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sábado, agosto 23, 2008

Ouro e Prata


Apesar das desculpas de alguns, ditadas por um claro egocentrismo narcisístico e quiçá até algum provincianismo bacoco e complexado;

Apesar da hipocrisia de outros, habituados a um "tachismo" deslumbrado e que os faz crer que certos cargos públicos mais não têm que ser senão os seus feudozinhos privados;

Apesar, enfim, de uma triste pequenez que teimam em impôr, o certo é que, com um salto para a frente (para muito à frente) e uma vontade indómita, estes são, verdadeiramente, os NOSSOS HERÓIS!
Obrigado por me terem mostrado que continua a valer a pena acreditar em PORTUGAL! Hoje e sempre.

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Anabela e o seu casaquinho de malha



À mesa da esplanada, sentou-se Anabela... Tinha chegado há pouco do serviço - era secretária de administração do senhor Manuel, empresário, anafado e cardíaco - e costumava fazer aquele caminho todos os dias, parando para beber um néctar de pêra, num escrupuloso recato submisso e transbordante de uma castidade e virtude tão profundas que chegavam a deixar dúvidas quanto à sua genuidade.

Mas Anabela era assim... Pouco faladora e comedida nas suas aparências, prestando culto a uma timidez que roçava um ressabio bacoco e uma inusitada antipatia.

Quem a não conhecesse bem poderia dizer: "Ora aqui está um belo exemplar de 'bicho-do-mato'!". O que também em parte corresponderia à verdade.

De facto, Anabela vivia nos arredores da cidade, à beira da A1, num lugar pacato, com igreja, adro e cafés domingueiros, onde a "malta jovem" se gostava de reunir com os mais velhos, a fim de discutir bola, carros e velocidade, acompanhados por "finos" e "imperiais" bem frescas ou, então, qual testemunho de uma idade mais séria, generosas "selhas" de tinto da adega do senhor Martins - industrial hoteleiro, proprietário do snack-bar "Belami".

Anabela viveu em casa dos seus pais até aos dezanove anos.
O seu lar paterno era uma bela moradia, construída pelo senhor Lopes e a dona Amélia, com os proventos desses árduos e difíceis tempos passados na Suíça, a trabalhar como vigilante nocturno numa central de camionagem e a servir às mesas de um restaurante português, à beira da estrada para Neuchatelle, respectivamente.
A obra arquitectónica era uma "maison-tipo-chalé", pintada de branco, com portas lacadas no mesmo tom, janelas de um bom alumínio - com vidro duplo - e - "la pièce de resistance"- uma escadaria lateral exterior, revestida a azulejos verdes - os mesmos do quarto de banho do primeiro andar, que tinha "poliban" com banheira acoplada -, dando acesso directo à cozinha IKEA, recentemente remodelada para este estilo, naquele mesmo piso.

Anabela era uma pessoa sensível e de uma discreta beleza.

Cabelo loiro escorrido - e pintado pela sua vizinha e prima cabeleireira Soraia (tinha conseguido formar-se nesta fina arte, mercê da frequência de um curso do Centro de Emprego, patrocinado pelo Fundo Social Europeu), altura mediana, olhos castanhos e faces redondas.
Os seus seios algo desmesurados e proporcionais a umas ancas que a celulite ia generosamente deslaçando, faziam as delícias do seu patrão e alimentavam algumas das suas mais sórdidas fantasias, assentando-lhes que nem uma luva o conhecido slogan do Chivas Scotch: "ou se tem ou não se tem".

No que toca ao seu estilo: algo entre o já aludido recato e uma discreta sofisticação.

Anabela gostava de alternar o seu guarda-roupa entre o preto, o rosa-pálido e o verde escuro, nunca abrindo mão das suas calças de ganga de cintura descaída, que entravam com esforço.

No seu quotidiano, de mulher emancipada - porque titular de carta de condução (equivalente a qualquer curso superior, mestrado, pós-graduação ou, até mesmo doutoramento) e com um descomunal traseiro que se abanava todo ao sair do seu Clio metalizado -, gostava de usar decotes, que mercê do que já acima foi dito, sempre alimentavam uma utópica promoção, sugerindo a possibilidade de alguma contribuição em géneros à sua entidade patronal, no sentido de apressar o que tardava.
Camisola de gola alta preta, calças de sarja a combinar e um blusão de cabedal, para as suas raras noites de loucura total, em que saía para a cidade com as suas "colegas", no intuito de dançarem as músicas de discoteca, acompanhadas por um fogoso "Carolans".
As botas subiam até aos joelhos cobertos - "boas e baratas", adquiridas nos saldos do "Calçado Guimarães", ali ao Taveiro, no Retail Park.
A insistência neste traje festivo, levantava os maiores reparos sussurados da vizinhança.
O preto era apenas usado convenientemente pelas vetustas e pias matronas de plúrimas verrugas labiais e nasais, numa atitude resignada de eterna dor pelos seus maridos já idos, esquecendo todas as noites de pancadaria por que passaram, de cada vez que eles chegavam a casa vindos tardiamente da taberna.
Enfim... O conjunto era completado pelo fio de prata, mesmo por fora da tal gola alta - um belo e carinhoso presente da sua madrinha, a dona Lurdes, aquando da sua Comunhão Solene. Nunca o tirava.

Contudo, havia uma peça do seu vestuário que era uma constante e uma verdadeira imagem de marca: O CASAQUINHO DE MALHA.
Anabela tinha uma predilecção pela simplicidade, cujo expoente máximo era atingido no uso de três banais casacos de malha fina, a substituir quaiquer pólos ou algo de mais sofisticado - porque de sofisticado já vimos que quase ultrapassava os seus limites, quando envergava o seu traje de noite.
O primeiro, em preto e com pequenos botões brancos de madre-pérola, usava-o muitas vezes, no trabalho, para cobrir os já aludidos decotes, nessa inocente tentativa de impingir aos outros, que com ela se cruzavam, uma ideia de verdadeira pudica.
Um segundo, em tons de verde alface, para andar por casa, passando longas tardes de Sábado com a sua sobrinha a ver compactos seguidos da série "Floribela", com a sua sobrinha Carla Sandra.
A propósito: sempre devemos referir que não era assim tão raro deixar cair uma ou duas lágrimas de verdadeira e gostosa emoção, sempre que aparecia em cena a protagonista desta telenovela para a "malta jovem", uma vez que sentia identificar-se com a personagem.

De facto, é precisamente esta característica de Anabela que nos leva ao terceiro Casaquinho de Malha.
Tal como no Senhor dos Anéis há o Anel Um, também Anabela nutria um especial afecto por este exemplar do seu figurino.
O terceiro casaco de malha era em tons rosa e representava um marco importante na vida da nossa rapariga da mesa ao lado.
Anabela tinha dezoito anos. A noite era de Verão e de romaria em honra de Nossa Senhora das Dores e Queixumes. Tinha ido à festa com os seus pais, membros da comissão organizadora desse ano, vulgo "festeiros".
Naquele ar morno, típico de princípios de Julho, Anabela conversava com as suas amigas, numa roda fechada, quando aparece Tó Zé.
Desde pequenos que se conheciam, visto serem vizinhos. As suas famílias mantinham sólidas relações que passavam por largas sardinhadas e visionamento de jogos de futebol pela Sport TV recentemente assinada.
Desde há alguns anos para cá que Tó Zé vinha dando sinais de corte e alguns avanços a Anabela, que sempre se manteve reservada, pois sabia que ainda não tinha idade nem permissão para namorar. Por outro lado, confiava nas palavras da sua irmã mais velha, Diana (em homenagem à Lady D): "Lembra-te, Bela: os homens são todos uns porcos!".
Diana era mãe solteira e estava empregada numa empresa de serviços de limpeza em Lisboa, proscrita pelos próprios pais, que viam, tanto na sua conduta bem disposta, divertida e ambiciosa (gostaria de ter cursado Letras, para ser professora), como no jeito de expressar uma sensualidade natural, a razão pela qual tinha sido violada, nas traseiras da Escola Secundária. Ela era a única culpada, porque "punha os rapazes atiçados", nas palavras da sua chorosa Mãe.
Contudo, aquela noite de romaria parecia convidar Anabela a abandonar-se à loucura e aceitar o convite de Tó Zé para dançar.
Os "Inovação 6" - excelente grupo de baile, formado por virtuosos do órgão e da guitarra eléctrica, versado em covers dos grandes êxitos da música romântica e do "roque an rôle" - tinham começado a tocar um "slow".
Tó Zé encaminhou Anabela para a pista de dança, improvisada em tábuas, ali no Adro da Igreja e junto à Quermesse - onde se encontrava a sua mãe e mais algumas senhoras respeitadas e devotas.
Anabela lá ia, num andar compassado, de cabeça baixa, com as faces coradas e de braços muito bem cruzadinhos. A sua submissão encontrava nesta postura corporal o mais puro e cristalino reflexo. Aquela seria a noite em que tudo se decidiria.
A música em Inglês (Anabela preferia o Francês, porque sempre dava para perceber as "privates" das suas primas da França) convidava a uma maior proximidade e Tó Zé apertou-a contra a sua barriga descomunal - tal como o resto dele: alto, gordo, cabelo loiriço desalinhado e maltratado; um ar de labrego tal que encontrava o seu maior encanto no facto de ser uma verdadeira "besta" - com cara de mocho -, "muito querida" por todos quantos temiam o seu afectado e pedante mau génio volátil e patológico.
Dançaram o tema e, no final, selaram o seu futuro com um beijo salivante.
O futuro e o casamento, onde o creme de legumes seria a sopa chique, naquele salão de festas de uma empresa de banquetes, ali da Mealhada.
Tó Zé tinha uma casa já feita (moderna, segundo ele, na linha de traça já a seu tempo descrita, mais acima) e emprego certo;
Era agente comercial (um rapaz das entregas, com carro de serviço - o que lhe dava um certo estatuto) da empresa onde arranjou trabalho a Anabela, depois do casamento.
Viviam felizes e sossegados, desde então. Ainda não tinham filhos; queriam esperar.
As noites em que se dispunham a fazer "O Amor" eram vividas numa envergonhada escuridão de urros e grunhos másculos, onde Anabela não tinha qualquer palavra a dizer e onde muitas vezes sentia falta da sua mão, dos seus delicados dedos, que, de todo a todo, eram rotundamente proibidos.
Tó Zé, irritava-se com tal libertinagem: "Aiiii! Vamos lá a ver!... Que é que estás a fazer? Bem..."
Anabela não se queixava e estava contente.
Desde aquela romaria até às mais recentes, insiste em levar sempre o seu Casaquinho de Malha cor-de-rosa, repetindo o mesmo ritual, a mesma postura - até porque, no final de contas, encontra-se acompanhada pelo seu marido, implicando uma atitude de saudável respeito, a fim de evitar olhares indiscretos e certamente cenas da mais sangrenta violência passional, conduzidas pelo sólido e preciso punho calejado do Tó Zé.
De resto, o estilo de Anabela é elogiado pelas amigas, sempre que a encontram ou com ela saem, aquando dos seus eventos sociais: "Fogo! Anabela, tu tens coisas muita lindas! Cinco estrelas!"
Acabado o sumítico néctar de pêra, eterno substituto de um tal de café expresso que tinha sempre em mente tomar mas que nunca pedia (é mesmo só um pretexto para, nas mais diversas ocasiões, romper com a clausura e a rotina), Anabela levantou-se e encaminhou-se para o estacionamento, toda lampeira.
De volta a casa, depois de mais um dia de Sucesso - o seu Casaquinho de Malha Rosa tinha sido, na verdade, o sapato de cristal desta nossa Cinderella (sim porque afinal "ainda há Cinderellas")!

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Ser Portugal!


D. Bartolomeu de Gusmão
, homem religioso e da Ciência teve, um dia, um sonho: construir uma máquina de voar, um aparelho "mais leve que o ar".Com a ajuda de dois amigos - Baltasar Sete-Sóis, soldado maneta com gancho e Blimunda Sete - Luas, rapariga com misteriosos poderes - , um casal de desvalidos dessa Lisboa do princípio do séc.XVIII, foi dando forma ao projecto, num pavilhão abandonado e convertido em oficina, ali para os lados de Mafra, onde sua Majestade EL - Rei D. João V tinha iniciado as obras de um Convento para os frades franciscanos - como contrapartida de suposta graça divina para o nascimento de um Herdeiro ao Trono, que, ao tempo, tardava em chegar.

A estranha máquina ia tomando formas - um misto de caravela com a figura de uma águia.

Contudo, um pequeno pormenor persistia: D. Bartolomeu de Gusmão não fazia a menor ideia do modo pelo qual aquele objecto de tanto engenho, arte e tempo dispendidos levantaria vôo e, ainda mais importante, se susteria no ar, por forma a apanhar o vento de feição e assim conquistar os céus de Portugal e da Europa, trazendo para o Reino ainda mais Glória por feitos nunca dantes alcançados.

Protegido do Soberano, Frei Bartolomeu rumou até às Sete Províncias Unidas do Norte - vulgo Holanda - com uma ideia: aprenderia tudo o que a fina arte da Alquimia lhe tinha para ensinar acerca de tal complexa empresa, nunca antes vista.

Ao privar com a nata dos mestres, versados em tais mistérios, que por ali viviam e estudavam nessa altura, chegou a Lisboa com a resposta:

Ao que parecia, teria de arranjar um certo e determinado número de esferas de âmbar, as quais, por seu turno deveriam conter uma preciosa e enigmática substância: A VONTADE.

Duas mil vontades deviam encher as esferas de âmbar; estas, colocadas na Passarola - assim se chamava tal aparelho aeronáutico - atrairiam o Sol, provocando uma reacção em cadeia que permitiria a ascensão da Passarola aos céus e ao Sonho tornado realidade.

Mas, o problema persistia: D. Bartolomeu de Gusmão sabia o que era a Vontade, qual a sua fonte e essência, mas entrevia colossais obstáculos em tomar contacto com ela; era como o éter, algo que não se apreende ao olhar, nem ao toque, nem ao cheiro e nem ao sabor dos comuns mortais.

A Vontade partilhava da alma das pessoas - seria como a linfa está para o sangue que nos corre nas veias.

Qual a sua forma? Ninguém sabia...

Até que um plano astucioso começou a ser delineado por este nosso frade.

Ao que se sabe, Blimunda Sete Luas possuía um dom: em jejum, conseguia olhar para dentro das pessoas, contemplando o seu mais profundo interior. Por exemplo:
Uma mulher de esperanças - o feto estava virado com a cabeça para cima, o parto seria doloroso.

Frei Bartolomeu pediu, pois, a Blimunda que fosse comungar à missa que D. João V mandou rezar em Mafra, em semana pascal, com vista à sagração da capela que seria ali construída como parte integrante do Convento.

O seu mestre alquimista contou-lhe que havia alguns que entendiam ser possível ver a Vontade na óstia consagrada, já que esta conteria em si o corpo e o espírito de Cristo.

Blimunda assim fez.

"Que foi que viste, Blimunda?" - perguntou-lhe - "Que forma tem a Vontade".

Ela respondeu: "É como uma nuvem cinzenta... carregada e fechada".

D. Bartolomeu tinha a resposta.

Por essa altura, a peste marcava a sua presença na capital. A mortandade era grande e os moribundos, tementes a Deus, procuravam o seu último conforto na oração, na companhia do padre e dos seus entes queridos e vizinhos.

Deste modo,

O cientista jesuíta enviou, este casal para o meio deste povo em agonia, a fim de lhe colher, precisamente, as duas mil vontades necessárias para fazer acontecer o Sonho.

Baltasar e Blimunda jejuante entravam nas casas onde a peste tinha batido à porta. Assim que ela notava que a Vontade se estava a libertar da matéria, que era o corpo de quem dava o último suspiro, fazia sinal a Baltasar que, com um frasco de fino vidro, a retinha no seu interior.

Duas mil vontades eram precisas e duas mil vontades foram colhidas.

Após a decantação desse precioso elemento nas esferas de âmbar, as mesmas foram instaladas na Passarola, segundo o método contido no projecto.

A Passarola voou e causou admiração aos pedreiros das obras do Convento, que se ajoelharam à sua passagem.

Um homem sonhou e a sua "res" tornou-se nisso mesmo - em realidade.


Este pequeno relato sempre me serviu para fazer uma pequena analogia.
Nestes tempos em que comemoramos a Restauração da Independência de Portugal, não poderia deixar de depositar aqui o meu tributo à memória de quem, um dia, teve o sonho de uma Nação e reuniu as tais "duas mil vontades", para que o mesmo voasse, tomasse forma, se tornasse em mestre de metade do Mundo e assumisse a sua condição de comunidade humanista e fraterna que ainda hoje vai sendo.

A ideia de um Soberano como Chefe de Estado é tida para mim como a devida homenagem que todos nós, enquanto Portugueses, devemos prestar, com orgulho e na certeza de que somos ouvidos, àquele que um dia se lembrou que devíamos ser País:

Uma verdadeira "res publica", em que aquela figura será sempre tida como o repositório de todos os anseios e desejos colectivos relativamente aos conceitos de bem-estar, justa repartição da riqueza e livre exercício dos direitos fundamentais - princípios estruturantes de qualquer Estado de Direito.

Numa altura em que o País se encontra mergulhado numa densa bruma de desalento, crise económica e confusão ideológica, as considerações acerca das virtudes da forma de Estado monárquica adquirem uma maior premência.

O Rei será sempre tido como essa última linha de defesa das garantias da verdadeira realização da Liberdade, Igualdade e Fraternidade (é curioso, não é?), a que temos direito.

E isto porquê?

Ideologicamente descomprometido, apenas a ele poderá caber a tarefa - realizada sem qualquer reserva mental, alimentada por alguma estratégia eleitoralista -, de apontar ao chefe do governo escolhido democraticamente as qualidades e os defeitos de determinada política;

Ninguém melhor do que o Soberano, educado desde jovem para tal, para ouvir os cidadãos, que, até para mais, nesse diálogo o referendam numa base diária.

Que sejamos Portugal novamente!

Que cumpramos esse Desígnio de se fazer saber no Mundo que ainda há um Português vivo em Portugal!



VIVA EL-REI!!!