quarta-feira, março 12, 2008

Emancipação


E lá foi o Dia Internacional da Mulher uma vez mais festejado, no passado Sábado. Rosas, jantares de grupo e saídas com a marca implícita de "Girls Only" - tudo isso a contribuir para a cor local que preencheu o País, um pouco por toda a parte.

Um marco da luta pela emancipação e reconhecimento dos mais básicos direitos democráticos, cívicos e pessoais das mulheres, o sentido esta efeméride sempre passou, a meu ver, pela natural e merecida homenagem a todos os movimentos que levantaram barricadas em tal combate, frequentemente desigual; procurando, por outro lado, dar um alerta para o incumprimento ainda latente de muitas obrigações assumidas e devidas pelos poderes públicos soberanos e eleitos em sufrágio, lá está, universal.

Quer-me, pois, parecer curioso, o rumo que foi dado a tais comemorações, numa pequena vila deste jardim à beira-mar plantado.

De facto, nesta tal simpática vilazinha da Sertã - mais recentemente em destaque devido ao jogo para a Taça de Portugal, que opôs o Sertanense ao FCP - a homenagem pública que a edilidade decidiu levar a cabo teve como protagonistas "quatro mulheres do concelho da Sertã cujo percurso de vida foi marcado pelo sacrifício de criar uma descendência familiar maior que o habitual". Nas palavras do Presidente da Autarquia "esta homenagem afigura-se como uma forma de demonstrar consideração e estima pelo papel desempenhado pelas mulheres na sociedade, em especial à mulher-mãe”.

Ora, primeiro que tudo, entendo por bem deixar claro que o fruto desta minha inusitada curiosidade nada tem que ver com a verdadeira bondade de tais intenções. Na verdade, tenho para mim que tais preocupações foram mesmo valoradas a ponto de se sentir necessidade em premiar os referidos percursos de vida.

Contudo, ao ser-me permitida a crítica, não posso também deixar de entrever aqui um caminho que se abre para um paternalismo que em nada se coaduna com os propósitos de um fenómeno (precisamente, o da emancipação feminina) que sempre se mostrou em contra-corrente com tal estado de coisas, ora posto em destaque por via da referida homenagem. É que, na verdade, a realidade social que deu origem a tais experiências vivenciais sempre correspondeu a quadros familiares em que a mulher se encontrava num estado de pura subjugação, objecto - nunca sujeito - dos mandos e desmandos do chefe de família - o único a quem seriam reconhecidos, de modo pleno, todos os direitos civis.

Entenda-se também - em tempos tão exigentes nos moldes em que a opinião é expressa - que não me refiro em especial ou concreto a nenhuma das homenageadas.

É, pois, apenas um exercício de reflexão este que proponho:

Pelo menos três destas quatro mulheres viveram numa época em que, caso tivessem manifestado vontade de ganhar o seu próprio salário, precisariam sempre da autorização do marido para assinar um simples contrato de trabalho - assim estava previsto no Código Civil, antes da sua Reforma em 1977.

Pelo menos três destas quatro mulheres, caso tivessem sido vítimas das piores formas de coacção moral, psicológica ou mesmo sexual e decidissem sair de casa, poderiam ainda vir a ser sujeitas a uma maior humilhação pública: também o Código de Processo Civil anterior à Revolução de Abril, previa um expediente processual que se dava pelo nome de "Processo para Entrega de Mulher Casada".

Pelo menos a três destas quatro mulheres, pouca ou nenhuma legitimidade processual era reconhecida nos processos de divórcio - algo que sofreu igualmente profundas alterações legislativas, a partir de 1977.

Pelo menos três destas quatro mulheres foram contemporâneas de outras tantas que certamente passaram por tais dificuldades, criadas por um sistema que pouca ou nenhuma dignidade constitucional reconheceu a tais direitos fundamentais "no feminino".

E, por outro lado, que dizer da total ausência de uma verdadeira política de planeamento familiar e educação sexual, nunca assumida por poderes autoritários de tempos idos e tributários de um certo regime confessional conservador?

Enfim, apenas me parece pertinente deixar bem claro que, na minha opinião, o Dia da Mulher tem como propósito homenagear algo mais do que o eventual resultado de um possível, porque naqueles moldes concebível, estado de opressão que é para todos nós hoje tido como impensável, tacanho e retrógado.

Contudo, volto a repetir: a intenção é louvável e não deixa de ser um começo para a correcção de tudo aquilo que ainda faz parte de uma realidade social que não proporciona o mesmo tipo de igualdades ou apenas impõe uma redutora opção, porque não colocada num plano de livres escolhas.

Dizendo de outro modo, a maternidade - também hoje mais do que nunca a merecer um olhar atento do Estado Social, no sentido da criação de condições para o seu livre exercício - não tem de ser a única escolha possível.

É apenas uma escolha entre todas aquelas outras que às mulheres deve ser reconhecida, porque pares de pleno direito desta nossa "res publica".

Se assim não se pensasse, de que serviria a palavra "emancipação"?

À beira da Catedral, na esplanada, um debate de ideias.

quinta-feira, março 06, 2008

Olha, é o House, não é?


E antes de ser Doctor House ou mesmo o Zé Pesca (como, de resto, aqui se mantém), já Hugh Laurie era um bom artista, agradando qualquer um que o visse a trabalhar.

E também se ri aqui.

segunda-feira, março 03, 2008

Urban Style

E porque na esplanada à beira da Catedral também se aspira a um estilo de vida decididamente urbano, sofisticado e viciado no puro bom gosto, a sugestão literária de hoje é dedicada a esta Revista.

Moda, design, arquitectura, conceitos - tudo junto num excelente exercício de fusão bem conseguido.


O grafismo (acompanhado por uma objectiva fotográfica certeira) procura dar o destaque que as notícias merecem. Ao contrário de outras tantas publicações - lusas, claro está - a Wallpaper não se detém na sede de protagonismo de quem nela escreve, procurando, isso sim, dar a conhecer o que de melhor se faz na Europa e no Mundo.

As ideias são o que realmente conta, fazendo acreditar que é mesmo possível voltar a outros tempos onde o espírito criativo tinha o poder de mudar mentalidades, convenções e até políticas.


De facto, conseguíssemos nós trazer de volta o Renascimento e na capa desta revista teríamos o loft de Leonardo Da Vinci, o estúdio de Miguel Ângelo e as capas dos discos que eventualmente Rafael ouviria enquanto pintasse.


A Wallpaper é assim - um canhenho de ideias que adquirem forma, volume, tempo e profundidade.


Um "must" nas mesas desta esplanada e também desenhado à Pena Suave.

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Filho da Pauta

Ao sabor de uma Perrier (what else?...), o som que se vai ouvindo na Esplanada é o deste senhor. Vincent Delerm... Voz agradável, letras engraçadas - embora buscando um dado cliché de "vivre amoureux", é certo - e melodias descontraídas. Uma breve sugestão para o gira-discos.

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

A Feira da Arte

Tendo o Brasil como país convidado deste ano, a ARCO 2008 abriu ontem portas. À parte um ou outro contratempo, o certo é que Espanha deixa, uma vez mais a sua marca, na cultura ibero-americana e europeia. Mais pormenores aqui.

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Stand Up

Uma boa sugestão para qualquer um que queira rir-se e aprender francês! Um dos melhores comediantes do Reino Unido, descoberto graças a este senhor.

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Haiku Carnavalesco

Góticos... Em noites de Carnaval,
De entre os mascarados, quem os distingue?
Bar "Noites Longas", em Coimbra. Segunda-feira de Carnaval.

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Há cem anos


Sua Majestade, D. Carlos I, El-Rei de Portugal e dos Algarves
(Lisboa, 28 de Setembro de 1863 - Lisboa Praça do Comércio, 1 de Fevereiro de 1908)

"His life was gentle; and the elements
So mixed in him, that Nature might stand up,
And say to all the world, THIS WAS A MAN!" - William Shakespeare, Julius Caesar.

Tal como há cem anos, hoje e sempre, digamos:

Viva o Rei! Viva Portugal!

quinta-feira, janeiro 31, 2008

"Cartographya"


Rementendo-me em parte a tudo quanto disse em post mais antigo, trago por ora até à mesa da esplanada um contributo para o mapa de locais onde se pode fumar.


A imagem é do Café Tropical, em Coimbra. Um dos tais sítios onde o "manto cerúleo de fumo" (é uma expressão com alguma piada) apenas era permitido na esplanada. Há poucos dias fui lá e a surpresa que tive foi agradável: um dístico azul, permitindo a descontracção e a liberdade de outros tempos, não idos há muito, no seu interior.


Por outro lado, o sistema de exaustão implementado parece funcionar bem, não tendo havido grandes queixas até agora, segundo o que pude apurar junto de convivas mais assíduos.


O melhor de tudo, a certeza de que certas imagens de marca se mantêm... A Liberdade a melhor delas todas!

terça-feira, janeiro 29, 2008

No início eram os "Warsaw"

As boas estórias são sempre contadas a preto e branco. "Control" de Anton Corbjin é, certamente, uma delas.

A vida de Ian Curtis foi breve e certamente não por obediência ao antigo brocardo que diz que morrem jovens aqueles que os deuses amam. De facto, tenho para mim que o vocalista e a verdadeira âncora dos Joy Division não queria nada com os deuses.

O seu duelo era outro... era com a vida que sempre conheceu, não suportando a cidade em que vivia, rejeitando a rotina institucionalizada pela escola, os modelos pré-estabelecidos - de que cedo se separou -, enfim, tudo o que lhe era dado por um ambiente claustrofóbico de horizontes curtos e sem espaço para outros sonhos, esses, produtos da combinação de tal cinzentismo com uma débil imagem de esperança.

A Ian Curtis juntou-se toda uma geração que procurava a fórmula perfeita de exteriorizar esse desespero provocado por uma sociedade convencional que, na altura (finais dos anos setenta), conhecia um dos seus mais cruciais momentos de agonia. Lá está, o que veio depois foi a sua lenta falência, ainda hoje em marcha e com resultados pouco promissores.

E será precisamente mercê deste circunstancialismo baseado na analogia histórica, que o filme "Control" vem assumir relevância e pertinência, espalhando o romantismo e a nostalgia suficientes para eventualmente (r)estabelecer a esperança na certeza de que haverá sempre uma maneira de quebrar, de romper com o que está de errado, ainda que não se proponha a quem governa qualquer mudança para todo um Estado, Povo ou Classe. A falta de crença na bondade de quem se elege é um borrão de tinta difícil de apagar.

Na verdade, a onda de revivalismo que por estes tempos se vive, explica bem o desejo de ir procurar no passado as soluções certas para ultrapassar mais uma crise social e cultural. O punk, por exemplo, voltou a estar na moda, se bem que mais artificial. Um artificialismo querido por quem é mais sensato, mas também mais fútil. Certamente que a geração dos morangos (entenda-se essa tribo dada pelo nome de "betos") não sabe o que é casar-se aos dezasseis, não sabe o que é começar a trabalhar sem ter curso superior ou parte dele, não sabe verdadeiramente o que é não ter dinheiro.
Mas de qualquer forma, sempre entendi que os momentos de ruptura, apesar de gerarem muita bagunça e desorganização, são inspiradores, únicos e que merecem ser vividos. E ainda que com alguma dose de higiene ou assepticismo materialista, possamos deles tirar o melhor, em termos criativos.
Em cenários industriais, de tijolos escuros e paisagens de um verde que não se vê, o percurso interior de um indivíduo perturbado, epiléctico, mas acutilante - que escrevia poemas em folhas de papel com linhas e marcador preto, em vez de um asséptico teclado de portátil com wireless - reflecte uma certa coragem ingénua de todos aqueles que encontraram, precisamente, as tais soluções que se procuram agora recuperar para sobreviver na incerteza.
As letras e os poemas continuam actuais e profundos. O som ocluso dos concertos e da banda sonora (a recuperar o melhor da voz e dos arranjos musicais em temas como "Radio" ou "Love will Tear us Apart"), como que saído de alguma sala exígua, intima qualquer um e obriga a olhar para dentro.
A vanguarda queria-se assim, sombria, metida consigo e entregue aos excessos, denunciando, claramente, uma única regra: a ausência de quaisquer outras. Em tempos de ruptura, o espaço é caótico, a geometria desordenada. A tal coragem ingénua repercutir-se-ia, certamente, na tomada de consciência da realidade circundante de que se não pode fugir. Qualquer caminho a tomar seria, forçosamente, um trilho sem retorno. Com tudo o que isso trouxesse. Embora não optando pela gratuitidade de qualquer escolha tida por menos boa ou mesmo má, há um certo fascínio que se partilha: eles não se importaram - escreveram e criaram algo, assente em tais parcos pressupostos.
E se para Ian Curtis e outros, tal devia-se à sua angústia, não tendo outra escolha, para os fãs nada mais resta se não tirar o melhor de todo esse conflito: um bom som e bons poemas com significado e estilo próprio.
Tal como a certa altura é dito pelo guitarrista: "Vocês são o público, nós os Joy Division" - a fronteira está traçada. E as tropas querem animação.

No início chamavam-se Warsaw. No fim de tudo, Ian Curtis morreu novo. Foi pena.

Sam Riley está nomeado para o Bafta de melhor actor em ascenção (Orange Rising Star Award).
Também com PenaSuave e devendo a boa sugestão ao Paulo.

sexta-feira, janeiro 18, 2008

I'm with the Band

Da Bibliotecária veio este desafio interessante: consiste em editarmos um álbum imaginário de uma banda igualmente imaginária - da qual faremos parte -, seguindo alguns passos.

1. Comecemos por ir à Wikipedia. Aí chegados, cliquemos na opção Random Article (no painel esquerdo). O título do primeiro artigo que aparecer será o nome da nossa banda.

2. Seguidamente, iremos às Random quotes. Clicamos na opção "random quotes": as últimas quatro palavras da última citação que aparecer na página servirão como título do nosso álbum.

3. Ir ao Flickr - a terceira fotografia - não importa o que seja - será a capa do nosso álbum.

4. Por fim, devemos utilizar um gestor de composição gráfica de modo a reunir todos os elementos - recomendo o Motivator.

5. Os créditos para a minha montagem: Koyo Seiko, uma foto de andzer no Flickr e a citação "What other dungeon is so dark as one's own heart! What jailer so inexorable as one's self!", de Nathaniel Hawthorne (1804-1864).

Nos tops, a partir de hoje, os Koyo Seiko com o seu álbum de estreia "inexorable as one's self!". Aclamados pela crítica!


Um desafio nacionalizado que lanço à Mariana, ao Ricardo e ao Cachapa.

segunda-feira, janeiro 14, 2008

Antes do GPS...

Johannes Vermeer, "O Geógrafo", Delft, 1668-69


Também em traços de Pena Suave.

quinta-feira, janeiro 10, 2008

Direito de Resposta

É numa certa linha de serenidade argumentativa, a encapotar um qualquer programismo higienista, que este artigo, a meu ver, se insere. Tudo porque, por um lado, nenhum fumador, pelo menos pelo que tenho lido e conversado, pensa como este senhor antropólogo diz pensar - nenhum fumador entende ser esta lei algo de verdadeiramente violador dos seus direitos fundamentais, era só o que mais faltava.
O que os fumadores entendem, e apenas por mim posso falar, é que se verificam dois defeitos nesta lei. Dois simples mas preocupantes defeitos:
1. Tal como o senhor antropólogo soube reconhecer, para lá das adjectivações que achou por bem empregar (é sempre bom contar com o diáfano manto das metáforas, para não dizer o que realmente se quer), existem lacunas na lei, relativamente aos aspectos concretos em que se pode praticar o regime de excepção conferido.
De facto, consagra-se a possibilidade de escolha do proprietário de um estabelecimento com uma área inferior a cem metros quadrados, entre ser aquele espaço para fumo ou livre do mesmo. Tudo o que tem de possuir é o tal equipamento de extracção autónoma de fumo.
Contudo, é aqui que se nota uma certa má-fé de quem legisla: um ano, se não mais! Um ano, senão mais tempo, tiveram os autores da presente lei para que com a mesma tivesse sido aprovada a respectiva regulamentação, incluindo a homologação de um equipamento, fosse ele qual fosse. É que, na verdade, e sei porque falo com alguns proprietários de estabelecimentos, o que tem vindo a imperar é uma incómoda dúvida por parte daqueles - ninguém sabe ao certo qual exaustor devem comprar, uma vez que as entidades competentes pela fiscalização (nem a elas lhes compete, certamente), nenhuma informação possuem. Devido a quê? Lá está, à lacuna.
Foi, assim, com este plano engenhoso que a inteligência higiniesta conseguiu o falso sucesso desta lei: muitos estabelecimentos optaram pela opção FUMO ZERO, porque tacitamente coagidos, não querendo arriscar, de modo nenhum o pagamento de pesadas coimas. Acredite o senhor antropólogo, quando fala do Café Tropical, que a sua frequência de fumadores rondará os noventa por cento! Certamente que o proprietário começa a sentir os efeitos. Não há sinais de fumo, nem de consumo!
E sabe também o senhor antropólogo que o café de excelência da vida universitária dos seus colegas, mesmo ao lado do Café Tropical, tinha esse mesmo tipo de clientela. Dois cafés tipicamente universitários, que, não querendo discutir qualquer mérito desta iniciativa legislativa (nunca foi o caso), provavelmente teriam querido que o senhor tossisse à vontade ou usasse a esplanada, mas que também não abdicariam da sua clientela habitual - que é fumadora sim! E fumar não é doença! Ninguém rouba, mata, viola ou extorque para fumar! PAGA IMPOSTOS, ISSO SIM!
E isso também não se contesta.
Em resumo, os fumadores apenas exigem uma regulamentação clara - uma regulamentação que a lei prevê e que, lá está, protege os seus direitos!
2.
Um segundo ponto que se revela preocupante é que agora se dá a todos o direito, que antes nem se pensava poder ter, de se intrometerem na vida de quem fuma. E não se fala em denunciar infracções. É correcto que se o faça. Embora também não acredite, para infelicidade dos não fumadores, que haverá assim tantas prevaricações. Como disse, não somos criminosos. Do que falo é do semblante com que agora somos vistos nesse ar livre, onde certamente o carro do senhor antropólogo liberta a flatulência mecânica: somos vistos como criminosos.
Isso mesmo me confessou uma empregada da pastelaria que costumo frequentar acerca de uma cliente, UMA SEMANA ANTES DO NOVO ANO! "Olhavam para ela como um criminosa!"
É disto que falo, do gosto que este povo tem, habituado assim, infelizmente durante mais de 40 anos, em ser delator, cioso do seu indicador de unha ruída, alimentando-se voyeuristicamente da suposta desgraça dos outros. Enfim, pode ter a certeza o senhor antropólogo que ninguém fumará ao pé dele... Quer dizer, se conseguir alguma bolsa de estudo para estudar os Índios da Amazónia talvez apanhe com uns fumos (já Cristóvão Colombo e os nossos Descobridores falavam de tal hábito relativamente aos ameríndios) - olhe, talvez assim consiga ter uma visão diferente.
De resto, concordo com a lei e ainda mais com a sua urgente regulamentação!

quarta-feira, janeiro 09, 2008

Bons Aromas - uma review pessoal

Cigarrilhas Captain Black com sabor a cereja.

Feitas de Black Cavendish da mesma marca, estas cigarrilhas vêm com filtro aromatizado de cereja que permitem travos mais leves e adocicados.

Não recomendáveis para quem goste de aromas mais amargos.

Para mim, uma cigarrilha que se fuma facilmente, própria para quem queira começar a explorar algo mais do que simples cigarros, passando bons momentos de um momento, certamente, egoísta.

E dizem na Vícios Urbanos, de modo, a meu ver, tão iluminado quanto provinciano, que já não existem!

Que as deixaram de importar, por falta de procura - que muitas vezes se fica nos snobs clichés por ignorância -, isso, talvez...

Vale a pena experimentar.

Everyday Stuff

Em resposta ao desafio lançado pelo Cachapa, trago para a mesa da esplanada, entre uns bafos aromatizados de baunilha do meu "small cigar", uma brevíssima review acerca, não de um, mas de dois objectos do meu quotidiano: o meu moleskine e a minha caderneta de papel.

O toque vintage de ambos os items é algo que não dispenso no meu dia-a-dia, tal como não dispenso ouvir "telefonia" em vez de "rádio".

O moleskine revela a sua extrema utilidade sempre que quero captar momentos, ideias ou meros esboços gráficos, que, no meu caso, apenas eu e quem mais me conhece entende - meros exercícios e incursões no campo do desenho, dados à estampa apenas por pura auto-recreação... No que toca à escrita, ela varia, desde a mais simples nota sobre um compromisso, até algo mais profundo como uma pequena diletância literária. Prefiro canetas de aparo a esferográficas e lapiseiras de minas grossas às mais finas. Vem em capas duras e tem um "side pocket", que tal como consta do panfleto explicativo que acompanha cada exemplar é uma invenção registada da própria marca.
Já a caderneta serve para aquilo que os cartões de multibanco servem (eu não tenho cartão)... Não tem grandes vantagens - só há bem pouco tempo me dei conta de que já se pode carregar o telemóvel num terminal de Caixa Automática, coisa que estava reservada aos terminais SIBS e que me atirava assim para o terceiro mundismo que entendo serem as payshops (talvez apenas porque aquelas que conheço são quiosques de um mau gosto terrível).
Por outro lado, se por vezes é o multibanco que se encontra com uma fila de espera considerável, dando-me por feliz por ter optado por comportamento diverso, já noutras alturas me aconselho repetidamente a pedir um desses cartões de débito;
É que perco a paciência quando vejo certas pessoas, com aquele ar, lá está, de falsa santidade e virtude inusitada, a não arredarem pé dos terminais, conferindo e voltando a conferir extensos extractos de conta (por vezes olham para trás, com um riso escarninho ou um esgar de desprezo por quem está à espera, inserindo logo de seguida outra dessas cadernetas - "falta só actualizar as da conta poupança, do plano de reforma ou da caixa-habitação".
Contudo, a caderneta também vem em capas rígidas, ainda que maleáveis, e permite reunir todas as informações que pretendo, sem ter que acumular na carteira infindos e desagregados talões, cedidos por cada operação realizada, caso assim se deseje (esta, uma funcionalidade apenas introduzida há uns anos).
Dois items do meu dia-a-dia que mais não são do que isso mesmo - Everyday Stuff!


O meme foi também encaminhado para a Mariana e para o Ricardo.


terça-feira, janeiro 08, 2008

Os Clássicos também fumam


De Francisco José Viegas n' A Origem das Espécies

domingo, janeiro 06, 2008

E piu se muove!

Porque à evidência o continua a ser...

Ao toque continua quente e reconfortante...

Ao cheiro, aromatizado...

Ao sabor, o que cada um, LIVRE nos seus sentidos, puder apurar!

Também à Pena Suave.

quarta-feira, janeiro 02, 2008

A tertúlia





"Nos cafés dou de beber à poesia..."
Couto Viana


Onde ficará agora o tempo em que, no fumo de um cigarro, o ligeiro discorrer e a cúmplice partilha fraterna de motes e glosas, de ideias e impressões marcavam as notas indeléveis de uma boa tertúlia?

Ficámos certamente mais higiénicos e a respirar um ar dito mais "puro", mas perdemos definitivamente o toque e o engenho de uma liberdade que marcou uma geração de pensamento livre, cuja imagem de marca residia, precisamente, nesse gesto de acender um "Definitivo" ou um "SG Ventil".

Abram agora alas para galões e bolos fat-free, porque já nem a cerveja será de bom tom pedir! Abram agora alas para gente saudável que apenas bebe suminhos de fruta, com um semblante de falsa santidade e insólita virtude.

A poesia, essa, procurará outros lugares onde beber, onde correr.



Post publicado também em Pena Suave

terça-feira, janeiro 01, 2008

O bar




O melhor Bar da Figueira da Foz, onde as caipiroskas e o Dry Martini têm um significado especial.

O lugar onde receber o novo Ano se torna um ritual de bom gosto, repleto de intensa cumplicidade.

Perfumaria Bar, na Figueira da Foz - para quem gosta de Pub's e sabe apreciar bons momentos.

sábado, dezembro 22, 2007

Lista de Presentes

A esplanada junto à Catedral encheu-se de iluminações festivas, enfeites dourados e vermelhos, e pôs toalhas de pano em tons de verde escuro sobre as mesas.
Neste contexto e respondendo ao mote lançado pela Mariana, entrego-me de bom grado a esse pequeno prazer de muito bom gosto que é elaborar uma pequena lista de prendas mais ou menos impossíveis de receber.
Temos assim o seguinte Top10:

1. Um casino nas Caraíbas, com um contrato de exploração a sessenta anos;

2. Um CRN Navetta 43, iate;

3. Um T3 em Montecarlo, em condomínio fechado, com piscina;

4. Uma réplica em tamanho real de um Viper da primeira série da BattleStar Galactica;

5. Um jantar para a Mariana com a Kate Mulgrew, no Don Cesar em Cap d'Antibes;

6. Uma noite para duas pessoas no Palácio de Versalhes;

7. Uma visita à Estação Espacial Internacional;

8. Um caderno de esboços de Raphael;

9. Um dos livros de apontamentos de Leonardo Da Vinci;

10. Um Jaeger-LeCoultre Reverso.

E assim se vai passando o Natal na esplanada.

Mas, cumpre-me dizer que, na verdade, a melhor prenda que podia receber, nesta mesma linha de excentricidades, seria, precisamente, poder oferecer um Austin-Martin DBS a quem eu muito bem sei.

Outra lista do género em: Ricardo

sábado, dezembro 01, 2007

Ser Portugal... outra vez!!!



"Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!"
Fernando Pessoa


E na madrugada do amanhecer que se aproxima vou tomando como certo e seguro que ele será, um dia, o mesmo de há 367 anos atrás.

Que em todos nós haja um Bandarra.

Que, a bem deste Reino, a verdadeira Restauração não tarde!

Pois falta, mais do que nunca, cumprir Portugal!

Viva El-Rei! Viva Portugal!

segunda-feira, novembro 26, 2007

Olhó Foguetão!


E se nesta esplanada à beira da Catedral a nostalgia assume um mote para várias reflexões - sendo a palavra "revivalismo" uma das mais frequentemente escritas -, é altura para, em jeito de levíssima crítica musical, deixar aqui nota da melhor "cover" que alguma vez ouvi de uma música que nos "eites" fez o seu sucesso - apoiada por uma legião de fãs, que viam, na extravagância do artista, um sinal de modernismo e excentricidade snob, um ícone da melhor "pop art".
"Dreams in Colour" de David Fonseca é o disco, e o clássico "Rocket Man" de Sir Elton John, uma das suas faixas.
Com arranjos excelentes e a transpirar uma atitude muito mais descontraída do que o original, este é um tema que apetece ouvir várias vezes seguidas.
Aqui fica a sugestão.

terça-feira, novembro 20, 2007

Star Trek Enterprise - Um post, uma review geek



Respondendo ao desafio da Mariana, cumpre, pois, neste momento fazer a minha própria review acerca de mais esta série baseada e inspirada na visão de Gene Rodenberry - para mim, o Autor de ficção científica mais completo de todos (e atenção, eu cresci a ver a Galactica!).
Ao pegar no enredo que ficou em aberto no final de "Star Trek - First Contact", esta série procura relatar como foram aqueles primeiros tempos de verdadeira exploração espacial - as únicas fronteiras (para além do espaço - a última fronteira), a barreira da velocidade Warp 5 e um certo atraso científico com implicações na táctica de combate e na eventual força de persuasão, a que estamos habituados, mercê da mais finíssima tradição da Star Fleet.
De facto, e entrando na substância do desafio, uma das coisas que me faz mais "espécie" nesta série é o facto deste modelo de nave não ter escudos deflectores. Ao invés de tais escudos, o que parece haver - e já é bem bom - é o mecanismo de polarização da armadura do casco.
Por outro lado, não consigo entender como é que a tecnologia das armas de "phaser" está ainda tão pouco desenvolvida ao ponto de apenas existirem apenas dois canhões subdimensionados relativamente ao tamanho do disco da nave, para fazer face a situações de combate em que o nível de proximidade e as exigências de reacção podem ser elevados.
Na verdade, tenho para mim que tal opção conceptual não beneficiou em nada uma certa visão acerca do avanço científico a que supostamente se teria chegado no final do séc.XXII, em muito devido à cooperação dos Vulcanos.
Mas, olhando para aspectos mais mundanos da série, há coisas a que achei piada:
1. A tripulação está sempre a comer!
Quem vir os episódios da primeira época todos seguidos, não poderá deixar de constatar que há sempre várias cenas passadas na messe dos oficiais e na sala de jantar privada do comandante, relatando lautas refeições que não são nem confeccionadas por algum bonacheirão Neelix (Star Trek Voyager), nem fornecidas pelos replicadores (este outro pormenor a que também me custa habituar - a inexistência daquelas maravilhosas consolas, às quais basta apenas pedir o que se quer beber ou comer).
2. Gosto dos quadros que estão na sala de prontidão do Comandante Archer.
3. A nave tem qualquer coisa de "vintage" em tudo quanto é estrutura, equipamento, sem prejuízo dos reparos mais técnicos que acima fiz.
4. A Primeira Directiva é ainda algo em fase de idealização, o que torna muito mais densas todas as considerações morais e políticas, que, de certo modo, se encontram presentes em todos os enredos de Star Trek.
5. O relato dos primeiros contactos com civilizações como os Klingons e os Ferengi e outras tantas - umas que virão a fazer parte da Federação, outras que lhe oferecerão sempre luta.
No que toca ao genérico, a banda sonora é demasiado neo-romântica para o meu gosto, preferindo muito mais o tema sinfónico presente no "Star Trek Voyager" ou mesmo em "Deep Space Nine".
Contudo, a partir do momento em que escolhem o Scott Bakula para o papel de Jonathan Archer, tal escolha musical torna-se, de certo modo, compreensível... A impulsividade inusitada bem como um certo dramatismo teatral e ingénuo não se compaginam de modo nenhum com as minhas preferências.
Na verdade, para quem cresceu a ver personagens firmes e decididas como Jean-Luc Picard, William Riker e Kathryn Janeway, apenas pode ficar com uma impressão: o comandante Jonathan Archer fica muito aquém de qualquer um deles!
De qualquer modo e para finalizar, penso que o "Star Trek Enterprise" é uma série que, na onda de revivalismo que por aí anda na moda, apresenta uma proposta coerente no preenchimento de tudo quanto ficou por contar após o legado de Zeffrin Cochrane.
Entre a realidade e a utopia, este é um "post" verdadeiramente geek. Só para conhecedores!

terça-feira, novembro 13, 2007

Desculpe, tem um euro... ou cinquenta cêntimos?

O que hoje trago à conversa é mais um item da minha lista de pequenos ódios urbanos que de há uns anos para cá venho alimentando: detesto que me peçam trocos!!!
E se repararmos é algo que acontece constantemente, seja em quiosques, tabacarias, supermercados, barbeiros, frutarias, mercados de peixe e verduras, padarias e outros estabelecimentos comerciais do género.
Na verdade, tenho para mim como certo que o facilitismo inerente a esta alta ciência matemática merceeira é um verdadeiro instituto Luso. De facto, a memória que guardo das minhas ainda parcas deambulações pelo Velho Continente e pelo Mundo dá-me conta de que nunca fui confrontado com tais solitações.

Seja para comprar um jornal, bilhetes de autocarro, pão, coisas de supermercado, seja para pagar um café ou uma água, o resultado vai sendo recorrente: estendo uma nota de cinco, dez euros, para uma conta que envolverá sempre um cálculo mais complexo e tenho o funcionário que me atende a perguntar à socapa, mas com um ar muito consternado, se "por acaso não (tenho) um euro ou mesmo cinquenta cêntimos... ou cinco!".
Resultado: sou obrigado a abrir de novo a carteira para satisfazer tal desejo de facilitar os trocos. Tudo porque sempre "dão muito jeito"! De indivíduo com dinheiro - que apresentei para pagar o que devo -, passo de novo a uma situação de devedor de que eventualmente poderá não haver saída. Sim, porque se houver coragem o sujeito(a) que estiver a atender insistirá na sua carestia de moedas.

E quando se chega a uma solução de consenso, os resultados ainda são mais caricatos: já me aconteceu por diversas vezes, ver o dinheiro que tenho a haver substituído por pastilhas elásticas que nunca pedi, que nunca quis mastigar, nem deitar fora, nem nada, mas que perfazem, de algum modo, a quantia em dívida!

Até poderia aceitar a falta de trocos como um problema crónico do nosso comércio, mas logo que a caixa registadora é aberta, a mais das vezes, tal mito - também usado como argumento - desfaz-se por completo.
Nunca eu tive tantos trocos no meu mealheiro como têm aquelas caixas, ali fartas que nem porcos de loiça com ranhura!
Enfim, a lógica medieval ainda vai valendo nestes nossos burgos. A bolsa só é "gorda" se estiver carregada de dobrões!!!

De uma coisa, no entanto, pode haver certezas: nunca nesta esplanada se ouvirá: "Desculpe, por acaso não tem um euro... ou cinquenta cêntimos?"



Nota: Este post serve também como um desafio lançado a Ricardo José.



domingo, outubro 28, 2007

N' A Latada à Bolonhesa



E na passada Sexta-feira foi assim! Dois excelentes concertos - David Fonseca e The Gift - deram o mote para uma noite fantástica de boa música, bom gosto e momentos plenos de sentido!

Mais um ano, mais uma Latada; para Caloiros, Doutores e Antigos Estudantes - sim, porque quer se queira quer não a Festa, continua a ser da Academia!

De facto, a noite teve isso tudo, mas pecou por defeito num aspecto, talvez apenas estético, talvez apenas mais querido de quem já não trilha esse Caminho e dele sente nostalgia.

Contudo, não podia deixar de trazer aqui à conversa a constatação que fiz, enquanto assistia aos concertos.

Ao ser uma festa de Estudantes da Academia de Coimbra e estar precisamente habituado a uma certa cor local que sempre marcou a diferença, foi com alguma tristeza que me dei conta de que se contavam pelos dedos aqueles que vestiam Capa e Batina.

E a chamada para o "encore" das bandas? Parece, afinal, que já lá vai o tempo em que, a plenos pulmões, da multidão ecoava um clamor colectivo.
As bandas, ao ouvirem "Briosa" sabiam o que lhes aguardava - mais uma subida ao palco e mais um bom bocado de música.

Desta vez, acredite-se ou não, não ouvi "Briosa" uma única vez. E quando nos atrevemos a fazê-lo, olharam para nós como se fôssemos uma espécie de estrangeiros ou coisa do género.

Bolonha veio para ficar. Bolonha parece marcar uma nova era, onde novos graus de praxe se misturam com um cenário mais adequado aos "Morangos Com Açúcar" e a uma futilidade irresponsável de a quem pouco ou nada foi exigido, reinando a ignorância acerca de uma coisa, agora "antiquada", chamada Tradição.

Enfim, valeu a música nesta Latada à Bolonhesa!

quarta-feira, outubro 24, 2007

Um Ano, um dia na Esplanada

O tempo passa... Ainda que mais devagar nesta Esplanada, onde a intenção, essa, permanece.

O lugar onde o que interessa são as ideias e as conversas;

O lugar que não procura qualquer cânone regulador;

O lugar onde se fala de tudo e onde a arte de criar encontra o seu solo sagrado;

Esse lugar é aqui, junto a uma Catedral - mas que nada quer ter que ver com ela (apenas se procura respirar a sua história);

Esse Lugar fez, por estes dias, um ano. E um ano corresponde aqui a um dia.

Venha o segundo dia! Não há qualquer encerramento para descanso do pessoal.

Um café e uma Perrier, por favor!

quarta-feira, outubro 10, 2007

PORTUCALE

E mais um 5 de Outubro se passou, desta vez a proporcionar um fim-de-semana prolongado, que calha sempre bem para se ir descansando, ou, então, como foi o meu caso, para ir sofrendo as tradicionais maleitas do início de Outono (que incluem nariz entupido e muita tosse).
De uma emblemática varanda na Capital, ecoaram os discursos do costume, tentando dar alento e um "fashion look" a ideias, propostas e desígnios que até nem precisariam de muito para se manter actuais, porque ainda em dívida.
A "utopia" de alguns, resulta claro, não se encontra hoje cumprida.
E, por aqui, sempre se dirá que da tal varanda, afinal, nada se ouve, nada se entende.
Contudo, o que por aqui me traz à esplanada terá certamente que ver com outras celebrações que não as relativas à Implantação desta República.

Na verdade, é com um sentido de protesto claro que me venho interrogando:

Por que raio todos nós, enquanto Nação, Povo, País, nos esquecemos que também esta data marca uma Ideia muito mais Antiga e Fundamentante? Que realmente definiu a nossa Essência?

De facto, e segundo a communis opinio dos historiadores, também a 5 de Outubro, mas de 1143, El-Rei D. Afonso Henriques (já assim se tinha auto-proclamado em 1140) assinava, com Afonso VII de Castela e Leão, o Tratado de Zamora, o nosso primeiro instrumento de direito internacional público e também o documento tido como fundador da Nacionalidade Portuguesa.
Num leve, mas veemente, desabafo vou dizendo: seria de bom senso e bom gosto que se atribuísse a dignidade e o real destaque que tal acontecimento, ainda que mais vetusto (e, porque não, por isso mesmo, mais valioso) merece.
E quem sabe se ao procurarmos o Caminho que nos foi deixado há mais de oitocentos anos, não encontramos o verdadeiro Rumo que esta nossa jovem Coisa Pública deve tomar?

quinta-feira, outubro 04, 2007

Free Burma!

quarta-feira, setembro 19, 2007

Verão

O Pico, visto do Faial, junto ao Peter Café Sport, Agosto de 2007

Apenas me ocorre dizer em jeito de recordação e saboreando o gin bebido ao final da tarde:

Já lá estávamos antes de chegar e ainda lá ficámos depois de ter partido.

Até à volta!


terça-feira, agosto 21, 2007

Silly Season II

Ilha de Faro
versus
Ilhas Faroe

segunda-feira, agosto 20, 2007

quarta-feira, julho 25, 2007

Literatura de Buvete


Milan Kundera foi um autor que conheci em idade relativamente jovem e, desde aí, tenho vindo a ler com interesse e prazer os seus romances.


Herdeiro de um pensamento condicionado por uma geografia política que moldou hábitos, estilos e percepções de vida diferentes - assentes, lá está, no dualismo imposto por um Muro -, Kundera é um mestre no que toca à sátira dos costumes, à reflexão sobre as paixões e os dramas humanos.


A cadência da escrita, o estilo, as considerações filosóficas, tudo isso contribui para uma obra sólida, coesa e que vale a pena conhecer.

E lembrei-me de Kundera para sugerir uma leitura agradável, ainda dentro do tema de conversas que se vão ouvindo nesta esplanada.


Na verdade, a trama de um dos romances mais hilariantes deste exilado Autor checoslovaco (sim, ainda checoslovaco), passa-se precisamente numas... TERMAS da Europa Central.


Assim, à beira da Catedral e no Buvete de umas quaisquer termas de Portugal, lê-se "A Valsa do Adeus".

terça-feira, julho 24, 2007

Termas III



Nesta esplanada, onde também se vai pedindo "uma água fresca, fáxabor", não nos podíamos esquecer das termas mais emblemáticas de Portugal.

Próximas da mata do Buçaco - um local também muito engraçado - damo-nos conta, pela visita à página, que estas termas são das poucas que ainda se mantêm fiéis à imagem clássica, desprovida de quaisquer eufemismos ou pretensiosismos espúrios.

De facto, pela consulta feita aos tratamentos disponíveis não temos cá Banhos de Vichy nem massagens de lodos nem algas.

Temos tratamentos para a sinusite e ginástica em piscina termal, isso sim!

Embora seja certo dizer que cada estância termal está destinada a certos fins terapêuticos, definidos em função das propriedades químicas das suas águas - que diferem de localização para localização - também certo será que, pelo conceito, do modo que é dado a conhecer, estas termas seguem uma linha muito mais sóbria.

Na verdade, nem de outra forma poderia ser. E falo por experiência própria. Não há nenhum glamour no tratamento de uma coisa tão aborrecida e inconveniente como a sinusite.

Por outro lado, a própria vila do Luso tem um toque vintage bem preservado - com o Grande Hotel a dar a cor local - que seduz qualquer nostálgico da série "Poirot".

E, depois, é agarrarmos nos garrafões vazios que vamos guardando em casa (eu por mim, detesto esse hábito) e rumarmos, com o povo, todos juntos, até às fontes públicas do Luso para os encher.

Como era o slogan? Água do Luso tão natural...

segunda-feira, julho 23, 2007

Termas II




E de S. Pedro do Sul, podemos sempre partir rumo à Curia, uma pacata vilória aqui da zona de Coimbra, de que eu sempre ouvi falar na minha infância como destino para o tal turismo sénior, retemperador das maleitas já aludidas no post anterior.
Contudo, este é um sector do turismo tuga que realmente está a mudar.

Resta saber se para melhor. Senão vejamos:

Se em S. Pedro do Sul, o que estava a dar era o D. Afonso Henriques trocar a sua armadura por uma bela toalha (relembrando todas as implicações inconvenientes que daí podem advir, devido a associações de ideias inevitáveis) e tratar as maleitas das batalhas, com o afamado banho de Vichy, o Spa - que é agora o nome moderno dado a estes locais pelas pessoas bem e de sucesso (mas também com um toque de novo riquismo bacoco) -, sito na Curia, propõe um tratamento de lodos e algas para a pele.
Por sessenta euros (doze contos de reis, caramba!), o termalista (palavra tão gira como campista) - ou agora será "spalista"??? - vê-se coberto por várias camadas do bom lodo viscoso que costumamos pisar no fundo das ribeiras e dos rios (coisa boa!), na promessa de uma pele que, em vez de suor, transpirará saúde, beleza e graça... E ainda tem direito a uma massagem de relaxamento!

E pronto... C'est trés chic! Ou não...

É que eu gostava de saber onde é que ficou aquele hábito muito mais saudável de ir para o buvete e estar ali a beber aguinha e pensar na vida. Para quê inventar tanto??? Para quê tanto elitismo apropriador?

Definitivamente, continuo a achar esta onda fashion muito abichanada!

quinta-feira, julho 12, 2007

Termas


Sempre tive a ideia de que passar uns tempos nas termas era para pessoas com um sortido de maleitas que normalmente vêm com problemas alérgicos ou então a consequência natural de um sossegado envelhecimento em que o que apetece mesmo é gozar os rendimentos que a reforma vai dando, depois de uma vida de aturado e árduo trabalho, que, não raras as vezes, sempre demonstrou alguma ingratidão para com o espírito e o corpo.

Contudo, as novas termas de São Pedro do Sul parecem ser algo de diferente.

Na onda dos spas, o Balneário D. Afonso Henriques (se ele soubesse que ia ficar associado a uma coisa tão abichanada... ai, ai!!!) oferece momentos de salutar lazer para todos aqueles que se lembram que têm de começar a ser saudáveis apenas nas férias.
Num qualquer acompanhamento ao mito metro-sexual, agora muito na moda, podemos dar-nos conta de que o banho de Vichy é supostamente uma experiência verdadeiramente única - quanto mais não seja pelo nome mais ou menos, digamos, "alegre" que tem.
Enfim, numa alternativa aos destinos tropicais, é só seguir até Viseu e consultar o Tom-Tom para o resto.
O sítio deve ser fácil de encontrar.

terça-feira, maio 29, 2007

A Banhos


O quarto de banho terá bidé?
Na praia da Figueira da Foz, 26 de Maio

segunda-feira, maio 07, 2007

Meteo


E para o Dia de Cortejo, Coimbra espera uma temperatura de vinte e graus, com céu limpo e vento a soprar fraco a moderado.


Segundo informações colhidas à beira da telefonia, Santarém será a cidade mais quente do País, enquanto que no Cairo estarão outros vinte e seis graus.


Vai-se falando do tempo à beira da Catedral. Enjoy the Sun!

terça-feira, abril 24, 2007

Estava eu em Coimbra...

Na véspera de mais um feriado comemorativo, à beira da Catedral vai-se falando desse dia em que cada um, à sua maneira, disse "Presente" e escolheu o seu lado da barricada.

Muitas estórias, peças da grande história que se escreveu, poderiam aqui ser registadas.

Por exemplo, o caso do Engenheiro Agrónomo Almerindo Lacerda, afilhado do Senhor Almirante Thomaz e comandante da Companhia de Atiradores 5, de '62 a '70, Guiné Bissau, que se encontrava, nesse dia 25, na casa de férias do seu tio Luís Manuel, na Praia das Maçãs e que começou por pensar que o golpe era da Direita.

Ou então o relato do Paulo Costa, soldado do Batalhão de Transmissões 10, dos anos de '68 a '72, que tinha visto o seu Sargento Lopes a ser despedaçado por uma mina, numa qualquer picada em Angola e que também se tinha levantado cedo nessa manhã para se apresentar ao serviço na empresa de mudanças do seu tio Alberto.

Ou ainda o da Maria Celeste, estudante do sétimo ano dos Liceus, natural e residente em Setúbal e madrinha de guerra do seu primo Toni.

Contudo, há um relato curioso, que vale a pena ser contado. O relato de uma estudante de Coimbra, uma resistente silenciosa, que, embora não entendendo muito de política e de activismo, suspirava por uma lufada de ar fresco que ia tardando. Não gostava daqueles senhores de óculos escuros que entravam no Pigalle ao mesmo tempo que ela, que pareciam também gostar de jogar matraquilhos no Moçambique, mas que permaneciam sempre sentados, sisudos e sérios.

Por sinal, tudo tinha começado depois de uma das suas amigas ter assobiado, em jeito de inocente brincadeira, para os cães errados, que latiam no edifício em frente à sua residência, na Antero de Quental. Enfim... Não obstante ter sido abordada na noite do mesmo dia em que ocorreu tal precalço quasi-sacrílego, a nossa ora protagonista nunca terá visitado as tais instalações da Direcção-Geral de Segurança.

Por acaso, quando era mais nova, ouvia o seu pai, de vez em quando, comentar com a sua mãe que aquele seu amigo, ex-presidente da Associação Académica, tinha sido novamente preso pela PIDE. Desde esses tempos, que não tinha ficado a gostar daquela "força de segurança".

Noite de 24: No quarto de beliches e cama individual, esta nossa estudante tentava perceber alguma coisa de Economia, enquanto as suas colegas se concentravam em volumosas sebentas de "Fisiologia do Sistema Nervoso Central" e "Introdução à Lógica Aristotélica" ou outra coisa do género - tudo ao som da música que ia passando na telefonia.

Já a noite ia quase no seu termo, e os livros ainda a meio, quando a Emissora Nacional concede essa pérola a todos os seus estimados ouvintes: "E agora, convosco, o representante de Portugal no Festival da Eurovisão, Paulo de Carvalho, com o tema 'E Depois do Adeus'"... Era uma música de que elas gostavam, tal como gostavam do Zeca, que não se ouvia tanto...

Passado pouco tempo, a nossa estudante e as suas duas companheiras de quarto (ambas nascidas e criadas no Brasil) fecharam as luzes e deitaram-se.

Manhã de 25: "Mininas, Mininas, um golpi d' istado!!!". Era uma das suas companheiras de quarto que entrava no quarto, num estado de agitação invulgar para aquelas horas da manhã.

A nossa estudante, tentando tirar a cabeça da almofada, apenas pergunta, ainda bocejante: "Mas o que é que é um golpe de estado?"

Pouco tempo depois, saem do quarto, já vestidas, curiosas, expectantes, correndo logo para junto das pias Irmãs Religiosas, as guardiãs daquela residência, numa tentativa de recolher mais informações sobre o que realmente se estava a passar.

Ao que parecia, os militares tinham-se revoltado novamente, como há coisa de um mês atrás nas Caldas da Rainha... Só que desta vez a coisa parecia mais séria. O Senhor Presidente do Conselho e o Presidente da República estavam cercados no Quartel do Carmo em Lisboa.

Logo de seguida, correram para as arcadas do jardim da residência. Em frente, na rua, a turba ia aumentando em gritos de guerra... estudantes, na sua maioria, mas também imensos futricas...

A sede da PIDE estava cercada por militares. Carros eram virados, pedras eram lançadas a muitos dos tais indivíduos que agora já não tinham óculos escuros nem aquela pose de inquisidores silenciosos... Muitos tinham era a cabeça partida, fruto de uma mais violenta e certeira pontaria, qual acto de catarse retributiva de alguns que ali dentro se encontraram de frente com a mais sombria mão pesada e enluvada do regime.

A nossa Estudante continuava perplexa... Nunca tinha visto nada assim... De início, não sabia muito bem o que fazer, mas depois preferiu optar pelo silêncio, pelos comentários discretos... Apenas mais tarde se deixou levar pela onda dos comícios - foi a todos - do entusiasmo voluntarista e prenhe de utopias.

Contudo, no mais profundo do seu Ser e Sentir, viveu, logo ali, um Triunfo... O Triunfo de um novo Começo!

Pelo menos, o que estivesse para vir teria de ser bem melhor do que até aí fora. Os seus desejos eram os mais simples e, sim, os mais Puros!

Esta é uma estória ouvida na esplanda. Embora alguns dos factos aqui descritos e narrados se tenham realmente passado, outros há que foram puramente ficcionados.

quarta-feira, abril 18, 2007

Quando a Caixa toca...


Estas são imagens recolhidas na Caixa Automática da CGD, em Coimbra, ao pé do D. Dinis.

Para todos os fãs da Caixa, que gostam desta esplanada.

Enquanto levantam dez euros para uns finos e uma nata...

O telefone é que não percebi para que servia...

De qualquer modo, também continuam a existir cadernetas! Vá-se lá entender...

sexta-feira, março 23, 2007

Duran Duran?...

Há pouco, em serão televisivo, a propósito da anabeliana comédia romântica que está a estrear nas nossas salas de cinema - o "Music and Lyrics", com o Hugh Grant e a incompreendida Drew Barrymore (a menina que aparentemente ficou mesmo traumatizadinha para o resto da vida, em virtude de um tal de "ET" que se instalou em sua casa e que tinha um duvidoso e luzidio dedo indicador, mais próprio para um toque rectal do que para ter piada) - ouvi um comentário engraçado: o revivalismo dos anos oitenta está aí!

Bem, estes eram os nossos anos oitenta... Ou, pelos menos, os mais Pop - como os Ban gostavam de cantar!

Por certo, a fazer lembrar "Rio" dos Duran Duran, mas muito, muito, muito mais nosso! Upa, upa!

Muito antes do Dan Brown, já este grupo era um verdadeiro código! Mas não de bom gosto...

quinta-feira, março 15, 2007

Uma Perrier, por favor!





Em Nova Iorque há um restaurante, onde, além da carta de vinhos, existe uma carta de águas.

De há uns anos para cá que me venho interessando por esta marca.

Em Roland Garros, a Perrier é a patrocinadora oficial do torneio;

Para Hemingway, é a sparkle que se mistura com Hague.

Quanto a mim, gosto dela simples, bem fresca, embora com um excelente James Martins de Vinte Anos - em copo de fino vidro raso e duas pedras de gelo, à sombra de um abrasador e estival sol alentejano -,também seja excelente.

Na esplanada, alguém pede: "Uma Perrier, por favor!"

quinta-feira, março 01, 2007

O Conde Olavo - parte I (continuação)



E dos mesmos autores em Story Squared. A trama continua:


«O conde tossiu ruidosamente, prenunciando aquela ligeira comichão na ponta do nariz a pingar, indiciadora de um iminente ataque de espirros. O cheiro a clorofila daquela estufa quase morta, empoeirada e cheia de fungos a isso convidava naturalmente.
"A Senhora desce já, senhor Conde", disse a empregada ao entrar na estufa vinda da lúgubre sala de jantar, pintada em tons de verde escudo e com móveis de estilo "Renascença", já carcomidos por séculos de pesarosas heranças familiares.

O Conde acenou sombriamente, lançando o seu gélido olhar para Benedita que começou a sentir estranhos arrepios. Este sujeito provocava-lhe um sentimento de medo tal que muitos dos seus frequentes pesadelos o tinham como personagem predominante e principal.

Ao sacar do seu argênteo relógio de bolso, prenda do seu severo pai aquando do seu exame final da instrução primária, o Conde começou a calcular mentalmente o tempo do percurso das suas duas amigas que tinham ficado de vir ter a casa da senhora Felisbina. Muito do seu sucesso nesta nova empresa dependia das prodigiosas capacidades dramáticas dessas duas senhoras tão pias e tão castas.

Deviam estar para chegar... Hoje era um excelente dia, ainda que persistindo o incomodativo eco do relógio de cuco, causador de uma noite insone. Hoje era um excelente dia, pois era o início de uma nova conquista e isso, para o Conde Olavo, tinha sido sempre motivo de grande entusiasmo. A campainha voltou a tocar. "São elas" - pensou, sentindo um doce conforto no peito.»

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Na praia de sempre

Para ver e ouvir. É um clip. O resto é para quem sabe...

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

O Conde Olavo - parte I


Esta a primeira parte de uma estória a duas mãos que vai fazendo jorrar alguns bons rios de tinta virtuais em StorySquared.

"Naquela manhã chuvosa, o Conde Olavo acordou mais mal-humorado do que era costume... tinha dormido mal durante a noite inteira.

O relógio de cuco pendurado na parede do seu sombrio e exíguo quarto, atulhado de papéis amarelecidos pelo tempo e pela antiguidade, tocou a todos os dez minutos durante a uma e as oito da manhã!Por entre lamentos e pigarreios, o Conde lá se ia revirando na cama, tendo tomado a decisão de não se levantar por uma questão de orgulho e claro masoquismo. Não se renderia àquele pássaro estúpido de madeira, ponderando de modo resoluto a hipótese de lhe dar o devido "tratamento" no dia seguinte, com a ajuda de um sábio e prudente martelo!

E logo nesse dia que tinha tanto para fazer: da parte da manhã devia encontrar-se com as senhoras Hermengarda e Isolda, pias e castas viúvas nos seus portentosos sessenta e cinco anos de idade, em que a beleza era benevolamente emprestada por umas pitadas bem medidas de um rouge com cheiro a arroz empacotado num bafiento pacote e por um batôn rançoso, que tinham comprado em Paris há mais de vinte anos!
Para a tarde o Conde guardava a melhor parte do seu novo projecto audacioso, para o qual contava com a ajuda destas duas amigas.

Tudo começaria por uma ida a casa de Alberto e Ana, dois gémeos de dez anos, que tinham perdido os seus pais há pouco tempo e que estavam ao cuidado da sua avó, velha conhecida do Conde Olavo, com quem mantinha sólidas relações de amizade.

Conde Olavo chegou a casa dos gémeos a meio da manhã, hora cuidadosamente escolhida para poder ser convidado para o almoço que lhe daria a oportunidade perfeita para tratar dos negócios com a Dona Felisbina e conhecer os petizes.
Ao tocar a campaínha colocou o seu ar de pêsame combinado com um tímido sorriso paternalista que, segundo ele, iria tornar a transição muito mais suave.
A porta foi diligentemente aberta pela criada dedicada, a Benedita, cujo único traço físico digno de nota era uma portentosa verruga no queixo.
- Bom dia, senhor Conde. A senhora e as crianças esperam-no no jardim de Inverno. - disse Benedita com a sua voz esganiçada, enquanto tomava conta da cartola e do casaco fossilizado do conde.
- Bom dia, Benedita. Explêndida manhã, não é verdade! - há semanas que não parava de chover - Deixe-se estar que consigo orientar-me sozinho - e encaminhou-se em direcção ao jardim.
A estufa teria sido, tal como o resto da casa, um local aprazível que tinha entrado em declíneo há muito. As plantas, em tempos coloridas e viçosas, definhavam raquíticas nos seus vasos; a mobília de verga estava preta por causa dos ferozes ataques do bolor; e circulava no ar um cheiro a morte iminente."


A Excelente Cúmplice: marianapcosta

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

And now the Solution!

"A shrubbery?" - A solução! Parabéns Olavo Lupia e Sub-Lodo (espero que dê agora para deixares o teu precioso e sábio comentário). Um mote carnavalesco para todos os convivas desta esplanada.

terça-feira, fevereiro 13, 2007

O Caminho Do Bosque


Na prudente, imaginativa e inspiradora orientação do grande ELC, trago um pouco "a água ao meu moinho" e para hoje proponho este post enigmático.

Há Demandas que valem a pena pelo Prazer da Descoberta!

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Anabela e o seu casaquinho de malha



À mesa da esplanada, sentou-se Anabela... Tinha chegado há pouco do serviço - era secretária de administração do senhor Manuel, empresário, anafado e cardíaco - e costumava fazer aquele caminho todos os dias, parando para beber um néctar de pêra, num escrupuloso recato submisso e transbordante de uma castidade e virtude tão profundas que chegavam a deixar dúvidas quanto à sua genuidade.

Mas Anabela era assim... Pouco faladora e comedida nas suas aparências, prestando culto a uma timidez que roçava um ressabio bacoco e uma inusitada antipatia.

Quem a não conhecesse bem poderia dizer: "Ora aqui está um belo exemplar de 'bicho-do-mato'!". O que também em parte corresponderia à verdade.

De facto, Anabela vivia nos arredores da cidade, à beira da A1, num lugar pacato, com igreja, adro e cafés domingueiros, onde a "malta jovem" se gostava de reunir com os mais velhos, a fim de discutir bola, carros e velocidade, acompanhados por "finos" e "imperiais" bem frescas ou, então, qual testemunho de uma idade mais séria, generosas "selhas" de tinto da adega do senhor Martins - industrial hoteleiro, proprietário do snack-bar "Belami".

Anabela viveu em casa dos seus pais até aos dezanove anos.
O seu lar paterno era uma bela moradia, construída pelo senhor Lopes e a dona Amélia, com os proventos desses árduos e difíceis tempos passados na Suíça, a trabalhar como vigilante nocturno numa central de camionagem e a servir às mesas de um restaurante português, à beira da estrada para Neuchatelle, respectivamente.
A obra arquitectónica era uma "maison-tipo-chalé", pintada de branco, com portas lacadas no mesmo tom, janelas de um bom alumínio - com vidro duplo - e - "la pièce de resistance"- uma escadaria lateral exterior, revestida a azulejos verdes - os mesmos do quarto de banho do primeiro andar, que tinha "poliban" com banheira acoplada -, dando acesso directo à cozinha IKEA, recentemente remodelada para este estilo, naquele mesmo piso.

Anabela era uma pessoa sensível e de uma discreta beleza.

Cabelo loiro escorrido - e pintado pela sua vizinha e prima cabeleireira Soraia (tinha conseguido formar-se nesta fina arte, mercê da frequência de um curso do Centro de Emprego, patrocinado pelo Fundo Social Europeu), altura mediana, olhos castanhos e faces redondas.
Os seus seios algo desmesurados e proporcionais a umas ancas que a celulite ia generosamente deslaçando, faziam as delícias do seu patrão e alimentavam algumas das suas mais sórdidas fantasias, assentando-lhes que nem uma luva o conhecido slogan do Chivas Scotch: "ou se tem ou não se tem".

No que toca ao seu estilo: algo entre o já aludido recato e uma discreta sofisticação.

Anabela gostava de alternar o seu guarda-roupa entre o preto, o rosa-pálido e o verde escuro, nunca abrindo mão das suas calças de ganga de cintura descaída, que entravam com esforço.

No seu quotidiano, de mulher emancipada - porque titular de carta de condução (equivalente a qualquer curso superior, mestrado, pós-graduação ou, até mesmo doutoramento) e com um descomunal traseiro que se abanava todo ao sair do seu Clio metalizado -, gostava de usar decotes, que mercê do que já acima foi dito, sempre alimentavam uma utópica promoção, sugerindo a possibilidade de alguma contribuição em géneros à sua entidade patronal, no sentido de apressar o que tardava.
Camisola de gola alta preta, calças de sarja a combinar e um blusão de cabedal, para as suas raras noites de loucura total, em que saía para a cidade com as suas "colegas", no intuito de dançarem as músicas de discoteca, acompanhadas por um fogoso "Carolans".
As botas subiam até aos joelhos cobertos - "boas e baratas", adquiridas nos saldos do "Calçado Guimarães", ali ao Taveiro, no Retail Park.
A insistência neste traje festivo, levantava os maiores reparos sussurados da vizinhança.
O preto era apenas usado convenientemente pelas vetustas e pias matronas de plúrimas verrugas labiais e nasais, numa atitude resignada de eterna dor pelos seus maridos já idos, esquecendo todas as noites de pancadaria por que passaram, de cada vez que eles chegavam a casa vindos tardiamente da taberna.
Enfim... O conjunto era completado pelo fio de prata, mesmo por fora da tal gola alta - um belo e carinhoso presente da sua madrinha, a dona Lurdes, aquando da sua Comunhão Solene. Nunca o tirava.

Contudo, havia uma peça do seu vestuário que era uma constante e uma verdadeira imagem de marca: O CASAQUINHO DE MALHA.
Anabela tinha uma predilecção pela simplicidade, cujo expoente máximo era atingido no uso de três banais casacos de malha fina, a substituir quaiquer pólos ou algo de mais sofisticado - porque de sofisticado já vimos que quase ultrapassava os seus limites, quando envergava o seu traje de noite.
O primeiro, em preto e com pequenos botões brancos de madre-pérola, usava-o muitas vezes, no trabalho, para cobrir os já aludidos decotes, nessa inocente tentativa de impingir aos outros, que com ela se cruzavam, uma ideia de verdadeira pudica.
Um segundo, em tons de verde alface, para andar por casa, passando longas tardes de Sábado com a sua sobrinha a ver compactos seguidos da série "Floribela", com a sua sobrinha Carla Sandra.
A propósito: sempre devemos referir que não era assim tão raro deixar cair uma ou duas lágrimas de verdadeira e gostosa emoção, sempre que aparecia em cena a protagonista desta telenovela para a "malta jovem", uma vez que sentia identificar-se com a personagem.

De facto, é precisamente esta característica de Anabela que nos leva ao terceiro Casaquinho de Malha.
Tal como no Senhor dos Anéis há o Anel Um, também Anabela nutria um especial afecto por este exemplar do seu figurino.
O terceiro casaco de malha era em tons rosa e representava um marco importante na vida da nossa rapariga da mesa ao lado.
Anabela tinha dezoito anos. A noite era de Verão e de romaria em honra de Nossa Senhora das Dores e Queixumes. Tinha ido à festa com os seus pais, membros da comissão organizadora desse ano, vulgo "festeiros".
Naquele ar morno, típico de princípios de Julho, Anabela conversava com as suas amigas, numa roda fechada, quando aparece Tó Zé.
Desde pequenos que se conheciam, visto serem vizinhos. As suas famílias mantinham sólidas relações que passavam por largas sardinhadas e visionamento de jogos de futebol pela Sport TV recentemente assinada.
Desde há alguns anos para cá que Tó Zé vinha dando sinais de corte e alguns avanços a Anabela, que sempre se manteve reservada, pois sabia que ainda não tinha idade nem permissão para namorar. Por outro lado, confiava nas palavras da sua irmã mais velha, Diana (em homenagem à Lady D): "Lembra-te, Bela: os homens são todos uns porcos!".
Diana era mãe solteira e estava empregada numa empresa de serviços de limpeza em Lisboa, proscrita pelos próprios pais, que viam, tanto na sua conduta bem disposta, divertida e ambiciosa (gostaria de ter cursado Letras, para ser professora), como no jeito de expressar uma sensualidade natural, a razão pela qual tinha sido violada, nas traseiras da Escola Secundária. Ela era a única culpada, porque "punha os rapazes atiçados", nas palavras da sua chorosa Mãe.
Contudo, aquela noite de romaria parecia convidar Anabela a abandonar-se à loucura e aceitar o convite de Tó Zé para dançar.
Os "Inovação 6" - excelente grupo de baile, formado por virtuosos do órgão e da guitarra eléctrica, versado em covers dos grandes êxitos da música romântica e do "roque an rôle" - tinham começado a tocar um "slow".
Tó Zé encaminhou Anabela para a pista de dança, improvisada em tábuas, ali no Adro da Igreja e junto à Quermesse - onde se encontrava a sua mãe e mais algumas senhoras respeitadas e devotas.
Anabela lá ia, num andar compassado, de cabeça baixa, com as faces coradas e de braços muito bem cruzadinhos. A sua submissão encontrava nesta postura corporal o mais puro e cristalino reflexo. Aquela seria a noite em que tudo se decidiria.
A música em Inglês (Anabela preferia o Francês, porque sempre dava para perceber as "privates" das suas primas da França) convidava a uma maior proximidade e Tó Zé apertou-a contra a sua barriga descomunal - tal como o resto dele: alto, gordo, cabelo loiriço desalinhado e maltratado; um ar de labrego tal que encontrava o seu maior encanto no facto de ser uma verdadeira "besta" - com cara de mocho -, "muito querida" por todos quantos temiam o seu afectado e pedante mau génio volátil e patológico.
Dançaram o tema e, no final, selaram o seu futuro com um beijo salivante.
O futuro e o casamento, onde o creme de legumes seria a sopa chique, naquele salão de festas de uma empresa de banquetes, ali da Mealhada.
Tó Zé tinha uma casa já feita (moderna, segundo ele, na linha de traça já a seu tempo descrita, mais acima) e emprego certo;
Era agente comercial (um rapaz das entregas, com carro de serviço - o que lhe dava um certo estatuto) da empresa onde arranjou trabalho a Anabela, depois do casamento.
Viviam felizes e sossegados, desde então. Ainda não tinham filhos; queriam esperar.
As noites em que se dispunham a fazer "O Amor" eram vividas numa envergonhada escuridão de urros e grunhos másculos, onde Anabela não tinha qualquer palavra a dizer e onde muitas vezes sentia falta da sua mão, dos seus delicados dedos, que, de todo a todo, eram rotundamente proibidos.
Tó Zé, irritava-se com tal libertinagem: "Aiiii! Vamos lá a ver!... Que é que estás a fazer? Bem..."
Anabela não se queixava e estava contente.
Desde aquela romaria até às mais recentes, insiste em levar sempre o seu Casaquinho de Malha cor-de-rosa, repetindo o mesmo ritual, a mesma postura - até porque, no final de contas, encontra-se acompanhada pelo seu marido, implicando uma atitude de saudável respeito, a fim de evitar olhares indiscretos e certamente cenas da mais sangrenta violência passional, conduzidas pelo sólido e preciso punho calejado do Tó Zé.
De resto, o estilo de Anabela é elogiado pelas amigas, sempre que a encontram ou com ela saem, aquando dos seus eventos sociais: "Fogo! Anabela, tu tens coisas muita lindas! Cinco estrelas!"
Acabado o sumítico néctar de pêra, eterno substituto de um tal de café expresso que tinha sempre em mente tomar mas que nunca pedia (é mesmo só um pretexto para, nas mais diversas ocasiões, romper com a clausura e a rotina), Anabela levantou-se e encaminhou-se para o estacionamento, toda lampeira.
De volta a casa, depois de mais um dia de Sucesso - o seu Casaquinho de Malha Rosa tinha sido, na verdade, o sapato de cristal desta nossa Cinderella (sim porque afinal "ainda há Cinderellas")!

sábado, janeiro 27, 2007

Para quando o segundo volume?

Tardou, mas chegou!

Esta coisa de comentar o direito público tem muito que se lhe diga.

De facto, rezam as crónicas que já um egrégio Mestre Civilista da nossa Casa terá aceite um desafio que, à altura, parecia ser bastante promissor: comentar, numa sábia e avisada cadência, o então recém-nascido acquis do Direito Administrativo pátrio.

A obra lá ia ganhando forma na Revista de Legislação e Jurisprudência... Ao mesmo ritmo com que as tais leis objecto de doutos comentários iam sendo revogadas, republicadas e reformadas.

O nosso Mestre não teria mãos a medir para tanta inconstância. O trabalho começava a sofrer atrasos, desactualizações, tornando-se no mais espúrio exercício de retórica.

Pois bem, um dia, fartou-se.

No seu último artigo sobre a hercúlea tarefa, terá escrito: quando as reformas legislativas cessarem na sua verborreia e no seu furor, eu retomarei o trabalho.

Nunca o fez.

Pois é... O direito público e a sua maleabilidade para as novas ideias, tributárias de uma alternância político-partidária que traz à evidência díspares concepções do Estado e das Instituições, que se perderão mais nos pormenores do que nos verdadeiros direitos e interesses que pretendem consagrar e concretizar.

Enfim... Os pais do nosso Direito Constitucional contemporâneo certamente que de outra arte e engenho se socorreram, procurando uma salutar constância doutrinal, a par das últimas quatro revisões a que a Lei Fundamental foi sujeita.

Para uma leitura de consulta. Um must jurídico, sem dúvida.

sábado, janeiro 20, 2007

Dr. House - A verdadeira história


Por impulso de bravos e já fraternos amigos, fui instado a revelar esta pequena e dramática estória da vida de um homem que um dia jurou honrar Hipócrates.

O médico que vai fazendo as delícias dos seus fãs, nas noites de quinta-feira, na TVI, trocou, nos seus tempos de vida universitária, a John Hopkins Medical School, pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.

Aos dezassete anos, fez-se embarcadiço num arrastão de pesca da Nova Inglaterra - um tal de Andrea Gail (mais tarde naufragado, em jeito de história trágica) - tendo aportado nos Açores nos idos de 1969.

Segundo as crónicas e as plaquetes do seu carro de quarto-anista - carro nº 19 "Sem Remédio", com muita cerveja pilsen -, o emérito Dr. House terá decidido rumar a terras lusitanas para cursar o que ele defendia ser a "Verdadeira Medicina".

Muito antes de Bolonha, a FMUC seria, para este clínico, o verdadeiro Liceu Aristotélico, onde, com método, ordem e muito estudo, se formavam os melhores médicos, os verdadeiros profissionais, peritos nos puzzles médicos e na concretização dos melhores diagnósticos - tudo aspectos onde ele próprio é hoje um mestre.

O seu percurso universitário encontra-se repleto daquelas peripécias que apenas nesta cidade dos estudantes podem ser vividas.

Desde as recitativas missas nocturnas, nas escadas da Sé Velha, tendo por fiel companheira uma bela garrafa d'água "Fastio" ou "Caramulo" de litro e meio cheia do gostoso "traçado" do Pratas, até às serenatas cantadas por esconças ruas dos Olivais - dedicadas a rosáceas e trigueiras tricanas, por quem o seu coração de breve marinheiro ia batendo - Dr. House, na altura conhecido pelos seus pares como o Zé Pesca (em virtude de, por um lado, estar sempre a falar da sua curta experiência, junto do mestre Clooney, nas artes da apanha da sardinha do Atlântico Norte, e de, por outro, querer sempre responder a todas as perguntas formuladas pelos seus professores), Dr. House, dizíamos, teve uma vida de boémia preenchida.

Comensal na República dos Kágados e residente num quarto junto ao Quebra-Costas, House gostava também daqueles pequenos prazeres que passam por ouvir uma boa Canção de Coimbra no silêncio de uma noite de exames de Anatomia I e II.

Na verdade, terá sido em virtude dessa mesma vida nocturna descontraída e levada em jeito brioso, fiel aos mais rigoros valores da Praxe Académica, que ele foi vítima do acidente causador do seu handicap mais característico.

Ora, rezam as crónicas que, em noites vespertinas à Queima das Fitas onde se tornaria estudante finalista e cartolado, House acedeu ao convite de alguns veteranos para ingressar na maior troupe do ano que, nessa altura, se iria formar, espalhando o terror por alguns incautos caloiros que esperavam ter o pior da sua triste - mas também garbosa -, existência atingido o seu termo.

À meia-noite, junto à Porta Férrea da Faculdade de Direito, lá estava ele, um dos primeiros a chegar, com aquele brilho nos olhos, próprio de alguém que vivia com entusiasmo todos estes pedaços de uma existência que sempre ficaria na sua memória como um tempo fora do tempo.

Passados cinco minutos, mercê do seu espírito solícito e cheio de ideias que, segundo ele próprio defendia, "tinham imensa piada" (coisas como formar trupe e sair dali a pé-coxinho), foi mandado calar pelo chefe de troupe.

"Oh Zé Pesca, isto é para ser feito com alguma sobriedade, pá!" - atirou-lhe o bom do Tomásio, veterano de dez matrículas como escolar de leis.

Troupe formada, House eufórico procurava, cantalorando baixinho temas da sua terra natal, tais como aquela muito gira do "Old MacDonald had a Farm", entrar naquele espírito que tanto o fascinava e de que tanto queria fazer parte: sim, ele queria fazer parte do grupo!

Enfim...

Começaram por descer, em passo veloz, a rua fronteira ao Museu Machado de Castro, gritando os típicos impropérios na passagem junto à República dos Corsários.

De súbito, avistaram um rapaz espigadote, junto da tasca do Augusto, que o Tó Luís identificou como sendo caloiro do seu curso - Estudos Portugueses e Clássicos, ou coisa do género (Letras, para todos os efeitos...).

O olhar de pânico do petiz foi confirmado pelo pigarreio de angústia. Seria, pois, naquela noite que, coitado dele, ia perder aquele seu frondoso e longo cabelo que fazia os encantos de todas as moças de sua aldeia, quando o viam actuar no grupo de baile de que era organista?

Ao ter desatado a correr, a troupe de House lançou-se na feroz perseguição. House apenas queria que o chefe decretasse um Ad Libitum, sem apelo nem agravo!

O som das solas dos negros sapatos fazia-se ouvir no empedrado da calçada da descedente Padre António Vieira.

A correria era alucinante! Alguns elementos iam escorregando, levantando-se logo de seguida, sem vacilar.

House empunhava, orgulhoso, a tesoura que lhe tinha sido passada pelo Gomes que já começava a não aguentar o ritmo.

"Estou quase a apanhar-te, caloiro! Estou quase...!" - ia gritando, abafado pela capa negra que lhe cobria o rosto.

Nisto, Maria Rita, estudante de enfermagem, um pouco stressada e já bem disposta, por ocasião da festa de aquecimento para as noites do parque, que estava a dar no seu t1, arrendado a uma bonifácea senhora funcionária dos correios já aposentada (e que a tinha na conta de "menina", conforme ao anúncio afixado nas cantinas), Maria Rita, dizíamos, numa gritaria quasi-orgásmica, é acometida de um sentimento envagelizante.

Isto porquê?

Decide despejar a sua vodka de melão à rua, nessa tentativa filantrópica de baptizar todos esses trovadores que por ali, julgava ela, iam passando para a ver.

O piso tornou-se molhado. Pouco molhado, mas ainda assim...

O caloiro, ofegante, só pensava em chegar à benemérita protecção do seu enfeminado padrinho que se encontrava na Secção de Badmington da Associação Académica, ali mesmo ao virar.

House continuava a sua correria, sem qualquer cuidado. Escorrega na ora pia baptismal de Maria - uma poia de canixe, empapada pela vodka.

Nisto, há algo que lhe sai debaixo dos pés... Sente-se a cair! O caloiro a escapulir-se, a tesoura a bater-lhe na testa.

Acto contínuo, todos os seus companheiros se abeiram dele. O estado do nosso doutor não é famoso. As dores no joelho são lacinantes.

Tinha deslocado e esmagado uma rótula.

Maria Rita ri-se como uma perdida.

Ninguém diz nada até que chega Tomásio.

"ZÉ, TU PÁ... SÓ ESTÁS BEM É EM CASA!!! IN' DA' HOUSE, TÁS A OUVIR?

É o que faz trazer gajos das medicinas, pá!!!"

A troupe foi desmantelada ali mesmo.

House foi encaminhado aos Huc, onde terá sido operado nessa mesma noite.

Na noite da Serenata, já Zé Pesca era conhecido por House, sem uma rótula e com uma canadiana.

Um caramujo, que não sairia senão à porta, para escutar a música que tanto amava.

House formou-se nesse ano e rumou a terras do Tio Sam. Côxo, mas Feliz. Em Coimbra tinha vivido!

Advertência: O Dr. House não está protocolado com nenhum dos sub-sistemas sociais do Serviço Nacional de Saúde português (ADSE, Caixas de Previdência ou Serviços Sociais do Ministério da Justiça)

sábado, janeiro 06, 2007

Um breve tributo ao Bom Gosto... e à Sabedoria


O Jaeger LeCoutre Reversi, marcando preciosos e sedutores compassos de tempo, o gosto pela arte, pelo belo, pela velocidade e pela aventura...

O puro prazer em poder desfrutar de obras-primas, ilicitamente tomadas como suas, na solidão de um estúdio soberbamente mobilado...

Um estilo de vida invejável!

E tudo isso, soube deixar para trás para provar e viver um sentimento antigo...

A única Demanda que valerá a pena, por certo!

Um DVD que merece sair da prateleira, sem dúvida!

segunda-feira, janeiro 01, 2007

Anno Domini 2007


Porque o Amor é intemporal...
E assim que o encontramos na sua forma mais pura, queremos vivê-lo para sempre!!!
Feliz Ano Novo!!!