quinta-feira, março 04, 2010

Momentos

(Folhetim semanal. Com este número do blogue de hoje e por apenas mais cinquenta cêntimos de paciência, os capítulos 1 e 2)

#1 "Bom dia, são agora sete horas da manhã, está na nossa companhia" - ouvia-se no rádio-despertador. A voz do locutor em altos berros, acompanhada pelo hit do top dessa semana, não queria dar mais espaço a quaisquer sonhos que pudessem ainda habitar debaixo da almofada, por onde João tentava pedir asilo político contra mais um dia que o esperava. A custo, João levantou-se, abriu a porta do quarto e atravessou o pequeno hall da suite, em direcção à casa de banho. Inclinando-se para o lavatório, abriu a torneira da água fria, depois um pouco a da quente e mergulhou as mãos na corrente amena, molhando de seguida a cara. Já mais desperto, olhou-se ao espelho e decidiu fazer a barba. Nunca deixava de se espantar com o facto curioso de lhe parecer que a sua barba estava sempre consideravelmente maior depois de uma noite de valentes copos. Talvez fosse da ressaca... A percepção das coisas saía modificada quando a recordação da noite anterior era ténue e, por isso mesmo, angustiante, obrigando-o a enfrentar um mundo muito mais real do que aquele a que se tinha entregado. Tudo era muito mais feio, mais cruel, mais ingrato. Na verdade, as inibições voltavam sempre e o que parecia ter sido uma saída elegante, uma gloriosa aventura, uma noite intensa de bem-estar perpétuo e a definição de uma nova pessoa - um rei da noite, um sultão em terreno conhecido, uma estrela de cinema em potência, quiçá - não eram agora mais do que a estúpida certeza de que voltava a estar consigo próprio - uma figura grotesca, a cicatriz dos excessos ali bem exposta. Para não falar da dor de cabeça e da náusea constante que o impelia a vomitar, por cada vez que virava a cara para o lado para passar com a lâmina por uma zona mais difícil de cortar. Voltando a mergulhar a cabeça na água, agora mais fria, tentava recordar-se do impossível. De tudo quanto tinha acontecido. Lembrava-se de uma vodcka pedida por entre uma multidão que expelia um suor perfumado - os preparativos de milhares, para uma noite que acontecia e que nela estavam ali a ser gastos, desvanecendo-se e reduzindo todos a uma igualdade espúria -, um encontrão de um segurança mal-encarado que talvez lhe tenha dito para "andar mais direito", uma cara feminina - da menina do bar - falsamente sorridente, que lhe conduzia a mão ao copo e ao cartão... Um táxi bafiento... O portão de entrada do prédio que insistia em ondular à vista. Pelo menos, não tinha havido nenhuma zaragata... Não foi vítima de nenhum assalto. Sete e quarenta e cinco. Tinha que se despachar mais depressa. A cabeça latejava-lhe nas têmporas e cada movimento que fazia, ao vestir a camisa branca ou as calças de xadrez, preto e branco, apenas lhe lembrava que devia voltar para aquela cama que ali estava, meio desfeita, terrível tentação de "apenas mais uns minutos" de descanso. "Tu estás velho, pá. Já devias saber que este tipo de coisas não são para a tua idade, caralho!" - a auto-recriminação parecia tão certa nestas alturas e, no entanto, estava sempre a cair nos mesmos enganos. "E vê lá tu, pá, se tinhas necessidade de acordares assim logo hoje... Logo hoje que tens coisas novas a chegar"... "Pareces um puto irresponsável" - e esta constatação talvez fosse aquela com que lhe custava mais lidar. Porque o que mais lhe apetecia, no contexto de dilemas tão básicos - os únicos permitidos por uma performance intelectual ainda diminuta àquelas horas e depois do fatídico serão - era, realmente, ser um puto irresponsável. Enquanto aquecia um café na cafeteira eléctrica que Paula - a antiga namorada - lhe tinha oferecido no seu último aniversário, procurava freneticamente as chaves de casa, do carro e da galeria, na banca central da cozinha que se encontrava cheia de postais, cartas, contas para pagar, pratos sujos, copos de vinho a meio - tudo fazendo parte de um cenário de horror de um fim-de-semana sem empregada e absolutamente diletante. "A dona Josefa disse que vinha hoje à tarde... Ainda bem!" - pensou, aliviado. Já a sair porta fora, o seu telemóvel tocou. "Estou? És tu Mané?" - atendeu. Do outro lado, uma voz agitada respondeu-lhe: "Ò João, pá! Mas o que é que tu andas a fazer, meu palerma? Onde é que tu estás, pá?" Meio atrapalhado, João disse: "Eh pá! É só mais meia hora e estou aí, ok?" "Tu já devias cá estar, foda-se! Andas a brincar com isto, andas, andas" - o sócio de João, por vezes, parecia pai dele. Não suportando a crítica, João desligou abruptamente o telemóvel e entrou no elevador. Em direcção à cave, a garagem do prédio, recapitulou as suas tarefas para o dia de hoje. A encomenda chegava dentro de uma hora. Às onze da manhã, tinha a reunião com o agente do expositor, ao meio-dia encontrava-se com os publicitários para dar as indicações para o catálogo e logo depois começaria a pendurar as peças. À tarde, era abrir as portas antes das três. A festa oficial seria apenas dali a três dias e ainda tinha que falar para a empresa do catering. "Que cena. Bem que podia ser eu o fotógrafo". - pensou João com algum ressentimento. De facto, desde os seus tempos da faculdade que se interessava por design, música, roupa e tudo aquilo que, segundo a sua percepção, eram os componentes essenciais de um estilo de vida pop, sempre jovem, sempre na moda, enfim, sofisticado. Contudo, como não tivesse nenhum dom especial para nenhuma das áreas assim definidas, João tomou outra opção. Ficar a olhar... Ao invés de estar do lado da criação, estava do lado de quem vendia e fazia dinheiro com a criação dos outros. Posto isto, realmente a única coisa que lhe restaria era ficar ali, captando momentos atrás de momentos. O negócio, que tinha aberto com o Mané, seu companheiro de quarto durante o curso de História, traduzia-se nos oitocentos metros quadrados de uma ampla loja na baixa, com paredes brancas e banais expositores que, quando vazios, lhe davam a sensação de apenas estar de guarda ao vácuo. Uma galeria, afinal, devia ser mesmo isso, um espaço em branco para que outras estórias, as únicas que existiam, pudessem ser contadas, desfrutadas e, sim, vendidas. Ligando a chave do carro, carregou no botão do auto-rádio e tentou apanhar a estação das notícias. Desde que lhe tinham roubado a antena a única coisa que apanhava era estática. Premindo o botão do CD, começou a ouvir os primeiros acordes de sintetizador da música de dança que o tinha acompanhado na noite anterior. Não estava a ter o mesmo efeito que na noite anterior, fosse lá ele saber - como sabia - porquê. De caminho em direcção à baixa da cidade, entre lentas filas de trânsito, foi aproveitando para fazer alguns telefonemas para os tipos do catering e convidados de última hora que ainda não tinham confirmado presença na festa de lançamento da nova exposição. Tudo certo. Já não era mau, para o começo de um dia que deveria ser muito longo. Ao chegar à galeria, Mané, um sujeito de trinta e cinco anos, gordo, cabelo preto e farta barba veio ter com ele à porta e, sem grandes cumprimentos, disse: "Já adiantei algumas coisas, mas precisava de ter algumas indicações tuas". "O gajo já chegou?" - perguntou João, referindo-se ao agente do artista. "Estava a tentar arranjar lugar para o carro, há cinco minutos" - respondeu Mané. "Bom, então, aguardamos para vermos o que ele tem para nos mostrar. Tenho algumas ideias sobre a maneira como devemos dispor as fotografias, mas não quero que esse gajo comece a fazer ondas" - disse João de olhar franzido. A dor de cabeça parecia querer dar tréguas, mas não era garantido que assim fosse. "Porra, João, tens de ter mais cuidado contigo, homem. Ainda por cima andas a sair à noite e não me convidas" - queixou-se Mané, meio a brincar, meio a falar a sério. "Tens razão. Mas olha que a noite não valeu de nada. Não se vê ninguém. Poucas gajas. Por isso não andas a perder grande cena". "Tu esperas mesmo que, numa noite de semana, alguém saia de casa? Só estou a ver alguns otários capazes disso e, mesmo assim, ter esperança de encontrar alguma coisa" - contrapôs o sócio, com uma daquelas gargalhadas tão anafadas como ele e que só o próprio sabia entoar. João lamentou-se: "Sabes, pá, começo realmente a achar que esta porra de vida não vai dar a lado nenhum. O tempo passa e é sempre a mesma cena. 'Cum camandro, pá!" De testa meio franzida, Mané respondeu: "Tu toma tininho, homem! Toma tininho e leva as coisas com calma. É como te digo, tens que ter juízo". Para o sócio de João, este era o ritual de sempre... Para ele, João era uma pessoa que parecia ter parado no tempo... que não tinha crescido e que ainda se julgava nos tempos de estudante. Isso não fazia dele má pessoa e também não era nada que o saturasse. A amizade deles era daquelas bem sólidas, feita de muitas cumplicidades e de grandes aventuras vividas juntos. João haveria de ver a sua vez chegar. Assentar com alguém e ter uma vida igual à sua e de todas as outras pessoas que, a certa altura, ao envelhecer, vêem que ser jovem para sempre, para além de ser uma maçada e uma utopia impraticável, é uma excelente moeda de troca relativamente a uma vida estável, com dinheiro ao final do mês e uma família decente. E no meio destas suas reflexões, julgou ser este um momento tão bom como outro para lhe dizer: "João, tu lembras-te daquela proposta que me fizeram para Barcelona?" "Lembro. O que é que tem?" - perguntou-lhe João, enquanto folheava descontraidamente as guias da encomenda. "Pá... Aceitei. A Teresa já começou à procura de casa e mudamo-nos para o mês que vem.". Ao olhar para João, Mané começou a perceber que talvez esta não tivesse sido a melhor altura para contar a João as novidades. "Mas ò Mané... Dizes-me isso assim? Dessa maneira?" - João parecia incrédulo. "Como é que tu querias que eu dissesse?" - Mané estava agora atrapalhado. "Foda-se! Então sempre vais? E a galeria, pá? Como é que tu achas que me vou virar sozinho???" "A minha parte, tal como está na escritura, passa para ti. Já está tudo assinado. Faltas apenas tu. O registo pode ser feito imediatamente." - Mané disse rapidamente. "Não sei o que te diga, Mané" - João sentia-se meio desfeito. "Desejas-me sorte". "Mas tu? Como professor?" - João tentava rir-se. "O que é que tem" - Mané tentava agora aliviar o ambiente, pantominando uma pose séria, a condizer com a de mestre de uma qualquer disciplina importante. "Ok, ok... Estou a ver. Vou sentir a tua falta." - o desabafo de João era sincero. "E eu a tua, João." Trocavam um olhar de sincera perda, quando, à porta assumou um sujeito banal de óculos escuros redondos. Vestindo um fato dois tamanhos acima da sua minúscula estatura, uma gravata que parecia maior que a sua cabeça de alfinete, cumprimentou ambos com um nervoso aperto de mão. Vitor Castanheira, agente do fotógrafo Jacinto Lopes, ou JL, como, confidenciou, o artista gostava de ser chamado. Após algumas piadas veladas sobre tal pedantismo, que de excêntrico não tinha nada, João e Mané fizeram uma pequena introdução sobre o espaço - de tão imenso que era e vazio que estava, a introdução realmente só podia ser pequena - e recapitularam as condições, as cláusulas e as comissões. O Castanheira parecia concordar com tudo... O artista ainda era jovem e precisava de projecção. Nada de especial. A galeria orgulhava-se de ter lançado, no ano anterior, dois novos nomes "emergentes no panorama artístico nacional" e era agora uma referência em vários roteiros turísticos da cidade. Bons clientes que eram sinónimo de boas compras, como garantiram, davam ao agente do JL, o descanso que buscava nessa luta pelos interesses do seu representado. Já passava da uma da tarde - e já após terem mandado os publicitários pela porta fora, a fim de refazerem todo o catálogo, insistindo que o mesmo precisava de "mais cor... esse esquema é coisa de meninos da quarte classe, pá" -, quando a última fotografia foi pendurada. Intitulada #Semblante, revelada em papel de arroz, em tons de preto e branco de uma nitidez aveludada e com a saturação ideal, bem como exposição e luz, representava um sorriso feminino, apenas se vendo a metade de uma cara jovem, fresca e com uns lábios irrequietos. João ainda pensou, sem olhar muito bem para o obra, "olha mais um com a mania que é o Vermeer da objectiva digital". Contudo, vista ao pormenor, aquela metade de olhar começou a intrigar João. Não havia indicação de quem era a modelo, embora parecesse ser alguém com vinte e tal anos. Também não tinha data. Mas não era propriamente esta falta de informação que o inquietava. Era a forma como aquele "semblante" se lhe impunha aos sentidos... Era como se já se tivesse cruzado com aquela pessoa, sendo a mesma várias pessoas, outras pessoas. Não comentou nada com Mané, que estava entretido a enviar mails para a namorada. Ainda lhe disse para irem almoçar ao café, mas Mané recusou. João saiu para a rua e... e, de súbito, parecia estar ainda a alucinar com os eflúvios do álcool consumido na noite anterior. Uma breve tontura tinha-se seguido à visão que teve, qual instantâneo. Ao longe, de perfil, uns cabelos pretos pareciam ocultar um rosto que ia jurar ser o mesmo da fotografia que tinha visto. Ao tentar clarear a vista, perdeu-lhe o rasto, após a passagem de um automóvel que tinha retomado a sua marcha, ao sinal verde do semáforo. Acto contínuo, teve o estranho pressentimento de que este seria um primeiro momento de outros tantos que aí viriam e que lhe mudariam a vida. Talvez estivesse numa de acreditar em partidas desse cliché chamado "destino". #2 "Boas tardes, senhor João, tudo bem consigo?" - perguntava Pessanha enquanto João puxava a cadeira de madeira escura para se sentar na mesa de mármore do costume, ali na cervejaria "Camilo com Pimenta, Lda. – Bifes, mariscos, cervejas várias, águas finas", do outro lado da rua da galeria. "Vai-se andando, Pessanha, vai-se andando" - respondeu João, enquanto sentia a dor de cabeça a instalar-se ainda com mais intensidade nas têmporas, fruto de se ter sentado muito depressa no assento de couro duro e rígido. "O que é que tens aí hoje que se coma?" - atalhou, impedindo que Pessanha começasse a discorrer sobre o rescaldo da futebolística noite europeia - algo que João apenas consentia, respondendo com lugares-comuns, em dias mais leves e por mera simpatia. Pessanha pareceu ter percebido que hoje o senhor João não estava com disposição para discutir o derby da Liga dos Campeões, respondendo prontamente com o seu forçado estilo de profissional: "Há uma salada de polvo fresquinha feita mesmo há pouco". O estômago de João protestou, vigoroso, perante tamanho despautério. Uma vez mais, Pessanha adiantou-se: "Mas se quiser outra coisa mais leve, manda-se vir o bife grelhado do costume, senhor João". "Olha, pode ser. E já agora traz-me uma água com gás fresca e o jornal de hoje, se fazes favor" - pediu João. Arriscando, Pessanha lançou a piada, ainda que a medo: "Noite difícil, senhor João?". João apenas sorriu e disse: "Oh pá. Nem me digas nada... nem me digas nada". Com isto o empregado, feliz com a pretensa cumplicidade que pensava ter criado com este cliente fiel, foi até ao balcão, gritando lá para dentro, com ares de superior hierárquico - consciente da sua posição na pirâmide profissional «do ramo da hotelaria» - o pedido feito por João. A água estava mesmo fresca. Os pequenos flocos de água gaseificada, congelada na garrafa que era guardada na arca frigorífica glaciar, derretiam-se-lhe na boca, quais pedaços de neve. Realmente, não havia ainda melhor remédio para a ressaca do que uma água mineral com gás, bem fresca. Pelo menos para ele que se achava, mais um cliché, um amante de coisas simples. E foi no meio destas suas lucubrações muito básicas, ao alcance das possibilidades deste "dia seguinte", que João notou na pessoa que entrava. Um sujeito que costumava também ir à cervejaria mas completamente desconhecido para si. Não gostava do homem, ou, pelo menos da sua figura. Sempre de blusão azul de tecido, camisa às riscas, gravata a condizer, calças de ganga e sapatos de pala, com berloque. Curiosamente não seria tal trajar, susceptível de ferir a sensibilidade de um qualquer consultor snob de moda, aquilo que lhe provocava irritação. Era, outrossim, aquele bigodinho escorreito, estreitinho, que encontrava enquadramento nuns óculos, com fundo de garrafa e demasiado redondos. Era a imagem mais odiada de João, porque de bafiento funcionário público, burocrata improdutivo. Ainda por cima, tinha o péssimo hábito de, acabada a refeição - uma sandes de queijo e um copo de vinho - palitar os dentes com a unha do dedo mindinho com uma alegria quase fetichista. João deixou-se mergulhar nos artigos de opinião da última página do jornal, como que decidindo abstrair-se daquela imagem tão gratuitamente grotesca. Pouco tempo depois chegava o seu bife grelhado com arroz branco e uma rodela de limão. Para beber pediu outra água com gás, mas "desta vez, natural, está bem? A outra estava muito gelada, pá!... Pois, Pessanha, eu sei que é a arca... Tá... Não faz mal... Obrigado". Continuava a pensar no seu avistamento desta manhã. Coincidência? Associação forçada de imagens? Sim. Seria o mais provável. "A bebida, realmente, anda-me a fazer mal, caraças" - protestou para si mesmo. Mas lá que aquele rosto o intrigava, lá isso era verdade. "Vou perguntar ao tal JL, quem é a modelo" - decidiu. Não tornou ao assunto, preferindo pensar, enquanto acendia um cigarro, no trabalho que o esperava na loja. “

Por Alexandre Villas-Diogo.

terça-feira, março 02, 2010

Instante

Um instante de breve despedida... até ao regresso, sempre desejado.

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

Absolutamente sublime, genial, único. Esta senhora é mesmo um "monstro", porque Diva.

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

I've been thinking















The undefined moment of procrastination shows itself on those not so much wanted ocasions, when a guy gets more concerned about the shape of his handwriting and the sweet touch of the ink on plain paper rather than actually writing something meaningfull and defining.

By ViriatoFCastro :)
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quarta-feira, janeiro 27, 2010

O Clubinho #2 ou "Low Cost on Ethics, a Brief Approach"

A primeira vez que andei de avião - confesso-o sem qualquer traço de vergonha pelo pecado contra a sacrossanta ordem da futilidade -, foi aos dezassete anos. Destino: Estrasburgo, França, pela Air Liberté, uma companhia que não sei ao certo se ainda existe. O propósito de tal viagem era uma visita ao Parlamento Europeu, prémio máximo do Programa Euroscola '96.

Num tempo ainda bem longe do 11 de Setembro e de todas preocupações securitárias de agora, essa primeira viagem de avião foi como a de um petiz que entra pela primeira vez num centro comercial ou numa simples loja de doces.

Digo-o com franqueza. Tudo era novo, tudo era motivo de interesse.

Havia champagne à discrição, almoços completos - a bela da comida pré-cozinhada e ali aquecida -, café instantâneo, água quente para chá em pequenas embalagens de plástico, talheres de metal e até copos de vidro com o símbolo da companhia.

A simpatia das hospedeiras e dos ainda comissários de bordo apenas projectavam para uma escala maior aquele sentimento de pertença a um grupo que, até então, me tinha habituado a ver como restrito - o grupo das pessoas que viajavam mais longe do que até ao Algarve, ou pelo país, o grupo das pessoas que iam até ao "estrangeiro".

Tanto a viagem de ida, como a de regresso, foram experiências afortunadas e recordo-as com saudade. Para mais porque, pela primeira vez, pude disfrutar das lojas duty-free dos aeroportos onde permaneci algumas horas, conhecer os procedimentos de check-in e saber o que era um press centre, com aqueles jornais de que eu só ouvia falar: Finantial Times, The Herald, The Daily Telegraph, Le Monde. Nessa idade apenas assinava a TIME, que me chegava até casa pelo correio. No fim de tudo, como já disse, senti-me Feliz.

Era mais uma experiência - há muito tempo aguardada - que tinha vivido.

Após ter ido, no ano seguinte, a Paris, já por estrada, comendo quilómetros atrás de quilómetros, foi só em 2005 que, pela primeira vez, voei com a TAP, desta vez para Bruxelas. E também foi a primeira vez que tive contacto com o provincianismo de que tinha sempre ouvido falar relativamente à companhia nacional.

De facto, ainda em '93, numa capa da Revista Vida #3 do Independente aparecia uma velha fotografia de um dos voos inaugurais da transportadora aérea nacional, em que uma garbosa hospedeira assomava à porta de um avião metalizado. O artigo, com uma perspectiva mais lúdica, procurava dar uma perspectiva histórica da empresa e estava relacionado com o noticiado período de turbulência que então se vivia entre pessoal de terra e administração, tendo sido os pilotos, segundo o que me recordo, a deitar por terra as esperanças depositadas numa greve por aqueles primeiros anunciada.

A impressão com que nessa altura fiquei foi a de sempre. A TAP era um mundo à parte, apenas ao alcance de pessoas, por exemplo tios e primos meus, com dinheiro suficiente para partir à descoberta de outros destinos e de outros mundos. Se viajar de avião era um privilégio um tanto ou quanto difícil de conseguir, trabalhar, fosse no aeroporto, fosse nos aviões, dava uma aura de respeitabilidade e de sucesso na vida que era difícil de igualar.

Ou seja, persistia, para mim, um certo salazarismo em tal estado de coisas: isto é só para alguns e não para qualquer um. E se quisermos ser francos, o preço proibitivo das passagens, que ainda hoje se mantém, procedia a esse fraccionamento do mercado no espaço.

Consequentemente, comecei a notar esse contangiante elitismo nas caras que fui vendo ao entrar para o avião, em 2005, numa quente tarde de Junho. Principalmente nas hospedeiras. Não sei se alguém já reparou, mas as hospedeiras da TAP ainda se vestem numa linha muito ao estilo dos anos cinquenta, quando se pedia das senhoras serem mais do que empregadas de mesa, ainda que no ar. E foi uma delas que, não me conhecendo de lado nenhum, suspirou de enfado, ao estender-me o tabuleiro do café e ao ter visto que eu me atrevia a tirar uma embalagem de leite para lhe juntar. Penso sinceramente que deve ter concluído ser eu algum pacóvio que andava de avião pela primeira vez.

Tal snobismo bacoco apenas foi superado por aquela que parecia a matrona delas todas e que venho a constatar ser uma presença constante em qualquer vôo - tipo alien-rainha ou abelha mestra. Os seus traços notam-se ao longe: é mais velha que as outras, mais feia, azeda q.b., anda de luvas pretas e olha para os passageiros num semblante selectivo, tirando as conclusões necessárias a um tratamento diferenciado entre repetentes e candidatos a baptismo de voo.

Ora, tomado este estado de coisas e a minha opinião pessoal relativamente às pessoas com quem, agora um pouco mais frequentemente, costumo ter contacto nas cabines dos aviões, esta história recente, de determinados pilotos terem trazido para o Facebook a sua indignação por se verem forçados a partilhar o seu espaço nas nuvens com povinho que até pode muito bem estar num avião pela primeira vez, em nada me surpreende. O "Clubinho" é, acima de tudo deles.

A hierarquia está definida: Pessoal de Terra ----> Pessoal de Bordo ----> Pilotos - os supra-sumo. Não quero com isto negar que, realmente, ter apetência para os comandos de uma máquina voadora dá um certo estatuto, indiscutível, de elite.

Contudo, é sabido que o melhor sinal de nobreza de um espírito maior é a humildade.

Em minha opinião, nunca ninguém se deve deslumbrar muito consigo próprio, porque, para lá de qualquer imperativo moral - nos quais tenho pouca confiança -, é, simplesmente piroso! Deste modo, pergunto-me agora se, por castigo ou coincidência, este tal curso de ética valerá de alguma coisa para estas pessoas. Estou inclinado a responder que não.

A ética que não se tem no berço, não se adquire por certificado. E do que aqui se trata, parece-me, é de uma questão de educação, de polimento, de noção do ridículo e do socialmente aceitável que apenas se cultiva dentro de um ambiente imune aos interesses que, entretanto, foram promovidos pela própria TAP, numa abordagem de elitismo tout court e dissociante do resto da comunidade, a começar pelos próprios clientes (que não são mais que isso).

A melhor prova disso mesmo está aí, nesse jeito impertigado de protestar contra um "downgrade" na classe.

Os privilégios na aviação estão a acabar para o comum das pessoas. A democratização das viagens aéreas é um caminho que começa a ser trilhado e o boom das low-cost é algo que não pode ser parado e ainda bem.

Por tudo, deixo apenas um conselho,

Senhores Pilotos, hospedeiras, demais pessoal, não tornem a vida mais difícil à Joaninha voadora portuguesa porque, com tanto privilégio caduco a ser reivindicado, qualquer dia nem em Lisboa ela aterra e ainda acabam, como o povinho, na Easy Jet ou Ryan Air... E vão ver que não vos faz mal nenhum;

E um apelo,

Acabem-se os clubinhos, pois eles são parolos ao máximo! E chateiam...

quinta-feira, janeiro 14, 2010

Nuvem, palavras, Termos, Conceitos, ideias, (...), , net, COISAS, sande de leitão

A moda parece que começa a pegar. Depois de se ter reinventado o termo "comentador", ou o seu congénere estrangeiro "opinion maker", nesse suposto repositório de sabedoria que é o "politólogo" - a pressupor uma etiqueta de ciência académica com direito a formação equivalente em instituição de ensino superior -, a última palavra em "inovação", na análise do discurso político, passa pelo "conta-palavras".


"Conta-palavras" é o termo mais simples que encontro para, realmente, poder descodificar algo que apenas é cosmeticamente complexo. Basicamente, pega-se num discurso político, vê-se quantas vezes as mesmas palavras são usadas e daí tiram-se as conclusões mais estapafúrdias que se possam imaginar. Sinais de mudança na abordagem aos temas que estão na agenda, decisões escondidas nas subtilezas do vocábulo usado - apenas ligado ao contexto concreto, na medida em que isso sirva para sustentar as conclusões pessoais de quem assim comenta -, e até mesmo, quiçá, declarações de amor ao iphone.


No final, mercê da oferta gráfica que todos os recursos cibernéticos proporcionam, faz-se uma grande nuvem de palavras e chama-se-lhe "análise semântica" ou outra coisa do género.


Levada ao extremo, tal análise semântica até nos poderá dar respostas acerca do que é que a pessoa que discursa está a pensar em fazer para o seu jantar.


Contudo, a par de tanta sofisticação, esta estrutura de produção do comentário político pode esconder em si, ainda que não de modo consciente, um efeito secundário pernicioso.


É que, lembrando-me mais uma vez do Orwelliano 1984 - ou será 2010? -, este tipo de novilíngua tem, na sua raiz fenomenológica, o potencial de contribuir para a simplificação do espírito crítico do receptor da mensagem.


Numa lógica supostamente dedutiva e em última análise, poderemos até vir a funcionar apenas nos seguintes moldes exemplificativos: europa ---> união europeia -----> tratado de lisboa -----> progresso ----> governo ----> este governo ----> bom ----> excelente ----> estabilidade -----> continuar ----> permanência -----> não saímos -----> continuamos no poder -----> ad aeternum.


Fácil, não é?

quinta-feira, dezembro 24, 2009



Para agitar, antes de abrir... mas só um bocadinho que é #Natal!

segunda-feira, novembro 23, 2009

Stealing a space for a time which isn’t anymore #1

terça-feira, novembro 10, 2009

Gira-Discos



Não há palavras... É de cair para o lado em êxtase

terça-feira, novembro 03, 2009

As horas...


 


Tenho uma confissão a fazer. Nos meus tempos de estudante, passei apenas a sintonizar a Rádio Universidade de Coimbra, lá para o meu segundo terceiro ano. E era um ouvinte esporádico, preferindo os discos compactos, compilações em jeito de banda sonora para aguentar o queimar de pestana.


Nos primeiros anos, a telefonia "rádio-despertador" servia mais para ouvir relatos de bola ou então para amanheceres tardios, marcados por um alto volume fanhoso que saía da única coluna.


Contudo, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades e aparecem novos gostos. Na verdade, lembro-me bem, foi durante uma dessas sessões de estudo, à volta do direito dos conflitos - conceitos-quadro e reenvio - que, ouvindo a Rádio Comercial, me dei conta de um programa que, nesse final de ano de 2001, lá passava, a partir da uma da manhã, até às três - "A hora do Lobo" de António Sérgio.


Tal como ele resumia, era um programa dedicado "ao pensar alternativo", fora da mainstream, com "unicórnios e ciborgues" - uma crónica em voz feminina, fantasias urbanas e textos de vanguarda - e repleto de música com conceito - algo que se poderá resumir ao label do indie, mesmo sem passar muito tempo a saber o que isso realmente pode ser.


Nessa altura, entusiasmado por ter encontrado algo diferente, dei-me até ao trabalho de fazer também algo completamente extravagante - gravei algumas emissões em cassete. A razão de ser de tal anacronismo prendia-se, por um lado, com esse ambiente de madrugada oculta que o António Sérgio para mim imprimia no programa, e, por outro, porque, para saber quem era a banda, o cantor, ou a música que tinha passado e me tinha agradado, tinha de ouvir tudo de novo. A voz grave do António Sérgio - longe de qualquer defeito de dicção, nada disso - não me facilitava o trabalho de apontar numa lista aquelas que eu queria que fossem as minhas aquisições musicais seguintes.


Entretanto, "A Hora do Lobo" acabou na sequência daquilo que, para mim, na altura, foi o grande erro da Rádio Comercial: a mudança para um formato mainstream, de um sofrível pop - rendição feita às massas, que, no final de contas, também é certo, geram indirectamente as receitas necessárias ao pagamento dos salários e à sobrevivência económica de qualquer estação.


Perdi o António Sérgio de vista, durante uns anos até o ter descoberto novamente na Antena1, se a memória não me falha, num programa que, mesmo sem ser do "Lobo", tinha "As Horas" bem preenchidas, cheias de boa música. E foi com o António Sérgio que descobri bandas como os "Gothic Archies" e outras do género.


Mas também por estes lados, foi um luar de pouca dura.


E, no fim de tudo, vejo que agora cheguei atrasado... Perdi-me nas horas e, nem de propósito, descubro, esta noite na Rádio Universidade de Coimbra, o último "Viriato 25" - o programa, que, a nível de rubricas e estilo, repete e me faz recordar a "Hora do Lobo".


Os desencontros são algo desagradável. E apenas lamento não ter dado conta por onde é que o António Sérgio andava nestes últimos tempos. Ao ter ficado a perder, só me comprometo com uma coisa:


Com a memória de um dos melhores locutores do nosso "som da frente".

terça-feira, outubro 06, 2009

Ad memoriam


Anno Domini 1143
"Porreiro, pá!"

Viva Portugal! Hoje e Sempre!

quinta-feira, outubro 01, 2009

O meu voto? Eu é que o deposito!

Ainda no esmiuçar dos escrutínios - passe a referência ao programa da Sic - o tema desta posta "rouba" o seu mote a uma pequena discussão crítica que surgiu no Twitter, entre mim, @31daSarrafada e @ponteeuropa , a propósito de um apontamento deste último no blog homónimo.
De facto, de acordo com a lei eleitoral em vigor, para a Assembleia da República, após votar, o cidadão eleitor dirige-se à mesa e deve entregar o seu voto ao presidente, a fim de que ele, e apenas ele, insira o boletim dentro da urna - cfr. artigo 96º nº5.
Ora, ao que parece o nosso Presidente da República não o fez. Na verdade, a fotografia, tirada pelos órgãos de comunicação social, não deixa margem para dúvidas.
Nestes casos, a mesma lei já citada, prevê, no seu artigo 168º, o pagamento de uma multa - ou deveria ser coima? - que pode ir desde os mil aos dez mil escudos - a verborreia legislativa e a fúria gorilácea de quem a produz, poupou este diploma legal à modernidade, podendo ainda sentir-se a nostalgia pela moeda antiga...
Não parece que ao Presidente da República tenha sido aplicada aquela sanção. Não foi aplicada a Cavaco Silva nem a outro político qualquer que certamente já fez o mesmo, tendo todos nós a leve recordação disso mesmo - pose para a fotografia, sorriso, depósito do boletim pela própria mão, um "bacalhau" ao responsável máximo da mesa e um "bom dia, meus senhores, bom trabalho".
Contudo, este mesmo detalhe, legalmente consagrado, se pôde até agora passar-me despercebido, levantou em mim algumas inquietações. E deixo já aqui claro: não me interessa que seja o Presidente da República, o Primeiro-Ministro, um qualquer deputado ou o "Manuel das Couves", o sujeito que possa vir a cometer a "infracçãozinha".
E digo justamente "infracçãozinha", porque a norma me parece ridícula e ainda herdeira de um paternalismo bacoco.
É que se, por um lado, aceito que ao presidente da mesa devem ser dados todos os poderes para a coordenação de um acto que se quer ordeiro, rigoroso e transparente, não aceito, por outro, que existam prerrogativas nascidas apenas em virtude da formalidade de um cargo. "Eu é que sou... o prrreeeesidente da mesa..." - já dizia o "boneco" do Herman, no sketch do "Parabéns", em Janeiro de 96, acerca das Presidenciais desse ano.
Na verdade, na entrega do boletim de voto ao presidente da mesa pode estar implicado um acto de transmissão da posse, ou até mesmo da propriedade, que me choca, porque contrário à ideia republicana da soberania popular.
Ou seja, um cidadão ao votar, exerce o seu direito, cumpre o seu dever, numa atitude que se quer inteiramente pessoal, soberana. Sem necessidade de quaisquer intermediários que efectivem aquilo que, para todos os efeitos, é o último passo dessa forma de expressão democrática.
E, depois, partir do princípio que tal intervenção do presidente é necessária para "impor uma certa ordem" é o mesmo que dizer que os eleitores são uma cambada de desordeiros que não sabem comportar-se em tão solene acto, aguardando a sua vez, depositando serenamente o seu boletim na ranhura.
Por tudo isto, defendo, como já se calcula, que urge mudar a lei eleitoral no sentido da revogação da norma e, já agora, na actualização das quantias da "multa" aplicável às (outras, mais importantes) infracções.
E como manifesto pessoal assumo a minha posição: o meu voto? sou eu que o deposito! E é já nas próximas! Como sempre!

E este o post do @31daSafarrada, desenvolvido no decurso de tão estimulante querela.

sexta-feira, setembro 25, 2009

Glossário Avulso

Palavra de hoje: Retículo.

terça-feira, setembro 01, 2009

Amados Líderes...



Discursos de "self convinced leaders", na falsa certeza de que são amados, fazem-me sempre lembrar este anúncio. Porque há sempre direito à escolha do que se "bebe".

Incompetência 2.0

Há coisas que me deixam, por vezes, com uma ligeira irritação inconsequente. Um exemplo disso são as linhas de apoio técnico. Ao início, é tudo de uma simpatia que mais parece vinda de um qualquer McDonalds - fabricada, de produção em série e quase asséptica.

Depois, o "basismo" intelectual instala-se por completo. Esperam os operadores - termo técnico eufemístico para baralhar os índices de desemprego ou atribuir alguma dignidade a quem é negado o direito de estar a fazer o que gosta ou para que foi formado - esperam os operadores, dizia, perguntas simples (como por exemplo, ser necessário dois cliques no rato, ou fechar uma janela), pedidos de adesão a produtos da empresa ou até, quiçá, um #EUAMOVOCÊ.

Quando é colocado um problema mais complexo, aí, cai o Carmo e a Trindade. Para lá da minha saga com a operadora mais popularucha, no Verão passado, que aqui não dei conta, é certo, mas que quase me levou ao desespero, aconteceu-me novamente uma situação de grosseira incompetência, na passada quinta-feira. Passo, pois, a relatar o episódio.

Na necessidade de enviar um mail profissional para um serviço público, impondo-se a assinatura digital da dita mensagem e bem assim uma certificação válida, recorri como é hábito, quotidiano, ao meu e-mail da Ordem dos Advogados. As configurações são simples e a única exigência mais premente é que se possua um servidor de saída (SMTP) correspondente ao fornecedor de internet.

Até à passada quinta-feira, recordo, tudo se encontrava a funcionar em perfeitas condições. Deste modo, qual não é o meu espanto, quando sou confrontado com uma mensagem de erro no envio da referida mensagem, que dizia que o utilizador não existia e que o problema teria que ver com as configurações do servidor de saída - o tal SMTP. O desconforto começou a instalar-se... Após várias tentativas, a frustração... Estava na hora de ligar ao... Apoio Técnico! Após premir uma data de teclas - o serviço encontra-se tão compartimentado que se gasta mais tempo em seguir as instruções do que com a eventual resolução do problema - um cumprimento formal, pré-formatado, o nome e a pergunta: "Em que lhe posso ser útil?". Explico a situação. Fazem-se mais umas perguntas "qual o seu número de conta?", "qual o seu número de telefone?".

Tento explicar a situação, de modo inglório, ouvindo instantes de um silêncio estupidificante. E logo a seguir, a idiotice confirma-se: "Vou reportar a sua situação e encaminhar o problema para o departamento técnico, devendo o senhor aguardar o nosso contacto"... Que fazer depois disto?

Nada... Um sujeito fica-se, tal é o poder de tamanha indiferença. Por vezes, chego até a pensar que estes "técnicos" são treinados para aguçar um instinto assassino de, com duas ou três palavras, anularem qualquer reivindicação de um indignado cliente que atempadamente paga as suas contas.

Contudo, a história não fica por aqui, mercê de uma persistência que me começa a parecer mais casmurrice do que verdadeira conduta lutadora. Hoje, segunda-feira, nova chamada. Mudo de táctica e começo por perguntar como configurar o servidor de envio para uma conta pessoal de correio electrónico, como se fosse a primeira vez, no incauto desejo de, desta vez, darem-me uma efectiva resposta.

Questão: "pode-me dizer qual a sua conta de e-mail?". Após me soletrar todas as letras em alfabeto fonético militar - "ó de óscar, a de alfa, correcto?" - a operadora atinge-me na sua máxima sabedoria, deitando para fora uma pérola que sempre representou um avanço relativamente à chamada de quinta feira; afinal tudo se terá passado sem novidade. Segundo o que depreendi, a operadora fornecedora do meu serviço de internet terá tomado a iluminada e sábia decisão de não aceitar "validações" de contas externas no seu servidor de envio.

Ou seja, contas de email que não sejam cedidas pelo próprio fornecedor do serviço não podem usar o seu SMTP. "A alteração é recente", dizem-me; "mas compreende que assim sou privado de um serviço pelo qual estou a pagar e do qual dependo a nível profissional, tendo sido esse o motivo por que contratei convosco?"... Nem resposta. "A situação está a ser analisada". No rasto desta postura, o ar seráfico de quem bem sabe que caso a situação tivesse lugar a um nível mais pessoal, as coisas poderiam descambar para o "próximo nível"...

No meio de tudo isto, que retiro? Pouco, ou o mesmo de sempre. Em Portugal há uma consciência invertida, no sentido de se pensar que é a empresa que faz um favor aos clientes, os quais, por aí, não têm quaisquer direitos; os senhores dos computadores pensam que apenas trabalham para eles, resumindo tudo a linhas de comandos de programas; o conceito de pré-aviso é inexistente, quando até seria muito fácil notificar, dentro de prazo razoável para procurar outras soluções, os potenciais prejudicados das alterações técnicas a efectuar; o acesso à internet pode, diariamente, transformar-se numa odisseia hercúlea, repleta de laboriosos trabalhos que nunca nos levam a lado nenhum a não ser à Cultura da Paciência e do "É a vida"...

quarta-feira, agosto 26, 2009

Playlist 2.0



Glass Candy, absolutamente sedutor. Pela cadência, pelos arranjos, pela sofisticação.

Comentário 2.0

A propósito disto escrevi o seguinte:

Não entendo porque só os grupos de risco, os mais evidentes, vão ter acesso à vacina que, por seu lado, tarda em chegar, quando noutros países estará pronta a usar já agora em Setembro. Em Espanha, por exemplo, oitenta por cento da população terá acesso à vacina. Por isso pergunto à Sra. Dra. Ana Jorge: Porquê a opção deliberada por tão reduzido lote, sabendo até que as farmácias não podem negociar ou reservar lotes - parece que o monopólio é do Estado, no que toca às reservas - que viriam a ser vendidos a cidadãos fora dos grupos de risco? Porquê a opção deliberada pelo discurso do "aguenta-te à bronca que és só mais um número das estatísticas para mostrarmos competência"? Porquê enfim, a escolha pelo entupimento das urgências e pela baixa maciça dos trabalhadores que, a serem vacinados, sempre veriam, no mínimo, os efeitos da vacina minorados? Porquê esta minha sensação que se NEGA AQUI UM DIREITO À SAÚDE - acesso a uma vacina - que até há quem esteja disposto a pagar na totalidade??? Já muitos de nós somos crescidinhos a não precisar de alguém a dizer o que devemos ou não tomar. Apenas esta a minha opinião.

segunda-feira, agosto 24, 2009

Confarreatio



O vocábulo é latino e bem conhecido dos patrícios da primeira República do mundo.. Ora, tendo como ponto de partida esta proposta de leitura breve, convida a mesma a uma exegese sobre a notícia que hoje marcou a actividade política e bem, assim, a participação cívica de quem também, precisamente, vive numa República e tem o dever de reflectir sobre os assuntos que lhe dão forma e essência.

Um veto, considerandos pertinentes e a recordação que tenho dos Mestres, fizeram com que voltasse às fontes do Digesto, das Instituições e até mesmo das Pandectas... Tudo resumido no Corpus Iuris Civilis, entenda-se.

A ideia de casamento sempre se pôde traduzir, no mínimo, num contrato celebrado entre duas pessoas de sexo diferente (eu sei que isto acarreta outras questões, mas, por economia de tempo ou de assunto sobre elas não falarei), gerador de direitos e obrigações tendentes a uma comunhão de vida.

Uma comunhão de vida com reflexos ao nível do regime de bens - saber o que é de um e de outro cônjuge, ou de ambos -, ao nível da representação - saber quem pode fazer o quê quando contrata com terceiros, quando tem de ir a tribunal, quando toma decisões sobre o futuro dos filhos - e ainda ao nível das próprias relações entre ambos - vejam-se os chamados deveres conjugais de respeito, fidelidade e débito conjugal.

Por aqui logo se vê que este institutol, enquanto figura contratual traz consigo um atributo que nunca poderá ser mitigado: a escolha pela responsabilidade, independentemente dos afectos que apenas dizem respeito à esfera da intimidade.

Qualquer cidadão, num Estado de Direito, tem a obrigação de saber que ao "contratar" assume para consigo e para com a sua contraparte e ainda indirectamente com terceiros, futuros ou eventuais interessados, uma determinada posição. Dele é esperado um certo comportamento, uma prestação, uma postura.

E se estamos já bem longe da submissão que à "uxor" estava destinada, havendo para ela somente ou em grande parte deveres, a verdade é que, nos dias de hoje sempre se espera de ambos os cônjuges uma atitude em conformidade com o contrato que celebraram e fizeram publicitar. Tudo nos termos já acima sumariamente enunciados.

Ora, nas uniões de facto há aspectos que, em termos legais, se desenrolam à parte deste regime de responsabilidade. Por exemplo, a representação e a legitimidade processual não conhece, tanto quanto sei, a figura do litisconsórcio necessário: a necessidade de ambos os cônjuges estarem em juízo, quando demandantes ou demandados. Por dívidas praticadas no exercício do comércio também não me parece que funcione a presunção de que as mesmas são comuns a ambos os unidos de facto.

Pelo que li, lança-se mão de conceitos como os da compropriedade e da solidariedade nas dívidas para dar a ideia de um "produto novo" que é tão bom como o antigo, mas só que mais moderno e sofisticado. É pouco na minha opinião e não se percebe o que realmente se pretende. Qual o sentido do "proto-casamento" se não o de ter vantagens, não discuto que devidas, sem ter encargos? 

Não obstante, considero importante a protecção das pessoas que optem por esta experiência de vida em comum, não se lhes devendo impor outra.

Casa morada de família, prestações por morte de um membro da união ou mesmo o reconhecimento do direito à ressarcibilidade de danos produzidos por terceiro, em sede de responsabilidade civil, são matérias que ainda hoje não receberam a regulamentação que a lei, em vigor, prometia ou fazia prever.

Contudo, o que mais me confrange, a título pessoal, relativamente a quem não concorda com o veto do Presidente da República, é poderem dificilmente responder a esta questão: se uma e outra coisa são o mesmo, então para quê o casamento?

Enfim, o casamento é uma figura contratual estável, assente e que funciona, devendo ser premiada - em exclusivo, por exemplo, ao nível fiscal - e nunca comparada a institutos que, embora a merecer a sua justa protecção constitucionalmente devida, nunca serão a mesma coisa.

A não ser assim, funcionará, parece-me, o princípio "trainspotting": "não há casados nem unidos de facto, apenas pessoas que estão juntas". Nada de bom, porque pouco sério, quanto a mim.

Quem está unido de facto, está para o bem e para o mal, como se costuma dizer. Mas não está casado. Porque realmente assim não o pretendeu...

quarta-feira, julho 29, 2009

Banda Sonora 2.0



Para ficar de boca aberta ou deixar-se levar...

segunda-feira, julho 27, 2009

Branca de Neve 2.0



Os incautos que se desenganem. A informação da imagem acima exposta é enganosa. Porquê? Aqui começa a história:

Durante este fim-de-semana, foi largamente publicitada, por quem de direito, no Twitter, uma iniciativa nunca antes realizada no ciberespaço português: o Primeiro Ministro à conversa com os autores de alguns dos mais conhecidos blogs da nação.

Tal como era explicado aqui, o debate seria livre e aberto, havendo uma escolha - método da mesma não apurado, porque não exposto em termos de critérios, pressupostos e condições concretas - dos blog's que teriam direito a fazer uma pergunta ao Eng. Sócrates. Sem embargo, e contando com a lista de blog's suplentes igualmente publicada, abria-se ainda a possibilidade de participação das redes sociais, nomeadamente o Twitter.

Ora, uma hora antes do começo: endereço na barra de navegação, tecla enter e página de entrada. Ao que tudo indicava o "live streaming" - emissão em directo - parecia ser fluido e escorreito, mostrando uma curiosa mira técnica e podendo ouvir-se o tão típico"um, dois, som... experiência". A hora dos testes para que tudo corresse bem com esta "admirável" empresa.

17h30m (ou um pouco depois, que ainda fui tomar uma bica e quando voltei ainda não tinha começado): O Primeiro Ministro entra na "cantina", cumprimenta as pessoas e senta-se. "Pronto, vamos lá então ouvir o debate com os bloggers" - o esfregar de mãos ávidas de um bom debate no twitter para o qual a hashtag #blogconf tinha sido criada.

Contudo, subitamente, o "live streaming" é cortado. Mira técnica de volta. Écran negro, sem imagem nem som de seguida. Motivos técnicos, disseram. Sucedem-se os pedidos de desculpas, bastante esfarrapadas, havendo mesmo quem, dizendo-se noutras alturas fervoroso adepto do twitter justamente devido à nota de "tempo real", vem atirar que "na vida, o directo não é tudo".

A indignação instala-se. Do mero #flop para outras considerações mais imaginativas - serão mesmo apenas imaginativas? - bastantes foram aqueles que se levantaram em protesto. Alguns dos agora reduzidos protagonistas - os únicos, é certo, porque convidados - ainda tentam acalmar as hostes, fazendo uma cobertura parcial do que se passaria na "cantina".

Ora, do que ficou, o fedor da conveniência e da estratégia - ou do receio de vociferantes twitts de descontentamento pelo estado das coisas - foi o aroma mais dominante, em modesta opinião.

Um bolo que, de acordo com a imagem, seria para ser comido por todos, deu, no fim de contas apenas para alguns comerem umas fatias. E, ainda assim, fatias variadas: umas com sabor a protagonismo, outras com sabor a propaganda e ainda umas esmigalhadas, com sabor a seriedade (é pena que tivessem sido as mais "piquenas").

Da promessa da transmissão do verdadeiro na íntegra e indeferido, o conforto não é grande, uma vez que não era, de modo nenhum esse o plano inicial. O sentimento de exclusão é legítimo por parte de todos aqueles que acreditam, e não porque alguém em terras lusas o diz, que o Twitter é para todos.

E, no fundo, se, por um lado a ingenuidade acalma e conforta, também é certo, por outro, que não deixa vislumbrar a verdadeira essência da estratégia: quando se quer reduzir o número de intervenientes dialogantes basta introduzir no circuito da comunicação algum ruído, ou seja, "motivos técnicos". Tudo por aí se perde.

#parêntesis: e ainda a RTP tentou dar uma notícia que, para todos os efeitos, não o foi.