terça-feira, janeiro 06, 2009

O meu Balanço de 2008


Um dos rituais a que já nos habituámos por esta altura, nas televisões, nos jornais e na net, é o da passagem-em-revista do ano que finda. Os acontecimentos desportivos, políticos, culturais e sociais mais marcantes são colocados em top's e para todos eles não falta um comentador, uma análise detalhada e uma projecção para um futuro próximo das suas possíveis e eventuais implicações.
Ora, juntando-me a tal exercício, não podia deixar de eleger o "meu" acontecimento de 2008 - nem mais nem menos do que a Lei Anti-Tabaco.
Há um ano atrás, as expectativas de uns tantos desabridos não-fumadores zelotes eram grandes. De um momento para outro, lembraram-se tais sujeitos de reivindicar os seus direitos, durante tanto tempo ou mesmo desde sempre, "marginalizados".
Quase num espírito de "jihad", a que se aliava um sentimento mesquinho de "censura pidesca" - tão caro a um certo modo de ser português (suave?) -, essa nova classe social da "malta saudável" tomou como uma espécie de compromisso paternalista zelar pela salubridade de todos os espaços livres de fumo e encetar os esforços necessários para que todos os fumadores se vissem arredados da frequência de qualquer estabelecimento, que, para todos os efeitos e mesmo contrariando a vontade do seu putativo proprietário, nunca poderia vir a optar por ser um reduto de prazeres sociais que passariam a não constar da lista do "bom-gosto" ou do "modo de vida saudável" aprovado.
De qualquer modo, foi com profundo prazer e regozijo notar que, um ano passado, venceu o bom-senso, uma certa coragem e a boa-educação.
O bom-senso de todos aqueles que souberam atribuir a conceitos legais e abstractos a adaptação material a cada caso concreto, como é imposto num Estado-de-direito democrático. De facto, esteve bem quem pugnou por atalhar caminho até à essência das coisas e ver num sistema de ventilação, isso mesmo: um sistema de ventilação capaz e que assegurava os parâmetros de qualidade do ar agora exigidos, não necessitando de ser, ao invés, algum modelo que ainda estivesse para ser inventado, criando assim uma impossibilidade prática, forçando o mais que querido resultado de que, por decreto, mais ninguém viesse a fumar num café que, legalmente, tendo as dimensões exigidas, poderia optar por ser para fumadores.
Uma certa coragem dos empresários hoteleiros em "desapertar os cordões à bolsa" e fazer as adaptações necessárias aos seus espaços, no sentido de conservar a sua clientela fumadora, rentabilizar o negócio e recriar assim os espaços de convívio de que sempre foram - e querem continuar a ser - proprietários.
A boa-educação dos fumadores por terem sabido sempre responder com elevação e merecida indiferença à provocaçãozinha, aos olhares reprovadores e vigilantes destes novos guardiões da moral e da vida correcta, que, pela primeira vez na vida, viam, no seu desejo de serem conhecidos, os méritos pessoais e privados dignos de medalha e elevados a cartilha de conduta a ser imposta a outros, pobres coitados, transviados do bom caminho.
Um ano passou e devo dizer que esta Lei em nada me incomodou, enquanto fumador. Os espaços que optaram por ser livres de fumo, deixei-os de frequentar; troquei-os por aqueles que continuaram a permitir-me degustar o meu "SG", ao sabor de uma bica e de uma água com gás, fazendo aí a necessária despesa.
Nas saídas à noite, não me faltaram os bares com bom ambiente, boa música e, claro está, o já conhecido dístico azul.
No que toca aos restaurantes, foi uma questão de hábito, mas graças às listas que todos nós fumadores fomos publicando, tive a hipótese de escolher sempre onde me viria sentir melhor e livre de puxar do isqueiro e do maço.
No fundo, é com uma grande "barrigada de riso" que me recordo, por exemplo, de seguranças de centros comerciais prontamente virem advertir as pessoas que ali não podiam fumar, quando elas apenas traziam na mão um cigarro... apagado! Mas centros comerciais, são centros comerciais e, no fim de contas, é algo que não me atrai. Ao ver a mole humana que por ali pulula, alienada, sem ideias, sem futuro e "quase-esponja" consumista - mas saudável... - a minha primeira reacção é fugir. Fique a malta saudável com o seu passeiozinho de fim-de-semana, que isso não me interessa para nada.
Balanço feito, posso, pois, concluir: se pensavam que iriam ensinar lições de boa vida e bem-estar a alguém, mesmo contra a sua vontade, enganaram-se. Há sempre alguém que sabe pensar! "So much for the virtue"!

5 comentários:

Mariana disse...

Subscrevo inteiramente!

RJ disse...

Os não-fumadores são totós e não sabem pensar.

AugustoMaio disse...

Uma análise ao ano fugido que igual e reconhecidamente subscrevo.

AugustoMaio disse...

Uma análise ao ano fugido que igual e reconhecidamente subscrevo.

ViriatoFCastro disse...

RJ, vejo que ainda não abandonaste essa tua posição um tanto ou quanto fundamentalista. Mas, não te preocupes, porque mesmo fumando no Fórum Coimbra, como já podemos em certo estabelecimento, e brevemente no El-Corte Inglès, aí para os teus lados, mesmo fumando, dizia, estaremos sempre dispostos a ir visitar aquelas boas papelarias de que gostamos.