo e redutor que a possa remeter para uma "coisa-de-tótós".
The Sience of Battlestar Galactica propõe-se, assim, dar uma sólida visão mais "pop" (e naturalmente também "geek" com estilo, claro) - o que aqui está longe de ser algo de negativo - sobre variados temas científicos, que vêm servindo de base aos episódios da nova série épica.
As próprias estórias que ali se contam, servem aqui de mote para umas quantas glosas sobre astronomia, biologia, química, física, etc.
Na minha opinião, "a very nice treat", ficando aqui a deixa: "Some believe that Science began here..."

domingo, maio 25, 2008

"Portugal, Twelve Points, Le Portugal, Douze Points"

Durante anos e anos, seria esta a frase que eu queria ouvir de um modo muito mais repetido do que alguma vez realmente o foi. De facto, era num misto de orgulho e de esperança, quase futebolística - a qual, por estes tempos de uns aquilinos vôos mais "rasantes" me tem vindo a ajudar a aguentar o despautério em tons de encarnado - que, todos os anos, eu alimentava esse sonho de ver Portugal a vencer o Festival da Eurovisão.
"Este ano é que é! A canção é excelente!" - o pensamento que anualmente ia fervendo em renovado nervoso miudinho até à noite de Sábado, de um Maio que se queria Primaveril, anunciando a chegada do tempo quente.
Contudo, como a história cruamente o confirma, nunca vi tal "alegria" concretizada.
De qualquer modo, é com saudade que lembro os tempos em que o País parava para se reunir em frente à televisão e assistir, no mesmo registo de expectativa, a esse evento da música ligeira europeia, algumas famílias até arriscando-se a dar as suas próprias pontuações, nessa famosa escala de 1 a 12, não havendo setes, nem noves, nem onzes.
Noruega, Bélgica, Itália, Suécia e Irlanda (esta última, com uma dinâmica de vitória incessante até 1995 e recuperada no ano seguinte), alguns dos países que sempre vimos a vencer, somando e seguindo na contagem dos pontos atribuídos pelos júris de cada estado-membro da U.E.R (a União Europeia de Radiodifusão), e dispostos num sempre colorido quadro de bandeiras, que aparecia na segunda parte do programa. Na verdade, posso até dizer que comecei a identificar os países europeus e do Mediterrâneo, de acordo com as suas cores, graças ao Festival da Eurovisão.
Uns dizem que é "kitsch", outros que é o puro "pop" do Velho Continente (onde ficam, pois, os ABBA?). Para mim, naquilo que me interessa, o Festival da Eurovisão é algo de mais subjectivo - a minha primeira tomada de consciência de um imaginário nacional que sempre quis ser maior, que sempre buscou o reconhecimento das outras culturas ditas "mais esclarecidas", a suspirar de conformismo por continuamente perder até "a feijões". E curiosamente, nunca deixei de encontrar correspondência disso mesmo em alguns temas que levámos a tais paragens de palcos maiores. "Conquistador" dos Da Vinci, "Lusitana Paixão" da Dulce Pontes ou até mesmo "O Meu Coração não tem Cor", da Lúcia Moniz - até hoje, a nossa melhor prestação -, são exemplos de como sempre insistimos em mostrar o nosso saudosismo por tempos de abundância e pretenso poder.
Por sua vez, temas como "Amor de Água Fresca" (Dina, Malmöe, 1992) ou aquela do "Quando Cai a Noite na Cidade" (Anabela, Irlanda, 1993), deram uma certa cor ao nosso contributo pátrio.
De outro lado, ainda guardo grande ressentimento por alguns intérpretes e autores nacionais que marcaram a sua presença no Eurofestival com canções paupérrimas - Nevada ("Neste Barco à Vela"), uns tipos madeirenses, Tó Cruz ("Baunilha e Chocolate") ou até mesmo Célia Lawson ("Antes do Adeus" - uma triste "colagem, que terminou com zero pontos!), nem tentem aparecer-me à frente!
De qualquer modo, outros tempos vieram, mercê das vontades que se mudaram, mercê do xadrez que se inverteu, e não deixa de ser curioso notar o seguinte: hoje em dia, são os antigos países do Leste Europeu que dão cartas em tal espectáculo. Ainda este Sábado, foi a Rússia que venceu na Sérvia e que agora tem a responsabilidade de, no próximo ano, organizar as duas semi-finais e a finalíssima de um modelo que retirou a uns quantos "entendidos" o poder de eleição da melhor música - por muito que possa custar ao senhor Eládio Clímaco ou até mesmo à Senhora Isabel Bahia (a prata da casa da RTP para estas andanças).
Mesmo assim, mais curioso de notar é ainda o facto de Portugal ter passado por tal mudança de hegemonia, igual a si próprio - um perdedor com umas quantas vitórias morais e sempre a dizer, pela boca dos derrotados, que "sai de cabeça erguida"... talvez como a Selecção.
Enfim, pode ser que seja para o ano! Pode ser que, para o ano, o que mais se ouça seja: "Portugal, Twelve Points, Le Portugal, Douze Points.
PS: Em abono do orgulho nacional, é conveniente dizer que, após quatro anos de derrotas humilhantes, passámos, este ano em Belgrado, à finalíssima onde até acabámos em 13º lugar (num total de vinte e cinco participantes), com 69 (sessenta e nove) pontos... Não está nada mal, Vânia Fernandes!...
Também isto é história e memória escritas à pena suave.